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Outras Ideias com Reginaldo Barbosa da Silva

bulu criou a lixarte na vila olavo costa onde vive leonardo costa19 11 2015

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Bulú criou a Lixarte na Vila Olavo Costa, onde vive (Leonardo Costa/19-11-2015)
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Bulú criou a Lixarte na Vila Olavo Costa, onde vive (Leonardo Costa/19-11-2015)

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Quando Reginaldo Barbosa da Silva, 56 anos, se levantou, há dez anos, não encontrou apenas a lucidez que o álcool havia lhe tirado. Deparou-se, no lixo, com a dignidade que a mãe lhe ensinou, desde pequeno, ser a coisa mais importante na vida. “Fomos, eu e meus irmãos, criados pela minha avó também, que nos ensinou a respeitar as pessoas. Não tem como falar que morar na periferia é não ter educação. Nossa mãe, que todos os dias varre a rua inteira, pode não ter tido uma faculdade, mas soube nos educar, mostrando-nos o caminho do bem”, emociona-se o morador de uma casa sem acabamentos, no segundo pavimento da residência da mãe, na Rua da Esperança, no Bairro Vila Olavo Costa.

Quando Reginaldo, que de pequeno ganhou o apelido de Bulú por tanto chorar e avó ninar dizendo “bilú, bilú, bilú”, tirou os olhos do chão e vislumbrou o que os dias ainda podiam lhe oferecer, escolhendo a arte como instrumento para levantar muitos outros. Há dez anos, criou a Lixarte, associação que transforma materiais recicláveis em objetos como cadeiras, pufes, mesas e luminárias. “Sou um dependente do álcool, e o que aprendi a fazer com a garrafa pet foi uma terapia ocupacional. Na época, estava paralisando com a bebida e, com o apoio da minha família, fiz um curso. Meus colegas falaram para eu fazer um projeto para a Lei Murilo Mendes, me ajudaram, e acabamos aprovados com 80%. Aí, começamos a dar cursos para as crianças aqui na Vila, e, então, pensei em criar uma entidade para dar continuidade ao trabalho.”

Impulso do poço

O menino nascido no Furtado de Menezes e criado, desde os 4, no Olavo Costa, foi servente de pedreiro para o pai, entrou para o quartel, depois foi trabalhar numa oficina e aprendeu a função de um mecânico retificador. Morou no Espírito Santo, em São Paulo, “trabalhando com reforma de máquinas operatrizes, torno, fresa, plaina, montando motor, cabeçote, do lavador à sessão de peças”, voltou, abriu a própria oficina, casou-se, teve um casal de filhos, construiu uma casa no Bairro Milho Branco, ganhou bons salários e tudo perdeu. “Com o tempo, você fica achando que só bebe socialmente, mas não é verdade. Tinha dias que eu levantava e já tinha que pegar um copo”, conta ele, que deu o primeiro gole aos 14 anos. “Bebi a oficina, a família e tudo o mais. Paralisei, parar, só com a morte”, diz, com o orgulho da superação, vencida dia a dia. “A Lixarte é a transformação do lixo e do ser humano, porque, para mim, ela foi meu renascimento”, completa o homem de fala articulada, a despeito do abandono das salas de aula quando cursava a quinta série do fundamental. Perseverante, também soube contornar a situação: “Agora, fiz o Telecurso 2000 e só estou devendo matemática para concluir o ensino médio. Já fiz o Enem três vezes.”

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Por todos

O que começou como uma forma de desviar os olhos dos copos, aos poucos transformou-se em goles de esperança para jovens. Bulú já foi convidado para ministrar oficinas em bairros carentes, como Belo Vale I e II, Nova Germânia, Ponte Preta, dentre outros. Também já coordenou time de futebol amador no Milho Branco e realizou festas de cinco dias na Vila, além de ter montado o bloco Unidos da Vila Olavo Costa. Agora, retoma a prática da percussão com adolescentes e prepara uma escola de samba mirim, com crianças de 7 a 14 anos. “Meu pai fazia esse tipo de trabalho na comunidade. Muitas das casas daqui foram feitas por ele, sem cobrar nada”, recorda-se. “A Lixarte me apresentou a todos os movimentos que agregam a periferia e o povão. Hoje em dia, se eu bobear, não tenho tempo”, brinca o auxiliar de serviços gerais da Prefeitura, aprovado em concurso no mesmo ano em que abandonou o álcool, lotado na Secretaria de Desenvolvimento Social.

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O norte

Aos 16 anos, o sobrinho-neto Lucas olha para Bulú com admiração. Parece querer dizer que quando a plantação é consciente, frutifica, que nenhum chão é completamente estéril. “Ele é um exemplo para mim, foi quem me ajudou a fazer tudo, até na escola”, pontua o jovem. Era exatamente isso que Reginaldo sonhava ouvir quando se levantou do vício. Desejava tornar sua voz audível a muitos ouvidos. Hoje representante da cultura popular no Conselho Municipal de Cultura e vice-presidente do Conselho Municipal de Promoção à Igualdade Racial, festeja a conquista do feriado do Zumbi em Juiz de Fora, aprovado pela Câmara essa semana, em votação que ele acompanhou de perto. “Não vamos ficar à toa nesse dia, mas vamos ocupar a Praça Antônio Carlos com oficinas e muita programação cultural”, comenta ele, que, por ser médium, no Terreiro de Santo Antônio, no Dom Bosco, acaba de ser convidado para um curso de capacitação para os homens de terreiros, que acontecerá em janeiro, durante uma semana, no Rio de Janeiro, com lideranças nacionais. “É assim. Conhece um, conhece outro, até achar uma pessoa que diz que pode investir em seu trabalho. Tem que fazer, sempre. Um dia as coisas dão certo”, assevera, certo de que ainda há muito para fazer um amanhã solar. “Não adianta forçar a juventude, é preciso dar exemplos.” Quando se sentia um lixo, Bulú descobriu o lixo e decidiu dar um sentido diferente, para os restos dos outros e para o resto da própria vida.

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