A fotografia nasceu do insólito desejo humano de tentar capturar o real. "Surgiu para atestar a realidade, como ocorre no jornalismo, na ciência, na educação", argumenta a pesquisadora Alik Wunder. "Vários autores falam sobre a potência política da imagem digital. São imagens mais próximas da ficção que da documentação. Cada vez mais será difícil dizer se uma foto "existe" ou não. Talvez, em pouco tempo, não falemos mais em fotografia, mas apenas em imagem." Docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCC), Alik ministrou na última segunda no CCBM a palestra "Fabulografias – Experimentações fotográficas pelos ventos-áfricas", realizada pelo projeto "Foto 12".
Atuante em grupos de pesquisa e extensão, a professora pós-doutora é instigada pelos estudos que relacionam imagem e educação. Fotografia, cultura, arte e filosofia contemporânea se fundem nas discussões do Coletivo Fabulografias, grupo composto por fotógrafos, pesquisadores e artistas visuais. Alik ministrou ainda, ao lado da fotógrafa Marli Wunder – também integrante do coletivo -, a oficina "Fabulografias: Produção de cartões-postais: Que áfricas ventam por você?". "Os ventos se relacionam a essa África que veio, passou por nós e que a gente não sabe muito bem onde está", acrescenta Marli.
Trabalhando a cultura afro-brasileira e o desapego da imagem em produções assinadas de forma coletiva, a oficina foi dividida em dois momentos. No primeiro, foram passadas informações básicas de técnicas fotográficas, como composição de luz e sombra, contraste e cor. O segundo momento compreende uma criação coletiva de palavras, fragmentos poéticos que estampam os versos dos postais. "É como se as palavras e as fotografias fossem ventos que passam por nós, mas que não nos pertencem. Isso nos leva a uma discussão ampla sobre a cultura. A cultura está na pele negra? Está só em quem é afrodescendente? Está, fortemente, mas não só. É preciso pensar a cultura – e a imagem – como algo não fixo, mas em constante movimento", conclui Alik.
Tribuna de Minas – O que são os "ventos-áfricas"?
Alik Wunder – Eles nasceram do nosso grupo de pesquisa e extensão universitária, da Faculdade de Educação da Unicamp. Em 2010, começamos a realizar encontros de criação fotográfica coletiva, com grupos que lidam diretamente com a cultura afro-brasileira. Grupos de dança, capoeira, samba, congado, jongo, mestres de folias de reis, cozinheiras. E perguntávamos a esses participantes: que Áfricas ventam por vocês? Os encontros se assemelhavam a saraus, pois eram trazidos cantos, imagens, danças, tudo que os remetia a esse questionamento. No início, os encontros eram fotografados por nós do coletivo e por outros fotógrafos convidados. Com o tempo, começamos a entregar as câmeras para as pessoas se fotografarem e fotografarem os outros. A partir dessas reuniões, criamos cartões-postais, respostas aos ventos-áfricas. As oficinas acontecem hoje em escolas públicas de Campinas. Lidamos com a fotografia como uma superfície de experimentação. Experimentação de novos olhares e meio de expressão criativa.
– Como a fotografia pode ser uma criação coletiva?
– Um de nossos questionamentos é: a fotografia é de quem? Ela é de quem fotografou ou de quem posou? E se quem posou, como por exemplo a Dona Nice, uma baiana que vende acarajé, foi completamente indumentada? Isso quer dizer que ela criou parte da fotografia, a produziu. A Marli a fotografou, e, depois, uma aluna capturou o detalhe do anel da Dona Nice e transformou em outra coisa. Durante dois anos, essas fotos foram manipuladas por muitas pessoas. Muitas vezes, a gente nem sabe quem tirou a primeira foto. Devagar, as pessoas foram entrando nesse movimento. Acabamos de fazer uma exposição de autoria coletiva.
– Qual é a fotografia do cartão-postal? Como trabalhar os estereótipos e os clichês deste formato?
– Será que o que representa a cultura afrodescendente são só os ícones? A baiana, a capoeira? Chegamos ao ponto que é a grande brincadeira no trabalho com os cartões-postais. Trabalhamos, primeiramente, dentro do clichê. Quando as pessoas querem começar a fotografar, geralmente, elas buscam esse clichê. Representam o que estão acostumadas a ver. E, devagar, com a ajuda dos fotógrafos do projeto – que são bastante experimentais -, vão percebendo que a fotografia também pode atravessar os estereótipos. Mil coisas podem ser inventadas. A ideia não é ir contra esse clichê, mas trabalhar a partir dele. O cartão-postal é ícone do clichê, é o esperado, o previsível. Pesquisamos formas de criar um postal que não seja óbvio, fixo. É como na cultura. É impossível aprisionar algo que não é aprisionável.
– Com as novas tecnologias e programas, a produção e a manipulação fotográfica foram ampliadas. O que pensa desse movimento?
– A ideia é entrar nesse movimento, sem sacralizar a fotografia. Antes você precisava de uma excelente máquina e de uma pessoa muito especializada. O fato de existirem programas que facilitam a produção de uma imagem mais próxima do que a gente acha que é bonito, mais próxima da arte e das mídias, desloca a fotografia de um território de poder. Isso faz o campo da arte se reavaliar e, claro, causa um certo medo. Alguns dizem que determinada imagem não é arte porque não tem um conceito. Então o que é arte? A arte não é só fazer bonito, mas é uma forma de pensamento. São processos interessantes para pensar.
– De que maneira a fotografia auxilia no processo educacional?
– As oficinas nas escolas resultam sempre em um trabalho fantástico. Os jovens já estão inseridos em um forte processo de experimentação, de criação com celulares, no qual a escola não está. A escola está muito presa ainda na fotografia que quer representar o real. É só olhar os livros didáticos. A fotografia dentro da educação é sempre representacional. Quando dizemos aos alunos para pegarem a câmera e inventarem uma imagem, eles entram muito facilmente na brincadeira. São mais aventureiros, não têm medo de errar como os adultos e sempre nos surpreendem. Ao fim de certa oficina, dissemos que poderiam usar as imagens para o que quisessem. Que ficassem à vontade para postá-las no Facebook, no Orkut. E aí eles deram risadas. Já estavam todas no Facebook. Talvez o grande desejo deles, desde o início, já fosse compartilhá-las.
