
A repórter especial da Tribuna, Daniela Arbex, foi um dos destaques literários de 2015 com “Cova 312”
Contemplado pela Lei Murilo Mendes, o editor da Tribuna Wendell Guiducci apresenta a boneca de “Curto & Osso”
A literatura inicia a série que começa hoje no Caderno Dois e segue até esta sexta-feira, trazendo as obras que se destacaram em 2015 e as promessas para 2016 no setor cultural. Apesar da redução na verba destinada à Lei Murilo Mendes, o ano começou com ganhos. Em janeiro, estreou o quadro “Sala de leitura”, comandado por mim, na Rádio CBN Juiz de Fora. Nos seis minutos ou até 15, conforme o convidado do dia, apresentei histórias e personagens. Às vezes ri, às vezes chorei nos bastidores. Foi o ano em que conheci um pouco mais sobre Malala Yousafzai, ao conversar com a jornalista Adriana Carranca, e pude me aprofundar nas instigantes teorias sobre relacionamento de Fabrício Carpinejar. E essa lista de felizes encontros é engrossada com nomes locais, como os repórteres da Tribuna Daniela Arbex e Mauro Morais, e os escritores Fernando Fiorese, Knorr e Magda Trece, responsáveis por alguns dos títulos que foram para as prateleiras no ano.
Quando 2014 ficou para trás, e a crise econômica batia às portas, logo veio a incerteza quanto à continuidade da Lei Murilo Mendes. O edital foi publicado, mas a verba veio menor. O R$ 1,1 milhão da edição anterior foi para R$ 850 mil em 2015, correspondendo a uma redução de pouco mais de 20%, e o número de projetos aprovados caiu de 65 para 50. Com o pagamento do fomento, pode-se esperar, para os próximos meses, 12 lançamentos de livros na cidade, seis a menos que em 2014.
Entre os contemplados, estão Darlan de Oliveira Lula, com “Todos os dias – contos”, Marisa Timponi, com “O processo da invenção na busca da liberdade” (uma leitura crítica da poética de Murilo Mendes), Iacyr Anderson Freitas, com “35 anos de poesia”, Hélio Alves Ribeiro, com “Histórias e segredos – 1”, Lara Romano Daibert, com “Não são meus os seus poemas – Ivan Daibert”, a repórter da Tribuna Júlia Pessôa e seu “Quase toda prosa – crônicas e atrevimentos”, e o editor também da Tribuna, Wendell Guiducci, que leva os “apanhados das minificções” de “Curto & osso” (www.curtoeosso.blogspot.com), onde escreve regularmente, para o meio impresso.
“Descruzou as pernas, deixou o livro sobre a mesa da cozinha e desceu para a garagem. Ali começou a traçar o seu projeto de vida definitivo: mataria um poeta por dia até que seu deus estivesse saciado”, anuncia ele em um dos poemas. “São contos mínimos, de poucas linhas, meio híbridos, que dialogam com vários outros gêneros literários e extraliterários, como a crônica, o poema, o grafite e o cinema”, antecipa o jornalista. De acordo com a secretaria da Lei Murilo Mendes, os escritores têm até oito meses, a contar da data do recebimento da verba, para entregar os projetos literários à cidade. Conforme o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, o pagamento deve ser feito a partir de janeiro de 2016.
Letras que marcaram
Dona do segundo lugar no Prêmio Jabuti de 2014, por “Holocausto brasileiro”, a repórter especial da Tribuna, Daniela Arbex, voltou ao mercado editorial em 2015 com o livro “Cova 312” (Geração Editorial). Na obra, a jornalista retorna ao drama de Milton Soares de Castro, guerrilheiro dado como desaparecido durante os sombrios anos de chumbo. O caso já havia sido visitado por ela em uma série de reportagens publicadas em 2002 e que lhe rendeu o Prêmio Esso e menções honrosas nos prêmios Vladimir Herzog e Lorenzo Natali. “O ano de 2015 consolidou em mim o desejo de ser porta-voz dos silenciados”, revela a autora, confidenciando que “Cova 312” nasceu de um momento de maturidade na carreira.
“Mais densa que o ‘Holocausto brasileiro’, a obra revelou detalhes de um Brasil que ficou 21 anos sob o manto da ditadura civil-militar. Ela me deu a oportunidade de contar uma história que não havia sido revelada pela história oficial. Apesar de ter sido sucesso de crítica, o que me deixou mais feliz foi ver os novos leitores que o livro conquistou”, conta a jornalista, já debruçada em um novo projeto ainda guardado a sete chaves.
Também prata da casa, o repórter Mauro Morais fez uma espécie de “acerto de contas com o passado”, como ele mesmo diz, ao tomar coragem para abrir documentos, fotografias e poemas entregues a ele pela avó. Nos pacotes, estavam os escritos do pai, Mauro Fonseca, publicados na antologia “Entre o aborto e o parto”. O poeta da geração “Abre Alas” e “D’ Lira” pôs um ponto final na própria existência, quando o filho ainda estava no ventre da mãe. “O livro ainda não acabou. Ressoa dia a dia na minha vida, seja pela leitura de outros, seja pela minha percepção de tudo, que cresce em lucidez na medida em que me distancio novamente. É incrível saber que o livro já está esgotando. É incrível saber que essa história, que eu sentia tão pessoal, faz sentido para os outros. Isso me ajuda a voltar para minha própria história com olhos mais generosos e felizes.”
Histórias que emocionam
O quadro Sala de Leitura recebeu nomes nacionais, como Ignácio de Loyola Brandão, falando sobre “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna), Maitê Proença, apresentando “Todo vícios” (Record) e Sérgio Abranches, confidenciando “Que mistérios tem Clarice” (Biblioteca Azul).
Um dos grandes títulos que saíram do forno este ano foi “O nascimento de Joicy – Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem” (Arquipélago Editorial). Fabiana Moraes trouxe o drama de Joicy, com quem ela se encontrou em uma fila de mulheres transexuais que buscavam o serviço público de saúde para conseguir a redesignação sexual. Em entrevista ao quadro e à Tribuna, a jornalista pernambucana defende a pertinência de sua obra. “A gente precisa entender que o que é considerado feminino é socialmente construído. O que determina ser mulher ou homem – ou mesmo sem ser mulher e homem, porque a gente também nunca pensa nas pessoas que são intersexos, e elas existem – é uma questão muito mais subjetiva. De fato, é uma questão de identidade. Acho que a gente não pode estabelecer nem a biologia nem a cultura como determinantes”, afirma.
Para os pequenos juiz-foranos, 2015 foi a oportunidade de conhecer a Vó Filó, de Magda Trece. A divertida caçadora de maravilhas deu à meninada o livro “Vó Filó” (Gryphon Edições), pegou sua sombrinha preta de bolinhas brancas e saiu por aí contando histórias. Continuando as recordações, não dá para deixar de fora os livros “Cordas cor de ais” (Funalfa), de Felipe Moratori, “Casa de madeira” (Funalfa), de Darlan Lula, “Juiz de Fora ao luar – uma antologia” (Gryphon Edições), organizado por Maria Helena Sleutjes, “Senescência”, de Nina Mello” e, por fim, “Totem” (Funalfa), de Knorr. A escrita de Knorr é ágil, sintética e foge do comum pelo formato: 81 poemas visuais impressos em lâminas 15×10 cm, reunidos em um “livro-caixa”.

