O nome dela é Wanda, que não quer dizer muita coisa, além de ser curto. Lawanda (Laúanda, como prefere) é mais generoso, tanto por apontar para seu ofício, de faxineira, quanto por indicar sua essência. Contratada de um hospital, a garota de 19 anos gostaria de limpar e arrancar as doenças dos corpos enfermos, mas se reserva aos poucos direitos de funcionária desprezada. Empregada através de um programa do governo que prevê cota para deficientes, ela é bancada por uma tia, que lhe paga o aluguel de um quarto na casa da sinistra Vandercília, uma mulher encrequeira e estrategista, como Lucrécia, a patroa de Lawanda. No universo de meias verdades, em que quase nada é dito mas muito é pensado, personalidades são investigadas em suas ranhuras, nas fricções das características essenciais com o cotidiano. Autora de Quenga de plástico, de 2011, Juliana Frank em Meu coração de pedra-pomes (Companhia das Letras, 109 páginas) se atém às porosidades da história de Lawanda, confirmando a força da nova geração da literatura brasileira.
Exibindo um dia a dia que trafega entre o surreal e banal, a protagonista é vista ora com olhares clariceanos, preocupados com a psicologia e com a intimidade mais pura, ora com vistas hilstianas, comprometidas com o lado negro e por vezes fétido. Aqui no meu quarto, metida entre as paredes de cada dia e de hoje, fiquei espantada comigo mesma! Lawanda, Lawanda! Você tem se saído uma péssima curiosa, afirma a personagem em um de seus muitos momentos epifânicos. Segundo o editor Luiz Schwarcz, da Companhia, Juliana domina uma dicção dotada de grande originalidade. Acredito que, em alguns casos, o livro requer do leitor um esforço de desprendimento pessoal semelhante ao vivido pelo autor. O leitor que está mais aberto a acompanhar narradores diferentes da sua autoimagem, ou do que idealiza artisticamente, tem mais chances de encontrar prazer e reconhecer qualidade num número maior de livros, opina o profissional, no blog da editora, certo de que a qualidade literária da escritora está, justamente, na excentricidade de seu enfoque.
Tenho, por instinto, vontade de diminuir a dor dessas vidas estragadas. Deve ser meu coração de pedra-pomes puro como o gelo e outrosceteras, revela a assustadoramente lúcida faxineira, para logo completar: Mas hoje não. São apenas oito horas e preciso sair mais cedo. Agora, no caso. Quando tenho dinheiro, não me dá vontade de trabalhar. Mas sair gastando como se viver fosse de graça. Apesar de deficiente – em determinada passagem a tia ameaça a garota de internação, mas em momento algum é dito qual a carência da personagem -, Lawanda diz verdades saborosas, que em quaisquer outras bocas sairiam como êxtase. Aí, com consciência tal para encarar o mundo, a história de Juliana se aproxima do famoso best-seller A elegância do ouriço. No livro da francesa Muriel Barbery, Renée é uma, aparentemente, simples zeladora de um prédio de alto luxo em Paris, que, em sua casa revela-se exímia leitora e profunda conhecedora do universo das artes e da filosofia. Aclamado pela crítica e pelo público, o livro estrangeiro reproduz a velha fórmula, ainda não desgastada, da voz operária que esconde sabedoria invejável. Como a pérola, essas personagens se protegem na forma tosca das ostras.
Amando o comprometido José Júnior, Lawanda divide seu tempo com sua estranha coleção de besouros e borboletas, essas, costuradas com esmero em suas calcinhas, sempre na linha de mesma cor das asas dos insetos. Estou ululosa. Tenho 19 anos e um frigobar, uma coleção de besouros, um biquíni de amarrar, um lápis de olho vermelhão. Enfim, coisas fundamentais para minha sobrevivência, diz a garota, em tom de quase escárnio com a própria vida. Para fugir do espaço miserável que ocupa, a faxineira também ganha extras trabalhando para os doentes, sempre às escuras. Para um, prometeu levar ao show de Cauby. Para outra, a permissão para que o namorado entrasse no quarto. As estratégias de angariar cifras para além do salário mínimo refletem, perfeitamente, as muitas formas que a faxineira encontra para driblar os muitos desencontros que lhe fazem presente.
No que poderia ser o primeiro capítulo de Meu coração de pedra-pomes, Exijo uma explicação!, estão as pistas do caminho percorrido pela autora Juliana Frank. Na espécie de apresentação a escritora, ainda sem assumir a voz de Lawanda, dispara diante de uma fictícia banca de julgamento: Sempre gostei de escrever coisas banais, com termos usados no cotidiano, como: ‘Saia já daqui!’, ‘Você vai me pagar caro com isso!’, ‘Não quero um ateu liberal na minha porta!’. São formas velhas, gastas e ultrapassadas de contar uma história. Sem pretensões, mas com a certeza de que a literatura se faz através dos poros deixados pela tradição, a escrita de Juliana recompõe densidade que jamais estaria em uma pedra-pomes.
