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Toda vingança será encenada

Lívia (Isa Mariotti) é estuprada por um desconhecido (Edgard Lopes - foto à direita) quando se aproximava de casa (Foto: Divulgação)
Lívia (Isa Mariotti) é estuprada por um desconhecido (Edgard Lopes – foto à direita) quando se aproximava de casa (Foto: Divulgação)
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Se a arte costuma ser vista, muitas vezes, como a manifestação de nossas fantasias e criatividade, há momentos em que ela também mostra o quanto nossa realidade pode ser não apenas cruel, mas ponto de partida para frustrações que fazem com que nos tornemos polícia, júri e carrasco. E é esse desejo de vingança, de fazer justiça com as próprias mãos, o ponto central do violento, perturbador e impactante curta-metragem “Mácula”, sétima produção de Rafael Aguiar no gênero, que terá sua estreia nesta sexta-feira, dia 22, às 18h30, no Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases, e também no dia 23, às 19h, no Museu de História e Ciências Naturais de Além Paraíba.

Finalizado em abril, “Mácula” foi filmado durante quatro dias de novembro de 2014 em Cataguases, a partir do roteiro do próprio Rafael em parceria com Carla Werneck. Com pouco mais de 21 minutos de duração, o curta não economiza na violência e crueldade – mas sem chocar de forma gratuita – para mostrar até onde o ódio e o desejo de vingança podem levar o ser humano, ainda mais quando há permeada por toda a sociedade o sentimento de que a Justiça não só tarda, mas também falha – segundo o 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil teve mais de 50 mil estupros (de mulheres e homens) registrados em 2013, e estes seriam apenas cerca de um terço do total.

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Na trama, Lívia (Isa Mariotti) é estuprada por um desconhecido (Edgard Lopes) quando já se aproximava de casa. Ao perceber o que está acontecendo, seu marido, Luiz (Ângelo Cabral), consegue deter o agressor e o aprisiona em um porão, onde o criminoso passa a ser impiedosamente torturado por dias a fio. Mas não apenas a violência é retratada em “Mácula”: é mostrada também toda a vergonha e dor da vítima, que assim como em muitos casos passa a recusar o contato da presença masculina mais próxima dela. “A gente leu sobre o fato de as mulheres rejeitarem os parceiros que vivem com elas, isso ocorre em grande número”, diz Rafael.

Segundo o diretor, a ideia do curta surgiu durante exercícios de vídeo que costumam ser feitos entre uma produção e outra, com um pequeno roteiro desenvolvido apenas para aprimorar o trabalho. Neste caso, porém, o resultado foi tão satisfatório que em pouco tempo a trama foi crescendo até chegar à produção do curta, feito de forma independente. “A ideia era produzir um curta-metragem sobre a violência contra a mulher, porque muitas amigas passaram a publicar sobre o assunto no Facebook, em especial o estupro, e de como os criminosos não são punidos e de que forma deveríamos reagir quanto a isso”, explica. “Era mais uma questão de refletir sobre quem tem razão, a pessoa que busca a Justiça ou a faz com as próprias mãos. A gente quis retratar a questão de quem escolhe a segunda opção.”

Com inspiração nos mestres

Para Rafael, a maior dificuldade em filmar as cenas violentas foi não cair no caricaturesco típico de alguns filmes do cinema trash. “Há cenas de tortura e sangue, sim, mas elas não são banalizadas. Trabalhamos todos esses elementos com os atores, foram ensaios longos e desgastantes, o Edgard precisou ficar com os braços pendurados o dia inteiro, por exemplo”, conta. Numa história em que a violência e até mesmo o terror estão presentes, é possível ver influências de diretores como Quentin Tarantino – no caso, uma clássica cena de “Cães de aluguel”, em que o personagem de Michael Madsen tortura um policial. “Tarantino é a parte mais visível em vários momentos, como o uso do contra-plongée (quando a câmera está abaixo da linha dos olhos, voltada para cima), mas tivemos algumas movimentações de câmera inspiradas em ‘Festim diabólico’, do Alfred Hitchcock. Sou muito fã do cinema de violência e do terror clássico.”

Até o momento, “Mácula” aguarda ser aprovado para festivais em Ouro Preto, Gramado (Rio Grande do Sul), Estocolmo (Suécia) e até mesmo na Croácia, e vai tentar outros eventos do tipo quando for iniciada a temporada de inscrições, no segundo semestre. Enquanto isso, Rafael Aguiar trabalha na edição do seu primeiro longa-metragem, o misto de drama e policial “Dois”, filmado em março em Cataguases e Abaíba (distrito de Leopoldina). A história gira em torno do triângulo amoroso entre dois gêmeos e uma mulher, que usa a paixão deles por ela para conseguir o que quer. Com participação especial do ator Mauro Mendonça (“ele estava na cidade, e minha mãe encontrou com ele, falou do filme; fizemos contato, enviei o roteiro, e ele topou participar”), Rafael espera lançar a produção até setembro.

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