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Água de beber

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Miguel Pereira (RJ) – Se em um primeiro momento, o artesanato da cachaçaria pode parecer algo extremamente simples, fruto apenas da cana-de-açúcar, ao conhecer um alambique, todo o processo pode ganhar outra dimensão, resultado da complexidade que fazendeiros incutem ao longo da fermentação e destilação da mistura entre garapa e água. Considerada a cara do Brasil, a cachaça passa por uma boa fase, e seu prestígio é crescente entre brasileiros e estrangeiros. Situado na Região Sul do Rio de Janeiro, o Vale do Café, classificação com base no turismo, engloba 15 municípios e mais de duas dezenas de alambiques. A 150km de Juiz de Fora, a pequena Miguel Pereira é uma das cidades que possui maior número de pousadas e hotéis e que melhor se localiza na rota das cachaçarias, a maioria delas a aproximadamente 10km do centro, por estrada de terra.

Na fronteira entre os municípios de Vassouras e Miguel Pereira, a Fazenda do Anil produz uma das marcas mais emergentes no ramo. Criado em 1984, o alambique da Cachaça Magnífica só decolou em 1997, quando o engenheiro João Luiz Coutinho de Faria decidiu comprar a fatia de dois amigos na sociedade e investir sozinho numa bebida que alcançasse a qualidade exigida fora do Brasil. Após conhecer destilados produzidos na Suécia, em Barbados, no México, entre outros países, Faria apostou na originalidade e no requinte de um produto até então desdenhado pelo lugar que inventou a receita. "Tem um espaço muito grande para a cachaça no mundo", observa o empresário, que prefere utilizar o nome cachaça ao termo aguardente ("muito simplificador") ou pinga ("pejorativo").

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Fornecida para grandes hotéis da capital fluminense, como Sheraton, Othon e Copacabana Palace, a cachaça produz tanto a fórmula tradicional, sem envelhecimento, quanto a bebida envelhecida (na média de dois anos), a reserva (preservada em barril de carvalho por 2 anos e meio) e a soleira (a top de linha reservada por 40 meses). "O envelhecimento é a etapa mais cara de todo o processo da cachaça", explica Faria, apresentando, numa pequena garrafa, o resultado de uma alquimia que chega a durar quase quatro anos e possui um tom acastanhado, próximo ao whisky. Produzindo 200 mil litros por ano, o alambique exporta 60 mil para Europa e América Latina, sendo três mil dessas apenas para a rede de bares inglesa Las Iguanas.

"A visitação aos alambiques é muito importante para a cachaça no país e no mundo", pontua Faria, certo de que o contato com o processo ajuda a desmitificar a imagem de uma bebida pouco elaborada. Muito pelo contrário, o que se vê na "rota da cachaça" é um misto de história do Brasil com aula de química.

 

A poucos quilômetros depois do ponto de encontro entre Miguel Pereira, Paty do Alferes e Vassouras, a Fazenda Santo Antônio do Cachoeira é uma espécie de aldeia, com cemitério, casas, alambique e cocho, além de uma suntuosa casa-sede cravada entre árvores remanescentes da Mata Atlântica. Construída no Caminho Novo da Estrada Real, onde eram feitos os carregamentos dos tropeiros no século XVIII, a sesmaria da fazenda data de 1755 e a casa principal, para alguns historiadores, é de 1810.

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Com linhas retas, cores sóbrias e sem ostentar riqueza, a casa pertence ao estilo de casa rural dos bandeirantes e seduz pela simplicidade de seus cômodos e lustres. Com uma capela em seu interior, a residência pertencia ao alferes João Barbosa dos Santos, grande produtor de café na região durante a primeira metade do século XIX. Segundo o biólogo e guia de turismo Claudio Ribeiro, a fazenda reserva um dos mais inquietantes mistérios da cidade: uma estátua ao pé da escada de entrada da casa-sede sem a cabeça, que, diz a lenda, está enterrada junto a um tesouro.

Produtora da Cachoeira de Cachaça, marca popular no Vale do Café, a fazenda preserva um alambique com estrutura bastante antiga e máquina de moagem e vapor incrivelmente grandes. Sócio-proprietário da aguardente, Gilson Bittencourt explica que o alambique funciona de segunda a sexta e mantém uma intensa produção, capaz de abastecer um grande número de bares da Região Sul-fluminense. Para ele, que produz uma pequena quantidade da bebida envelhecida, não é necessário reservar o produto por mais de dois anos, para que não incorpore o sabor amadeirado.

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