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‘Nem homem, nem mulher’

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O título desta matéria era a autodefinição dos Dzi Croquettes, que, com irreverência e graça, ousaram tentar quebrar a rigorosa censura vigente no Brasil durante a ditadura militar. No palco, 13 homens peludos, trajando vestidos, meias-calças, saltos, maquiagem pesada e cílios postiços, provocavam o sistema com performances de dança e esquetes de comédia, arrebatando a censura daquele período. Hoje, bem menos contestador, apesar de ainda manter o senso crítico apurado, Benedicto Lacerda Neto, um dos sobreviventes da trupe que ganhou fama no Brasil e no mundo na década de 1970, procura entender o quanto a vida tem se tornado cada vez menos politizada. Meu sonho era ver a sociedade perfeita. Costumava dizer que era preciso pegar em armas para enfrentar os militares, mas acabei optando pela arte, conta o artista, em visita à cidade neste final de semana.

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Liberdade social, política e, por que não, sexual. Estas foram algumas das bandeiras levantadas pelos croquettes, que, por quase dez anos, atraíram o olhar e outros sentidos de quem os mantinha na alcova da androgenia da contracultura. Aquela era a época em que a mulher descobriu a pílula e, portanto, podia se permitir mais, exemplifica o ator, que, assim como os demais, foi preso nos Anos de Chumbo. A vida é para ser divertida, independentemente de religião ou qualquer outro tipo de crença, arremata.

Símbolos de uma era, os protagonistas deste ideal – defendido sob a luz da ribalta – foram retratados em recente documentário homônimo, dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, cuja première aconteceu na Mostra de Cinema de Tiradentes do ano passado. Nele, Lacerda desfila como ingressou na seara artística, tendo como agravante o pai militar. Nem pensava nisto, até ir a Pernambuco e descobrir a riqueza cultural daquela terra, revela. Meu avô era músico, mas não queria nenhum outro artista na família. Entretanto, a herança foi inevitável.

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Prestes a se aposentar, Benedicto Lacerda Neto, que deixou a carreira de economista para se dedicar aos irônicos espetáculos do Dzi Croquettes, utilizou o aprendizado das diferentes línguas – resultado das turnês internacionais – para atuar com turismo no Rio, onde nasceu e se firmou como um dos bandoleiros da arte. Tenho vontade de voltar a fazer teatro e escrever algumas memórias, além de viajar um pouco mais, planeja Lacerda, que, aos 63 anos, ainda valoriza o que as transformações do tempo têm a oferecer. De bom ou ruim.

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