Manifestações e realizações de um povo. Totalidade chamada patrimônio cultural. Lançar um olhar atento sobre Juiz de Fora não significa somente perceber detalhes de construções ou fazeres artísticos. É preciso ir além. Em seu portal, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) afirma que as riquezas culturais de toda cidade espalham-se pelo seu cotidiano. Ruas, praças, livros, pensamentos. Ao que parece, é esse tipo de observação que o II Seminário "Olhar sobre o que é nosso" pretende impulsionar. Promovido pela Funalfa, o evento, de três dias, acontece a partir desta terça. Segundo o diretor da Divisão de Patrimônio Cultural (Dipac), Paulo Gawryszewski, o objetivo é aproximar as noções sobre patrimônio, cultura e educação. As três áreas compõem o tema do seminário, que conta com a participação de especialistas mineiros, cariocas e paulistas. Célia Maria Corsino, museóloga e diretora do Departamento do Patrimônio Imaterial do Iphan, será a responsável pela exposição inaugural.
De uma maneira ou de outra, a educação patrimonial surge nas cinco palestras previstas. Uma recorrência que instiga a seguinte pergunta: é possível aprender a valorizar a identidade de um lugar? Conforme a mestre em educação pela UFMG Adriana Piva, que falará sobre "Educação patrimonial na perspectiva transdisciplinar", a ideia de preservação pode ser construída no sujeito, em qualquer momento de sua vida. "Isso se dá à medida em que o patrimônio passa a ser visto e sentido como uma manifestação viva da história." Para a acadêmica, esse tipo de relação – cognitiva, afetiva e política – reacende a atitude preservacionista.
Na opinião do professor José Reginaldo Santos Gonçalves, PhD em antropologia cultural pela Universidade de Virgínia (EUA), assim como se aprende a destruir, pode-se entender a necessidade de cuidados. "O importante, no entanto, é lembrar que diferentes grupos dentro de uma sociedade moderna possuem variadas concepções do que seja patrimônio", adverte, acrescentando que daí decorrem formas díspares de proteção. José Reginaldo abordará o tema "Patrimônio cultural e cultura".
De acordo com a professora da Faculdade de Educação da UFMG Júnia Sales Pereira, a atualidade vem experienciando o alargamento da noção de preservação. "A atenção volta-se para as conexões entre a materialidade e a intangibilidade da cultura." Conforme ressalta a acadêmica, que ministrará a palestra "Patrimônio cultural: um novo campo de ação para os professores", os processos educativos de hoje devem superar a lógica fundamentada no patrimônio "de pedra e cal". Segundo José Reginaldo, na realidade, os sentimentos e comportamentos diários dos indivíduos e grupos se confundem com os conjuntos patrimoniais. "Estes são os grandes mediadores entre os cosmos, a natureza, a história, o passado coletivo e as experiências singulares."
Nesse terreno, Júnia aponta ainda o papel dos professores. Para ela, os docentes podem promover sensibilizações em relação aos bens instituídos, oferecendo aos estudantes o entendimento dos atos de memória. "Mas também é preciso estimular reflexões sobre os patrimônios não consagrados", salienta. Adriana Piva destaca mais um ponto importante nos percursos de aprendizagem: a pesquisa sobre a cultura local. Em sua exposição, ela pretende discutir, entre outras questões, a importância da prática e da participação comunitária.
Reflexionando sobre a situação de Juiz de Fora, Júnia Pereira comenta que a cidade necessita efetuar dois movimentos: "compreender os registros e as práticas culturais de interesse local, sem perder de vista os processos do cenário nacional e internacional". Segundo a professora, é imprescindível, para o município, o debate acerca do patrimônio imaterial e a renovação de procedimentos referentes aos bens materiais. "Há mudanças em curso neste campo que trazem alterações significativas aos gestores públicos, aos educadores e à sociedade." Conforme Paulo Gawryszewski, os juiz-foranos estão mais atentos às questões de preservação, embora ainda haja espaço para melhorias. "É uma luta constante. Temos procurado oferecer conhecimento e conversas."
Na visão de Adriana Piva, toda comunidade deve enxergar o ontem e se questionar sobre o que quer para o futuro. De acordo com ela, quando as conjecturas envolvem multiplicidade de soluções, há mecanismos eficazes para registrar, valorizar e transmitir tal diversidade. "Agora, se queremos padronização e enquadramento, deixamos o passado à sua própria sorte e nos atiramos feito tábuas rasas, boiando em alto mar ao sabor do vento." O papel do poder público também é mencionado pela acadêmica: "qualificar o debate e, consequentemente, enriquecer os instrumentos de ação".
Como assegura o professor José Reginaldo Gonçalves, os brasileiros possuem tradição no que se refere aos cuidados com o patrimônio. Ele enfatiza a constante expansão dos conceitos nessa área, citando a inclusão das diversas manifestações de cultura popular. "Somente na modernidade, especialmente a partir do século XVIII, o assunto ganhou o significado que conhecemos. Nas últimas décadas do século XX, ele se tornou algo obsessivo." Adriana pondera, entretanto, que o país está aquém do ideal, apesar dos esforços. "Ainda temos uma visão simplista e tratamos com desinteresse muitas formas de expressão e sustentação de nossa identidade, em troca de uma ânsia quase incontrolável por determinado padrão de desenvolvimento."
II SEMINÁRIO "OLHAR SOBRE O QUE É NOSSO"
Nesta terça, das 13h às 18h. Quarta e quinta, das 14h30 às 18h
Auditório do Banco do Brasil (Rua Halfeld 770)
