
Laura Lima, que esteve em Juiz de Fora, busca sempre criar um novo embate, um novo choque
Ela fez uma espécie de chapéu de barro que, na verdade, funciona como um vaso de plantas. Nomeou, em 2008, como “Jardins pra cabeza”. Três anos antes, criou “Monte de irônicos-palhaço simples”, um palhaço que se senta no canto da galeria. Em 2009, fez “Mãos”, trabalho no qual dois buracos na parede servem para que alguém vaze a mão pela passagem e segure, do outro lado, uma obra de arte emoldurada. “Galinhas de gala”, de 2004, mostra os animais com plumas de carnaval unidas a suas penas originais, utilizando a técnica de alongamento de cabelo humano. A imensa rede, com mais de 30 metros, que apresentou em 2010 na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro, reunia um casal nu em atitude contemplativa. Laura Lima, definitivamente, não se interessa em atender expectativas. Sua intenção é, sempre, encontrar algo novo, criar um novo embate, um novo choque.
Considerada uma das principais artistas plásticas contemporâneas do Brasil, a mineira de 41 anos, nascida em Governador Valadares e radicada desde os 16 anos na capital fluminense, ganhou o mundo fazendo o que ainda não tem nome. Segundo ela, não é performance, mas também não chega a ser objeto. Ainda que faça desenhos – e eles sempre desconstroem a própria ideia do desenho – e tenha trabalhos para ser fixados nas paredes, Laura representa o momento atual das artes, sobre o qual só o tempo poderá responder. Enquanto nesse ano expôs individuais na Suécia e na Holanda, suas obras foram adquiridas por grandes museus do globo. O tal palhaço, por exemplo, hoje pertence ao acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Na última quinta, a artista esteve em Juiz de Fora, para palestra no Instituto de Artes e Design da UFJF e conversou com a Tribuna. Sócia d’A Gentil Carioca, uma das galerias mais alinhadas com as vanguardas artísticas do país, Laura falou sobre seu ofício, na complexidade de ainda não ser classificado e, muitas vezes, nem sequer compreendido. Mas a artista de cabelos ruivos e ar retrô não está interessada em definições, quer apenas fazer. Sua arte tem o compromisso com o presente, o que já é extremamente complexo.
Tribuna – Uma crítica já disse que seu trabalho está entre a performance e o objeto, em um entre-lugar. Você consegue caracterizá-lo?
Laura Lima – Acredito que ela queria dizer da coisa de objetificar a matéria. E à minha matéria ainda não foi dado o nome. Qualquer obra de arte, quando é feita, ainda tem a característica de ser um fenômeno. E não porque são coisas vivas, mas serviria para uma pintura. Acho que meu trabalho está entre-mundos, mesmo. Gosto disso, de tirar a obra da zona de conforto. Sempre estou pensando numa nova forma de nomear a obra, ou se essa matéria pode ser aplicada em outra circunstância, ou em como lidar com coisas simples, colocando uma obra sobre a outra.
– E onde ficam os suportes tradicionais?
– Tenho alguns trabalhos que são comentários de outros. O “Ouro flexível” é uma série de desenhos que faço sobre a pintura, principalmente numa certa época, entre os séculos XV e XVIII. Eles são expostos como tal, e é inegável que demos a característica do desenho a ele, um suporte tradicional. Gosto de fazer, refazer e fazer torrentes de “Ouro flexível”. A obra de arte é do artista que a cria, porque ele pensa aquela linguagem, mas ela pertence ao mundo quando é feita.
– O lugar que você ocupa é o de romper com o estabelecido?
– Penso que existe certa domesticação. Gosto de pensar no comportamento. Quando estou lidando com um espaço de arte, como um museu, quais são as questões colocadas? Como posso criar, de maneira que não esteja em um estado de domesticação? Posso, inclusive, usar uma matéria em outra condição e nomeá-la de outra forma. E não serei a primeira a fazer isso. “Isto não é um cachimbo” (de René Magritte) já é isso. Digo que o que você olha em meu trabalho não é. É preciso que perceba a obra como um fenômeno, para que, assim, ela traga questões.
