Em meio à instantaneidade proporcionada pelas câmeras digitais e celulares, ambos cheios de recursos, a fotografia analógica – aquela captada em rolo de filme e descoberta só depois de passar por um processo de revelação em laboratório – ainda está presente nos dias de hoje e coleciona muitos adeptos. A fotografia analógica permite ver a coisa acontecer, desde o puxar do filme até a entrada no laboratório, quando a foto começa a nascer. É uma mágica!, comenta o fotógrafo amador Heitor Magaldi, autor das 18 fotografias expostas na mostra Mineirices, integrante da programação do Foto 13, em cartaz no CCBM.
Funcionário da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), Magaldi, hoje aposentado, enxergou, nos trilhos por onde passou durante 22 anos, a fonte de inspiração para captar as fotografias que integram a exposição. O compilado de imagens reúne particularidades dos mineiros, registradas durante visita a cidades como São João del-Rei, Tiradentes, Santos Dumont, Ouro Preto, São Tomé das Letras, Conceição de Ibitipoca (distrito de Lima Duarte), Seritinga, São José das Três Ilhas (distrito de Belmiro Braga) e Juiz de Fora entre os anos de 1977 e 2002.
Abusando de filtros, para melhor regular o brilho e o contraste das fotos, o fotógrafo utilizou o preto e branco para imprimir os estereótipos do mineiro: o semblante marcante e desconfiado. Concluí que existem duas teorias para explicar o jeito mineiro de ser: a primeira, pelo fato de Minas Gerais ser uma região montanhosa e não ser possível ver o horizonte; a segunda, pelo fato de o mineiro não ser confidente e preferir ouvir primeiro para depois se manifestar. Isto não quer dizer que não seja hospitaleiro. Sempre fui bem recebido em todas as cidades em que estive, ressalta. Embora tenha nascido em Volta Redonda(RJ), Magaldi, aos 64 anos, se considera um bom mineiro, pois tem suas raízes fincadas em Juiz de Fora há mais de 40 anos, além de ter possuído uma casa no município de São Tomé das Letras, onde também eternizou diversos momentos.
No Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), onde a mostra está em cartaz, é possível notar estas peculiaridades. Em seus cliques, Magaldi conseguiu registrar personagens e objetos que permitem interpretar o comportamento dos mineiros. As pessoas captadas se assemelham ao matuto, o homem da terra, como na imagem feita em São José das Três Ilhas, em 1999, e em São Tomé das Letras, em 1979. Ao lado destes perfis, diversas panelas, devidamente limpas, sobre fogões a lenha, como a clicada em Santos Dumont, em 1985. Os detalhes da arquitetura sacra das igrejas de São João del-Rei e de São Tomé das Letras também são lembrados por Magaldi.
Conhecedor e possuidor de uma câmera digital, Magaldi não se aflige frente a tanta tecnologia, mas define-se como um atuante do estilo analógico, que, em sua visão, exige muito mais do fotógrafo. Não pretendo abandonar o analógico nunca. Segundo ele, as publicações especializadas afirmam que, na Europa, o estilo tem ganhado força novamente, porém não tanto como antigamente. Existe um apelo, pois a magia da foto nunca vai se perder. Sempre vão existir pessoas para cultivarem o hábito, comenta.
Para garantir a qualidade de seu material, Magaldi não deixa o negativo por muito tempo na câmera. Em seu laboratório, o fotógrafo mantém as banheiras de produtos sempre à disposição e a temperatura a 20 graus, a ideal e recomendada pelos fabricantes. Quanto ao filme, ele utiliza o de 35mm, de preferência, em rolo, que permite melhor ampliação, como a realizada para a exposição. As fotografias foram reveladas novamente no tamanho de 24cmx30cm. Segundo ele, duas horas são necessárias para que o trabalho final obtenha sucesso.
A boa higienização, para eliminar todas as substâncias químicas, deixa a foto mais limpa e com boa qualidade. Tem todo um ritual, o que para mim é importantíssimo. Nada substitui o prazer de manipular o processo de revelação e a admiração por parte das pessoas ao ver a fotografia exposta.
MINEIRICES
De terça a sexta, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h
às 21h
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200)
