Em outras paragens, talvez, o encontro fosse desencontro. Distante do mar, Minas tem dessas coisas. Faz da longa convivência uma história sem ondas revoltas, com personagens que moram logo ali. A tranquilidade de Paulo Sérgio dos Santos, integrante do Uakti, dá pistas de como foi a caminhada do grupo mineiro até aqui. "Somos quatro pessoas dispostas a realizar um trabalho sério. Vivemos em Belo Horizonte, perto um do outro, e isso facilita muito." Juntos desde 1978, os músicos, que já estiveram em Juiz de Fora outras vezes, retornam hoje para uma apresentação na Igreja do Rosário durante o 22º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. No programa, estão presentes composições próprias e clássicos como "O trenzinho do caipira", de Heitor Villa-Lobos, e "Allegro da sonata em lá maior", de Mozart.
A arte do Uakti está profundamente ligada à pesquisa sonora. Os instrumentos concebidos e construídos pelo líder Marco Antônio Guimarães, segundo Santos, são as marcas que concederam ao coletivo reconhecimento no país e lá fora. Some-se a isso, como complementa o integrante, as composições adequadas para as inovações.
Com dez discos lançados, os mineiros transitam com facilidade pelas trilhas tortuosas da música instrumental brasileira. "Apesar das dificuldades e de a grande mídia não ajudar na divulgação, as pessoas demonstram necessidade e abrem espaço", analisa Santos, garantindo que a atuação ao lado de cantores também é interessante e costumeira para a trupe. Em 1980, o grupo – que conta ainda com Artur Andrés e Décio Ramos – tornou-se popular por sua participação no show "Sentinela", de Milton Nascimento. Muitas outras parcerias vieram: Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Skank e Zélia Duncan, além de Paul Simon, Stewart Copeland e Philip Glass.
Primitivo e ao mesmo tempo contemporâneo, o som único do Uakti, capaz de sintetizar diferentes estilos musicais, origina-se de materiais como vidro, tubo de PVC, borracha, madeira, cabaça e roda de bicicleta. Complexa, a técnica de execução vem sendo repassada às gerações por meio de oficinas baseadas em novas formas de leitura musical. "Além disso, viajamos muito, participamos de vários projetos e sempre valorizamos a troca", comenta Paulo Santos, destacando que, na década de 1980, os componentes tocavam em orquestras, fato que os fez adquirirem a necessidade de intercambiar conhecimentos. De acordo com o artista, inúmeros juiz-foranos utilizam processos sugeridos pelo Uakti.
Entre os cerca de 70 instrumentos acústicos originais catalogados, a torre – grande tubo de PVC com um espigão de contrabaixo em uma das extremidades e uma manivela na outra – é o que mais chama a atenção do público nas inúmeras turnês pelo Brasil, pelos Estados Unidos, pela Europa e Ásia. São necessários dois músicos para executá-lo. "Seu som também é bastante inusitado", ressalta Santos. Na plateia, estão sempre presentes espectadores de todas as idades, muitos deles atraídos pela propaganda boca a boca.
Arte aberta
Passeando em adaptações pelo popular e o erudito, o Uakti acredita que um gênero complementa o outro. Assim afirma Paulo Santos, garantindo que a música é uma arte aberta para ser acessada por todos. "Vários compositores clássicos tiveram ligação com o regional e as manifestações do povo."
Na opinião do integrante, a música mineira se renova a cada dia e apresenta bons profissionais e composições de vanguarda. Da mesma forma, outras expressões artísticas se mostram frutíferas no estado e permitem mesclas. Mais de uma vez, o Uakti fez parceria com o grupo de dança mineiro Corpo. Indo além das montanhas, participou do espetáculo "Dança das marés", dirigido por Ivaldo Bertazzo. "Foi interessante porque o balé é uma outra forma de ver o som, ele aparece como apoio." Em paralelo, o trabalho do grupo aproxima-se da ciência, da física, da mecânica e da acústica.
O nome Uakti, segundo a lenda dos índios Tukano do Alto Rio Negro, está relacionado a um ser mitológico cujo corpo era repleto de furos. É o que explica, no site do grupo, a estudiosa da música indígena brasileira Helza Camêu. Aos ser atravessados pelo vento, tais orifícios provocavam sons soturnos responsáveis por encantar as mulheres da tribo. Para evitar que Uakti continuasse violando e pervertendo suas esposas, os homens o capturaram e mataram. No local onde o corpo foi enterrado, nasceram palmeiras usadas na construção de flautas com som encantador, o mesmo ocasionado pelo corpo de Uakti.