– Como é ocupar museus mundo afora?
– Quando expomos em outro lugar, consideramos esse espaço. Dependendo de cada lugar, há um histórico específico. Quando chego a um museu da Europa, me perguntam a triste questão: “Como é ser um artista latino-americano?”. Eu digo: “Não pergunto para meu amigo suíço como é ser um artista suíço”. Perguntam para mim como se esse fosse o lugar do exótico. Isso existe muito ainda e precisa ser quebrado. Às vezes, as pessoas ainda têm certo “gap” para entender a história da arte brasileira, que é muito fundamentada, com muitas referências. Muitas vezes, os estrangeiros acessam grandes figuras como o Hélio (Oiticica) e a Lygia (Clark), mas não dão conta, e acho que nem gostariam de dar.
– Qual é seu diálogo com a história da arte brasileira?
– Não estabeleço diálogo direto com nenhum artista específico. No meu caso, dependendo da obra, às vezes chego a fazer citações muito diretas. Um artista que me é bastante caro é o Flávio de Carvalho, por que ele era uma figura que saía dessa coisa de trabalhar com algo específico. Ele aparece, numa época, e fica um pouco solitário, perdido, à deriva.
– Você se sente solitária?
– Talvez esteja em uma condição de mundo, porque o artista está sempre deslocado, como se tivesse um fuso horário diferente. Acho que, com o passar dos anos, as pessoas que lidam com meu trabalho já conseguem entender uma linguagem. Não posso dizer que estou em outro patamar, e ninguém me entende. A questão de chamar a obra de performance, as pessoas já entendem que posso não nomeá-la assim. Mesmo que eu lide com o humano, que é matéria, não preciso chamar de performance.
– Seu trabalho se posiciona claramente…
– Ele não está para ser construído pelo outro, mas tem coisas abertas. A própria nomeação. Eu, que estou criando tanta coisa, ainda tenho que dar um nome? Esse é um problema nosso, para o futuro.
– Como é ter obras compradas por museus?
– Como trabalho com pessoas, sinto que existe muita defasagem dos museus brasileiros, que não conseguiram catalogar artistas que também trabalham com isso. Como meu corpo nunca foi presente nas minhas obras, a questão das instruções sempre foi muito importante. Quando trabalho com um museu, digo: “Olha, essa obra se mostra de tal forma”. Faço um contrato com o museu, para que ele realmente cuide da obra. Um museu é um lugar que precisa lidar com o pensamento do artista, não pode fazer o que quer a seu bel prazer. Concessão conceitual o artista não pode fazer, a obra tem que ser tal e qual pensou.
– Falando da galeria A Gentil Carioca, até que ponto ela te serve e até que ponto você se serve dela?
– Ela é um encontro maravilhoso para todos nós, ela está para ser um canalizador. Fazemos exposições de artistas que não necessariamente representamos, querendo vivenciar a arte contemporânea. Foi um projeto político, até mesmo por não querer o dinheiro do governo. A primeira exposição que fizemos foi de um artista da Paraíba, nem foi um carioca, porque queríamos dizer que temos tudo, mesmo, mas temos muito mais ao redor.
– Hoje é um projeto artístico?
– Uma coisa não exclui a outra. Fizemos exposições de aristas consagrados, como Renata Lucas, que, na primeira vez que esteve lá, quis abrir um quarteirão inteiro. Falamos: “Então, vamos lá!”. Estamos o tempo todo sendo testados, porque há artistas que querem cada um uma coisa mais diferente da outra. Mas queremos encontrar isso, justamente. Não nos interessamos pela forma mais fácil.
– Já encontrou n’A Gentil Carioca alguém mais contemporâneo que você?
– Claro. Diz a física quântica, que se estamos ainda vivos, estamos todos misturados. Contemporâneos, ainda têm muitos para aparecer e desabrochar.

