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‘A brasilidade não tem que ser uma caricatura’

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Uma pessoa no superlativo. Alto demais, colorido demais, simpático demais e expressivo demais. Se não fosse um dos nomes mais relevantes da moda brasileira contemporânea, o estilista Dudu Bertholini poderia reinar como um exuberante personagem de quadrinhos. À frente da marca Neon, que encerrou as atividades da confecção em junho, quando completou dez anos de criação, Dudu vive uma nova fase profissional, sem abrir mão da parceria com Rita Comparato, com quem divide a grife. Das luzes de seus aclamados desfiles, surgem, agora, cores menos vibrantes, mas igualmente quentes. Em suas recentes criações, Dudu deixa aflorar a versão rock, sem apagar o pop que o consagrou. A Neon não acabou, é apenas uma nova fase, não se cansa de falar, pontuando que a mesma mão que cria uma roupa deve projetá-la para outras praças, num dinamismo próprio do século XXI. Em visita à Juiz de Fora, onde ministrou um workshop no sábado e domingo, o estilista conversou com a Tribuna e falou sobre sua carreira e seu processo de criação. Adepto aos adjetivos, não deixou faltar a eloquência que, engana-se quem pensa, não estão apenas em suas roupas.

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Tribuna – Você anda sempre muito colorido, mas hoje está mais punk.

Dudu Bertholini – Na verdade, eu também tenho uma faceta da minha personalidade que é super rock’n’roll. Sou muito conhecido pelos kaftans, pelas estampas exuberantes, mas tem um outro lado meu que é fã de Guns N’ Roses e tem essa cultura punk rock e street style que é bem forte. Tenho licenciado produtos pela Neon e também pela marca Dudu Bertholini, o que é uma novidade de dois anos para cá, com essa pegada. Acabei de lançar uma linha de óculos de sol com meu nome, fiz uma linha para a coleção da Use Lets, site on-line, com campanha da Maria Casadevall, e dei uma pegada mais rock’n’roll, que até diferencia um pouco da Neon. O legal da moda é poder brincar com diferentes personas. Mesmo pessoas como eu, com estilo tão marcante e identificável, tem muitas nuances.

– Como você se sente nesta nova fase da Neon?

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– Para mim, esse ano 13, o ano da serpente, da mudança, está sendo fantástico. Toda mudança vem com dificuldades. Não foi fácil para nós a decisão de ter que fechar a confecção. Porém a marca está longe de acabar. Pelo contrário, ela vai se reinventar. Estamos propondo um novo modelo de negócio, saindo na frente com a questão dos licenciamentos. Acho que não só a Neon, mas muitas outras marcas do Brasil passam por essa fase. Hoje em dia, com essa competição superagressiva dos países emergentes, o fast fashion, as desvantagens de fazer um produto 100% nacional, tudo isso fez com que estilistas tivessem que se reinventar. Um estilista, muito mais que desenhar roupas tem que ser um frontman da marca, precisa ser o homem do marketing, do branding, tem que vender não apenas a roupa, mas o universo da marca. Nesse sentido é isso que vamos fazer: pegar os dez anos de história e aplicá-los de uma nova forma no mercado. Com essa mudança e por não haver mais uma empresa fixa, já que a Neon se tornou um escritório de branding, ganhei muito mais liberdade, física mesmo, de poder estar em diferentes lugares. Acabei de passar um mês e meio na Europa, lançando o 2 Fanzine, que é uma revista de imagem, independente. Estou muito feliz com essas novas perspectivas, de poder estar ainda mais multidisciplinar, multifacetado.

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– Você fala muito dos altos tributos à moda no Brasil. Esse panorama te revolta?

– Agora o mercado está se organizando para pleitear melhorias para o mercado de moda. Nós somos uma das maiores indústrias do país, movimentamos empregos e um dinheiro supersignificativo na economia brasileira. O que precisamos não é paternalismo – abaixem os impostos por que necessitamos de ajuda! Pelo contrário, precisamos que todo o mercado se legalize, para assim todo mundo poder melhorar. É muito injusto, hoje em dia, que a minha roupa, produzida 100% no Brasil, chegue ao exterior mais cara que o estampado do Push & Missoni, que mesmo no Brasil ela custe mais caro que o importado. Isso, realmente, não poderia acontecer.

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– E qual é a sua avaliação do incentivo via Lei Rouanet à moda nacional?

– Acho que seria muito melhor se esse incentivo viesse da própria indústria, que tivesse a ver com o lado empresarial e não com o cultural. Porém, moda é, sim, cultura. A Lei Rouanet não está aí para beneficiar apenas um ou outro. Se todo mundo puder pleitear, ela é mais do que válida.

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– Qual a importância da educação formal no seu universo?

– Isso é curioso porque realmente eu não me formei na faculdade, larguei o curso no começo do quarto ano e hoje sou coordenador de moda da Escola Sigbol Fashion e palestro, leciono pelo Brasil todo. De maneira nenhuma sou contra o ensino, mas acho que na moda, assim como nas artes, o estudante tem a possibilidade de modular seu conhecimento e ir atrás daquilo que o interessa. Diferentemente da medicina e do direito, temos oportunidade de, na prática e no mercado, nos direcionar em cursos técnicos, em workshops livres.

– E como você chegou ao ponto de se tornar reconhecido por transpor para a moda uma linguagem brasileira?

– Todo bom trabalho se relaciona com o lugar de onde vem, sem um ufanismo bobo. Dificilmente Bauhaus teria nascido no Brasil e a Tropicália, na Alemanha. Está em nós essa característica brasileira. Tenho essa personalidade expansiva, colorida e amo meu país. A brasilidade não tem que ser uma caricatura. Não precisamos falar só de futebol, samba e mulata. Isso, apenas, não identifica o país. Existem estilistas que têm trabalhos com roupagens mais internacionais e nem por isso deixam de ser brasileiros. No caso da Neon e de meu trabalho, essa brasilidade é mais óbvia, está nessa relação com o corpo, na exuberância das cores, e isso vem de mim e de minha paixão pelo país. Com meu trabalho, tenho a oportunidade de viajar para lugares que pouquíssimas pessoas conhecem do país, amo estar na rua, ir no mercado municipal, conhecer as pessoas, o artesanato, a cultura.

– Você acredita que a moda deve ser esse reflexo do contato com o outro?

– A moda é antropológica, e isso faz com que ela seja um grande espelho da sociedade contemporânea. Ela é um sistema que traduz os nossos desejos, não apenas na roupa, mas em tudo. Com a globalização, essas fronteiras se diminuíram, a gente vive esse mundo encolhido, e temos a chance de ser influenciados e influenciar os quatro cantos do mundo.

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