Quando, na semana que vem, Walter White selar seu destino e acabar com a gastura de milhões de espectadores de ‘Breaking bad’ ao redor do mundo, a televisão terá dado mais um passo rumo a sua consolidação como expressão artística. Carregado de contradições e profundidade, White é o protagonista da aclamada série americana da rede AMC, que exibe seu último episódio, no próximo domingo, nos Estados Unidos – o que significa que muitos brasileiros passarão a madrugada garimpando uma versão on-line do desfecho.
Representante de um novo formato de televisão, "Breaking bad" tem contribuído, junto a outros seriados, para retirar a TV do limbo de "entretenimento vazio" a que ficou relegada por décadas, ao contrário do cinema, que sempre foi reconhecido como forma de arte.
Na visão do colunista de cinema Gilson Salomão, esta mudança de perspectiva tem a ver com a transformação do telespectador, que não se deslumbra mais tão facilmente com o que passa na telinha. "Durante anos, os executivos mantiveram uma estrutura de entretenimento fácil e previsível para preservar uma ‘sensação de conforto do telespectador’, até perceberem que o público tinha mudado, expandido seus horizontes e que não mais se contentava com seus formatos padronizados."
A gerente de projetos digitais Ana Paula Nunes acredita que a demora no reconhecimento do potencial artístico da TV se deve a questões culturais. "A televisão surgiu quando o cinema já estava estabelecido, com características muito mais próximas do rádio, um veículo essencialmente popular, oposto ao conceito predominante de arte na nossa cultura, que ainda é de algo distante e externo. Acho que agora as produções televisivas estejam sendo reconhecidas como artísticas justamente por apresentarem hoje mais semelhanças com o cinema, com menos apelo popularesco", opina ela, que não perde os episódios de "Homeland", "Fringe", "American horror story" e "Orphan Black".
Já a produtora cultural Fernanda Amaral, aficionada por "Dontown Abbey", "The following" e "Bates Motel", acredita que a telinha e a telona estão caminhando, atualmente, em direções opostas. "Os filmes produzidos dos grandes estúdios utilizam cada vez mais recursos tecnológicos, tramas com pouco conteúdo e enredos velozes, seguindo quase um roteiro para jogos de videogame. Já as séries de TV passaram a investir em enredos complexos, focados em perfis psicológicos, com investimento em elementos como cenário e figurino além das interpretações de renomados atores, fatores que muitas vezes nem conseguimos perceber nos ‘blockbusters’."
Apaixonado incorrigível por séries, o jornalista José Eduardo Brum foi buscar conhecimento acadêmico sobre o assunto na universidade de Farleigh Dickinson, em Nova Jersey, onde cursa um módulo de redação de roteiros para TV e cinema. Para Brum, a evolução do formato televisivo deve muito aos canais fechados. "A TV fechada revolucionou o mercado com histórias mais ousadas, já que não estão sujeitas a censura. Os canais abertos sofrem com restrições de conteúdo. Não é à toa que, pelo segundo ano consecutivo, todos os indicados a melhor série dramática do Emmy, Oscar da TV norte-americana, são de canais fechados. Neste ano também concorre "House of cards", que é da Netflix, ou seja, totalmente veiculado na plataforma virtual."
‘O motor da mudança são as histórias’
Entre as razões apontadas para o engrandecimento do formato televisivo, uma é unânime: a elaboração de roteiros criteriosos. "Recentemente, têm sido trabalhados de forma mais complexa e densa", opina a gerente de projetos digitais Ana Paula Nunes. "O grande motor da mudança são as histórias. Os seriados ganharam dimensão, o roteiro está coberto de reviravoltas, os personagens são mais humanos, e conseguem criar identificação com o público mesmo em situações fantasiosas ou improváveis", completa José Eduardo.
Em sua visão, a grande popularidade de anti-heróis das tramas televisivas ilustra bem este poder de aproximação com o telespectador. "Protagonistas como Dexter (da série homônima, um serial killer), Dom Draper (de ‘Mad men’, publicitário que maltrata seus subordinados, é adúltero e falsário), Walter White (de ‘Breaking bad’, que de pacato professor torna-se um poderoso traficante de drogas) e Jackie (de ‘Nurse Jackie’, uma enfermeira viciada em analgésicos, que rouba os medicamentos), são cheios de defeitos e vícios, chegando a ser odiosos, mas é possível ver facetas que criam tremenda empatia", exemplifica José Eduardo.
