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Fios em frente aos prédios da Câmara, do Banco do Brasil e da Associação Comercial
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Aquelas fiações aéreas que cruzam a paisagem de Juiz de Fora talvez não nos incomodem tanto em meio à correria do dia a dia. Elas são tão presentes em nosso cotidiano que as consideramos parte do cenário. Basta virar o pescoço um pouco para a direita ou para a esquerda, chegar mais perto do prédio, e pronto. É possível apreciar os detalhes que fizeram de um bem um patrimônio tombado pelo município. Quando o olhar lançado sobre o edifício é de um profissional, contudo, o assunto muda de figura. “O que incomoda para quem trabalha com fotografia é que a sua imagem nunca está limpa. O que adianta ter uma arquitetura de referência com obras, inclusive, de Oscar Niemeyer, se ela está ‘suja’ pela fiação? Existem várias cidades menores com tubulação subterrânea. Poços de Caldas é um exemplo”, reflete o repórter fotográfico da Tribuna, Fernando Priamo, que assina a série de registros para essa reportagem.

O que seria do barroco de Ouro Preto se ele fosse tomado por um emaranhado de fiações elétricas? A pequena Paraty não teria parte de seu charme se cabos de alta tensão disputassem espaço com as construções históricas. Indo bem mais longe, para Paris, na França, bem provável de a Torre Eiffel perder um pouco de sua importância caso fosse tomada pela fiação elétrica de Juiz de Fora. Os cliques de Priamo mostram que a poluição visual não poupou a frente do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, das sedes do Banco do Brasil, da Funalfa e da Câmara Municipal , além da Associação Comercial, mas é do conhecimento de todos que o problema não se restringe aos bens protegidos pelo poder público.

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“Nas últimas duas décadas, vários edifícios vêm sofrendo melhorias para se manter íntegros de acordo com a legislação. A Prefeitura vem desenvolvendo um trabalho, através da Funalfa, de controle da comunicação visual e de valorização dos edifícios tombados, porém essa valorização tem seus altos e baixos, pois, em função dos cuidados, começamos a perceber como a fiação aérea prejudica a visibilidade dos imóveis. Infelizmente, a gente se acostuma a conviver com a situação, e esse problema não se restringe aos bens tombados. Vejo pelos meus alunos, que têm muita dificuldade para fotografar a arquitetura da cidade”, comenta Bruno Sarmento, professor do curso de arquitetura e urbanismo do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, ressaltando que o alto custo de um projeto de fiação subterrânea impede que a mudança aconteça.

Para se ter uma ideia, em 2013, Pelotas, no Rio Grande do Sul, foi contemplada pelo PAC Cidades Históricas com aproximadamente R$ 10 milhões destinados à requalificação do Centro Histórico, incluindo a fiação subterrânea do entorno da Praça Coronel Pedro Osório e do Mercado Central, o que aumentaria as potencialidades turísticas do lugar. Em Volta Redonda/RJ, através de uma parceria entre a Light (empresa que cuida da distribuição de energia elétrica no estado do Rio) e a prefeitura, a implantação de 70 mil metros de dutos para a construção do sistema na principal avenida da cidade, a Amaral Peixoto, entre outras intervenções, foi realizada com recursos na ordem de R$ 8 milhões. O objetivo era tornar a via mais atrativa para o público.

“A fiação aérea permite a cobertura de uma área muito maior, porque é mais barata, porém, em termos de qualidade e de estética urbana, temos uma situação contrária”, afirma Sarmento. Conforme o arquiteto, que também é colunista da Rádio CBN Juiz de Fora, uma solução viável para diminuir os impactos dos fios na paisagem da cidade seria apostar em uma ação hierárquica, “procurando valorizar determinadas regiões que possuem um conjunto arquitetônico interessante.”

Levar os cabos de luz e telefone para debaixo da terra traria benefícios também para a segurança, já que fios expostos colocam em risco a vida da população. “Tecnicamente, a instalação subterrânea é muito mais segura”, sentencia Sarmento, para logo destacar uma região de Juiz de Fora que foi contemplada com projeto de fiação subterrânea. “Na Praça da Estação, o posteamento que alimenta a iluminação pública é todo subterrâneo. Já o posteamento do entorno usado não só para iluminação, mas para transmissão, tem todo aquele conjunto de fios prejudicando a visibilidade dos edifícios”, ressalta Sarmento.

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Em 2012, tramitou na Câmara Municipal de Juiz de Fora um projeto de lei, de autoria do então vereador Flávio Cheker (PT), que previa o uso de redes de infraestrutura exclusivamente subterrâmea para a transmissão de energia elétrica, telefonia, comunicação de dados via fibra óptica e televisão a cabo. A proposta foi vetada pelo executivo por “ausência de interesse público”. Desde o início de 2015, por determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a responsabilidade pela iluminação pública dos municípios passou a ser das próprias prefeituras, e em Juiz de Fora não foi diferente.

Segundo Toninho Dutra, superintendente da Funalfa, entidade responsável por secretariar o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora (Comppac) e cuidar da política cultural da cidade, ainda que informalmente, o assunto já foi objeto de conversa entre os membros do Comppac. “A Funalfa não faz projetos para bens tombados, ela os analisa. Temos um grande centro histórico formando um polígono de interesse especial que vai da Rua Tiradentes à Av. Brasil e da Itamar Franco à Benjamin Constant. Não dá para tirar o fio somente da frente de um prédio específico. É uma questão que não depende apenas de um olhar, é algo mais complexo que vai depender de um esforço coletivo a longo prazo.” Por meio de nota, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) informou que a instituição não tem projeto dessa natureza para Juiz de Fora ou cidades da região e que, normalmente, essa demanda parte da Prefeitura. “Há alguns anos, a PJF nos solicitou orçamento para algumas vias do Centro, como Espírito Santo e Getúlio Vargas, mas, após a entrega do valor do investimento, o projeto foi deixado de lado.”

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Benefícios para a segurança

Questão cultural

Na opinião do professor da faculdade de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Mauro Campello, a questão cultural também interfere diretamente na decisão de se implantar uma tubulação subterrânea. “O Brasil nunca se atentou para tornar a paisagem mais agradável, claro que tem cidades que se preocuparam com isso, como Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte. Não podemos esquecer que isso depende do poder público, mas não se trata de preguiça dos políticos, é porque é caro mesmo”, reforça Campello. Embora ainda exista um longo caminho a ser percorrido nessa direção, principalmente em Juiz de Fora, onde em bairros mais populares o emaranhado de fiação ao “ar livre” se torna mais denso, ele cita o projeto “Rio – Cidade”, executado em 1995, como um modelo que merece ser seguido.

“O projeto foi executado em avenidas principais do centro e das zonas Sul e Norte sem qualquer discriminação. Toda a tubulação de aproximadamente 15 vias foi enterrada, o que deu uma cara nova para a paisagem urbana. Em relação às cidades como um todo, a paisagem fica mais agradável, o que salta aos olhos de quem vem de fora. Uma das primeiras coisas que o visitante vai reparar é a ausência de fiação. Quando estamos em bairros, como o Santa Luzia, por exemplo, vemos tanto fio passando pelos postes que não sei como as concessionárias conseguem entender como aquilo funciona. Normalmente, quando a fiação é trocada, a concessionária acaba modernizando, também, suas instalações, substituindo por soluções mais eficientes.”

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