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O Brazil conhecendo o Brasil

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Em Querelas do Brasil, canção que assina com Maurício Tapajós, Aldir Blanc versa sobre um Brazil, estereotipado e dominado pela cultura internacional, que desconhece o Brasil real, com identidade própria e todas as suas peculiaridades. Quase 40 anos depois da composição da música, a Mostra de Cinema de Tiradentes contraria sua letra, mostrando que o Brazil quer sim- e mais do que nunca – conhecer o Brasil, pelo menos no que diz respeito aos novos realizadores de cinema.

Na edição deste ano, o evento teve a presença de diversos nomes do cenário cinematográfico internacional, algo que, segundo a organização, é tanto reflexo da maior entrada dos filmes nacionais em festivais estrangeiros, especialmente na Europa e América Latina, quanto motivador do crescimento desta participação.

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Durante o debate Um olhar sobre o cinema brasileiro, realizado ontem em Tiradentes, o assessor internacional da Ancine Eduardo Valente anunciou a criação do projeto Encontros com o cinema brasileiro , uma iniciativa feita em parceria com o Ministério das Relações Exteriores. A ideia é institucionalizar a apresentação da produção nacional a curadores de 12 festivais internacionais. A partir de março, membros do conselho curador dos festivais de Cannes, Veneza, Berlim, Toronto, Sundance, Roterdã, Locarno, San Sebastian, IDFA, Xangai, BAFICI e Roma terão a oportunidade de assistir, em salas de cinemas cariocas, a um conjunto de filmes recém-finalizados ou em fase de finalização.

Participaram da mesa Diego Marambaio, representante da INCAA (órgão argentino equivalente à Ancine), Anne Delseth, programadora da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, e Bernard Payen, programador da Semana da Crítica, outra mostra paralela do festival francês, no qual o longa Na estrada, de Walter Salles, deixou a marca verde-e-amarela. Sérgio Fant representou o Festival de Locarno, na Suíça, que tem sido um importante celeiro na Europa para filmes independentes brasileiros.

Para Anne, a diversidade é o traço mais característico do cinema brasileiro contemporâneo, e a Mostra de Tiradentes tem atuado como uma cobiçada vitrine de novos trabalhos. Vim a Tiradentes no ano passado, e dois curtas- Porcos raivosos, de Leonardo Sette e Isabel Penoni, e Os mortos-vivos, de Anita Rocha da Silveira – foram selecionados para Cannes em 2012. Acho que é muito útil vir à cidade e conhecer de verdade os jovens diretores e produtores, podendo passar algum tempo com eles nessa cidadezinha e acompanhar seu trabalho de perto.

Também argumentando a favor da pluralidade, José Roberto Rocha Filho, da Divisão de Promoção Audiovisual do Ministério das Relações Exteriores, acredita que o olhar estrangeiro sobre a produção nacional vem mudando. A consagração internacional do Cinema Novo, e em especial da grande figura que foi Glauber Rocha, por muito tempo ocupou o imaginário internacional. Ainda que essa respeitável herança seja presente até hoje, acredito que estamos nos reposicionando diante dos olhos estrangeiros como um cinema marcado primordialmente pela diversidade, com toda uma nova geração de realizadores disposta a mostrar que o Brasil é múltiplo e que essa complexidade é o que de fato enriquece nossa cultura.

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Já Eduardo Valente destaca um dos atrativos do festival mineiro – sobretudo para os olheiros internacionais – é a sua transparência em relação ao tipo de trabalho que é priorizado. Tiradentes é a vitrine principal de uma determinada produção cinematográfica brasileira, mas não toda ela. Aqui se vêem os filmes autorais, independentes, que propõem uma maneira de filmar distinta do cinema comercial. Creio ser muito importante os festivais saberem que têm espaço para propostas diferentes de recortes.

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A distância do circuito comercial observada no evento da cidade histórica parece refletir a realidade da participação brasileira no cenário cinematográfico do exterior, e isso direciona as políticas públicas de fomento à distribuição fora do país. Nossa inserção nos circuitos comerciais estrangeiros é tímida, ainda que crescente. Por outro lado, o cinema brasileiro tem uma presença constante no circuito de festivais internacionais. A ação do Estado, seja no fomento ou na promoção, deve ser levada em conta quando se analisa esse quadro, explica José Roberto Rocha Filho, do Ministério das Relações Exteriores.

Na visão de Eduardo Valente, aspectos como o isolamento em decorrência da língua portuguesa e o próprio interesse dos realizadores no mercado nacional – em um país diverso e culturalmente rico como o Brasil – acabaram voltando, historicamente, a produção para dentro do país. Apesar disso, o hábito de pensar os projetos também para o mercado externo tem se tornado mais comum nos últimos anos, principalmente entendendo que os produtos que queiram explorar esses mercados sistematicamente (e não só com exceções eventuais, como um ‘Cidade de Deus’) precisam ter essa internacionalização no seu DNA.

No que depender de seus curadores, as portas de grandes festivais internacionais devem continuar abertas ao Brasil. Não selecionamos os filmes seguindo cotas de países, então não começamos a seleção dizendo que queremos um filme brasileiro. Se houver um bom, nós o escolhemos, e se for brasileiro, melhor ainda. Vir a Tiradentes é prova de que adoraríamos descobrir um filme brilhante e de que os jovens diretores brasileiros são importantes para nós, e que nós acreditamos muito nas produções do país, finaliza Anne Delseth, uma importante voz do Festival de Cannes.

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