Para Fernanda Amaral, a centralidade nos personagens, construídos com cada vez mais complexidade, é uma tendência nas produções. "Muitas histórias são focadas em perfis psicológicos e tramas de suspense, como é o caso de "Bates Motel" (série que retrata a adolescência do psicopata Norman Bates, personagem do filme ‘Psicose’, 1960, Hitchcock) e ‘The following’ (história de um psicopata que se inspira na obra de Edgar Allan Poe para cometer assassinatos).
Outra peculiaridade das criações televisivas atuais apontada por Fernanda é a produção meticulosa, atenta a cada detalhe. Para ela, a série ‘Downtown Abbey’, que se passa na Europa do inicio do século XX, mostra bem essa tendência. O enredo aborda a trajetória de uma família britânica representando a decadência da aristocracia do período, e tem como pano de fundo eventos históricos como o naufrágio do Titanic e a Primeira Guerra Mundial. "A fotografia, os figurinos e o cenário demonstram uma grande preocupação em retratar fielmente a época. Além disso, as interpretações são muito criteriosas. Por meio de movimentos sutis de cada ator é possível traçar o perfil das personagens", avalia a produtora.
Tanto "Bates Motel" quanto "The following", citadas por Fernanda, apontam para outro fator que fortalece a TV como arte: a relação com outras linguagens artísticas (no caso, o filme de Hitchcock e as obras do escritor inglês Edgar Allan Poe). Para Ana Paula, este processo de convergência é uma tendência da produção cultural contemporânea. "Acho que as mídias estarão cada vez mais integradas: um livro vira série e depois se transforma em filme, podendo dar origem a produtos on-line. Não acredito que esse processo possa contribuir para uma segregação de público, mas, sim, elevar a qualidade das produções."
Já José Eduardo Brum pondera que o alto padrão das produções televisivas atuais cria uma necessidade de elevação da qualidade de outras mídias, como o cinema, mas também pode ter consequências negativas. "Muitas séries com potencial têm sido canceladas porque não atendem a grandes expectativas de audiência. Isso garante mais histórias boas, mas pode ser ruim, porque os seriados passam a ser pensados em função de sua continuidade. É um desrespeito com o público que se permitiu conhecer uma série iniciante."
Para o criador do site cinefagia (www.cinefagia.com.br), Marco Victor Barbosa, além da relação com os criadores e o público, as premissas de mercado também estão sendo redefinidas. Segundo ele, a TV tem deixado de ser uma catapulta para o cinema na carreira de atores e atrizes, para se tornar um campo atrativo. "Historicamente, a TV lançou grandes estrelas do cinema, como George Clooney e Jennifer Aniston. Mas a consagração do formato televisivo tem feito com que grandes nomes do cinema, já consagrados, voltem à televisão, como é o caso de Kevin Bacon em ‘The following’ e Jessica Lange em ‘American horror show’."
Produção nacional
Na visão de José Eduardo Brum, a televisão brasileira não deve chegar ao patamar de arte. "Existe muito conservadorismo, muita censura a nus femininos e masculinos, sexo e homossexualidade, recursos narrativos recorrentes nas grandes séries americanas. As séries não são discutidas na internet, as pessoas não ficam loucas esperando o próximo episódio." Mais otimista, Fernanda Amaral acredita que a produção nacional tem chegado a uma linguagem mais artística, tendo na TV fechada o caminho para tal. "Prova disso são as séries ‘Sessão de terapia’ (GNT), ‘Copahotel’ (GNT), ‘Destino São Paulo’ (HBO). São produções elaboradas com narrativas mais lentas e foco em características psicológicas das personagens. O público está atento. Embora ainda haja plateia para as comédias e tramas familiares repetitivas, há quem prefira enredos complexos e conteúdos elaborados, boas interpretações e uma bela e diferenciada fotografia."
