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Amor e reflexão

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De uma situação difícil surgiram momentos de reflexão e aprendizado. Sucesso de vendas, o livro "Ágape", de Padre Marcelo Rossi, chega agora às lojas em sua versão musical. A obra, com mensagens de amor e superação, foi escrita pelo sacerdote a partir de períodos que classificou, em entrevista à Tribuna por telefone, como "momentos de tristeza profunda". Ele conta que, em abril do ano passado, sofreu uma queda na esteira onde se exercita diariamente. O acidente fez com que rompesse ligamentos do tornozelo e fosse obrigado a ficar em uma cadeira de rodas por meses, dependendo de ajuda para qualquer tipo de atividade. O acidente ocorreu na época em que Rossi ainda se encontrava chateado por ter sido impedido de encontrar o Papa Bento XVI durante sua visita ao país em 2007 e três dias após receber a notícia de que seria condecorado pelo pontífice com o prêmio Van Thuân, que premia novos evangelizadores. A imobilização o impediu de ir à Roma para a solenidade. Entretanto, ele afirma que do martírio passou a refletir e escreveu o livro. E agora lança o álbum com canções e orações que refletem os pensamentos contidos na publicação. Futuramente, a obra terá versão para karaokê.

Com mais de seis milhões de exemplares vendidos, "Ágape" é considerado o maior sucesso editorial brasileiro recente. Na Bienal do Rio, no início do mês, a presença do padre autografando exemplares chegou a tumultuar o evento. Sobre o processo de criação, ele conta que foi despretensioso. A partir da reflexão sobre os acontecimentos daquele momento de dor, passou a escrever trechos do Evangelho e seus comentários sobre cada passagem. "Comecei a rever a minha vida e fazia uma oração depois de cada trecho que escolhia da Bíblia. Até que me disseram que meus escritos dariam um livro." Para ele, a obra possui o "poder" de auxiliar e orientar quem a lê. Em um dos trechos, ele afirma: "Quem vive no escuro tem medo da luz. Quem passa alguns dias dentro de um quarto escuro com as janelas fechadas, quando entra a primeira fresta de luz, tem a sensação de cegueira de tanto que a luz incomoda. É preciso se acostumar com a luz para que os olhos enxerguem, de fato, a paisagem que antes estava escondida. A escuridão nos remete aos erros. Não os erros que cometemos. Errar faz parte. A escuridão faz parte dos erros em cuja permanência insistimos."

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O título, que pode parecer estranho foi exigido pelo padre, mesmo com os responsáveis pela edição pedindo para que fosse trocado. Em grego, ágape significa amor divino ou amor sem interesses e egoísmo. "Vivemos o ‘amor eros’, que é ciumento, possessivo. Ouvimos a toda hora pessoas que dizem que matam por amor. Isto não é amor e vai contra as coisas de Deus. Em ‘Ágape’ quero mostrar esse amor despretensioso e incondicional." Ainda falando de amor, Rossi afirma que, antes de tudo, é necessário amar a si mesmo. "O primeiro mandamento nos diz para ‘amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo’, mas como fazer isso se hoje muitas pessoas não se amam em primeiro lugar?", questiona.

O padre destaca a facilidade de transposição da obra do livro para a musicalidade com o CD. "Começo e termino com uma oração. E canto todas as músicas." Além de composições de Padre Zezinho, como "Amar como Jesus amou" e "Maria de Nazaré", o álbum traz músicas entoadas por cantores do gênero gospel, como "Faz um milagre em mim", de Regis Danese. Segundo o padre, aliar composições católicas a evangélicas foi intencional. "Não quero converter ninguém e sim mostrar que o amor ágape é maior do que essas questões e diferenças. Quero salientar também que a palavra de Deus deve ser compreendida por inteiro. É muito fácil manipulá-la se for tirada de contexto." Além das canções, o CD conta com duas orações, uma na abertura e outra no final, ambas que estão no livro e já conhecidas do público, "O bom pastor" e "Maria passa na frente" (conhecida como Bodas de Caná). São 17 faixas. O cantor Belo participa de "Força e vitória".

Amadurecimento

Padre Marcelo passou a ser conhecido há 13 anos. As mensagens simples em músicas como "Erguei as mãos" hoje deram lugar a ensinamentos mais profundos e densos. Conforme o padre, a razão da mudança está no amadurecimento adquirido com o passar dos anos. "Não há nada como a experiência. Hoje aprendi a colocar minha posição e tomar atitudes." Além disso, ele atribui aos acontecimentos do mundo a responsabilidade pela alteração na forma como passa sua mensagem. "Não vejo mais televisão. O mundo hoje pede outra forma de abordagem. Infelizmente, está sendo plantada a morte. Para vencer a violência, não adianta falar de paz sem falar de amor verdadeiro."

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Apesar de ter a visibilidade e ter aberto o caminho para padres saírem do recinto religioso e atingirem a grande mídia, ele não se coloca como precursor. "Tomei a coragem e tive que desbravar. Digo que sou um bandeirante. Era uma época em que padres não queriam entrar em gravadora laicas ou ir para a TV. Pensei que estava na hora. Fui para programas de TV, rádio e estou na internet." Porém, não abre mão da batina, encarada como "proteção". "É muito triste, mas somos para muitas mulheres como um fruto proibido, por conta do celibato. Certa vez uma menina me pediu em casamento. Mostrei minha aliança e disse que era casado com Jesus. Ela riu e disse que era essa a resposta que esperava. Mas, em muitos casos, não é assim." Ele afirma ainda que, embora lançados e visados em grandes eventos, os padres cantores devem ter em mente os valores e a missão da vida religiosa. "Ser padre é uma missão, não uma profissão. Se isso se perder, perde-se o sentido da vida sacerdotal."

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