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Outras ideias: com Carolina de Assis Repetto

carolina nao se esquece de cada momento feliz vivido com paixao no ar e na terra

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Carolina não se esquece de cada momento feliz vivido com paixão no ar e na terra
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Carolina não se esquece de cada momento feliz vivido com paixão no ar e na terra

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No verso da capa do álbum de fotografias, preso com uma fita envelhecida, a denunciar o tempo do documento, está o registro do primeiro contato, do encantamento inicial. No canto inferior direito, a pequena Lilina e o irmão Joãozinho aparecem diante de um monumental avião monomotor PP-Gan. 3 agosto de 1926 e a garota com seus 6 anos. “Esse avião foi o primeiro que fez a viagem Rio-Belo Horizonte. Como o tanque não tinha a capacidade para comportar a gasolina para a viagem direta, ele teve que parar em nosso campinho de Benfica, onde nós todos tomamos nossos duplos comandos e saímos aviadores”, recorda-se Carolina de Assis Repetto, sentada na varanda de casa, no condomínio Florestinha, no Bairro Floresta, onde passa as tardes a olhar para o céu. “As garças vêm todos os dias comer os carrapatos dos bois da floresta. Toda tarde sento no banquinho, com minha acompanhante, para vê-las passarem.”

De onde estão os pássaros, que ela observa na calmaria de seus 95 anos, flutuam suas memórias. A elegante senhora de cabelos brancos como nuvens, olhos claros, fala pausada e um discreto rosa cobrindo os lábios, lembra-se de uma paixão que só não superou a nutrida pela família agigantada que construiu, com nove filhos, quase 20 netos e muitos bisnetos. “É porque fui muito apaixonada pelo meu marido, senão ele não me tirava da aviação. O avião empolga muito”, diz, aos risos. Filha de uma das famílias mais tradicionais da cidade, a caçula dos sete filhos do casal Theodorico e Emerenciana Assis, nascida na ampla casa que fronteava a Catedral, na Avenida Rio Branco, conheceu o que lhe daria asas nas terras de Benfica. “Como meus pais estavam na Europa, um grande amigo deles, o seu Albino Machado, para fazer um agrado, ligou lá para casa e pediu para nos levar. Quem ficou conosco era uma senhora, uma gracinha, e uma babá, descendente de escravos, também uma pessoa encantadora.”

Entre o ar e a terra

Como um pássaro, conheceu a liberdade dos céus, mas também a solidão do internato, a gaiola de sua história. “Na época, o colégio de fama era o Sion, em Petrópolis, que tinha um internato. Papai, na maior boa intenção, me mandou para lá. Quando saí, fui coroada (tenho até hoje a coroa de ouro), e ia curtir a companhia dele, mas, seis meses depois, papai faleceu”, lembra. Anos mais tarde, a mãe converteu-se sacramentina, vivendo no Cenáculo São João Evangelista, que ajudou a construir. Antes disso, teve um frio na barriga ao descobrir o sonho da filha. “Sempre fui muito esportiva. Quando meus irmãos começaram a tomar os duplos comandos, com o piloto muito bom Jaime Pinto, também fui para o campo e comecei a aprender. Para não assustar a mamãe, não falei para ela”, ri. “Meu irmão Joãozinho, que era acima de mim (éramos muito unidos), estudava em Viçosa e ligou. Estávamos todos na sala, e ele perguntou: ‘E a Lilina, continua voando?’. Mamãe ouviu e me questionou. No dia seguinte, o instrutor Jaime Pinto se botou de camisa, paletó e gravatinha e foi à noite lá em casa. Ele disse: ‘Madame, a senhora fique tranquila. Sou pai de oito filhos, e a garota tem jeito para a coisa’. A garota era a velha aqui”, conta ela, irmã de Francisco Álvares de Assis, um dos fundadores do Aeroclube Juiz de Fora, que dá nome ao Aeroporto da Serrinha. Recém-saída do colégio interno, em 1940, antes de completar 20 anos, Carolina conseguiu seu brevê. Foi a primeira aviadora de Minas Gerais. Por pouco não foi a primeira do país, já que Nísia, a pioneira nacional, se formou na mesma turma. Voava, voava, voava, a jovem Lilina, até um amor lhe tirar o prumo. “Enquanto estava aprendendo conheci o meu marido, namoramos, me casei e tive meus filhos. “Quando eu não estava grávida, estava voando. Por várias vezes pegávamos o PP-Gan, íamos ao Rio, pousávamos no campo do Iate Clube. O Roberto (marido) ia para a cidade ver banco e as coisas dele, e eu, para Copacabana, comprar roupinhas para os filhos”, recorda-se ela, que descobriu outra paixão, a arquitetura e a decoração. Carolina também gostava da terra.

Entre a vida e o voo

Na casa que projetou, uma das 20 que pensou para a família, a aviadora que já pousou nos aeroportos Santos Dumont, Galeão preserva um álbum. Numa das fotos, Carolina está na “Semana da Asa”, evento da Força Aérea Brasileira, em homenagem ao Dia do Aviador e Dia da Força Aérea, no qual representou Minas Gerais. Noutra página, ao lado de pilotos da Esquadrilha da Fumaça. Em outra, no dia da prova em que precisou realizar manobras de precisão para conquistar a habilitação. O tempo, que lhe distanciou das hélices, não lhe retirou a vívida lembrança de cada momento, inclusive os vividos com o filho Renato e as bisnetas Gabriela e Geovana, os três mortos no terrível deslizamento de terra na Ilha Grande, em Angra dos Reis, no primeiro dia de 2010. A dor fica expressa nos olhos marejados e na foto das duas meninas que carrega no peito. Segundo ela, convive hoje com o conforto de saber que um dia a saudade será convertida em presença. “Em setembro completarei 96 anos. Como foi a idade em que minha mãe morreu, acho que será a minha também. Sou filha de Nossa Senhora e já combinei com ela: quando eu morrer, ela vai de copiloto, eu boto a bússola para o céu, e vou direto, fazer meu último voo.”

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