Pouco mais de 60 pessoas, entre artistas e lideranças comunitárias, se reuniram na tarde de ontem, na Câmara Municipal, para o que deveria ser o debate acerca do Plano Municipal de Cultura. Com um plenário de cadeiras vazias e a maioria dos vereadores ausentes, a sessão se ateve aos discursos em oposição ao polêmico projeto de lei apresentado pelo presidente da Câmara, Julio Gasparette (PMDB), que prevê a destinação de 10% do Fundo Municipal de Cultura (Fumic) para o Museu Mariano Procópio (Mapro). Inicialmente a audiência deveria ocorrer antes da votação do plano, mas ele foi aprovado no último dia 1º. Para mim é muito preocupante perder essa parcela da Lei Murilo Mendes. Precisamos agregar valor a ela, e não retirar. Assim corremos o risco de dilapidar uma lei crucial para manter a cidade produzindo, discursou o produtor, roteirista e cineasta Alexei Divino, representante do audiovisual no Conselho Municipal de Cultura.
Segundo o diretor teatral e artista plástico Henrique Simões, o panorama atual de Juiz de Fora revela uma insensibilidade de seguidas administrações. Do passado, a cidade tem um espectro de nomes reconhecidos nacionalmente, mas essa produção tem diminuído, tem perdido qualidade. Isso reflete o não olhar do Poder Público para a cultura local, disse, pontuando sua insatisfação diante do projeto de Gasparette. Fazendo coro a Simões, o diretor teatral Guy Schmidt reforçou a importância de se pensar na finalização das obras do Teatro Paschoal Carlos Magno. A Câmara deve um teatro à cidade há mais de cem anos. Esse plano contempla muitas coisas, mas a dívida do Município com a cultura é ainda maior, comentou. O pesquisador e jornalista Jorge Sanglard endossou: Não podemos deixar que a cultura seja tratada como coisa de segunda categoria.
Próximo passo: elaboração de metas
Divulgada nas redes sociais como momento para se debater o Plano Municipal de Cultura, a audiência pública foi marcada por elogios e reivindicações pontuais, como a do militar reformado Antônio Joaquim da Silva que sugeriu a criação de uma banda de música de Juiz de Fora. Representante do patrimônio material e imaterial no Concult, o conselheiro Marcos Olender, em seus cinco minutos de fala, despertou para a necessidade de aprofundamento no que deve ser o próximo passo do documento: a elaboração de um plano de metas. Entendo que é no plano de metas que o museu deve ser contemplado. São essas metas que irão quantificar e mensurar como alcançar os objetivos, destacou.
De acordo com Toninho Dutra, superintendente da Funalfa, o plano é bom e partiu de uma sugestão do Governo federal, proposta ainda não alcançada pela esmagadora maioria das cidades. Não vai resolver todos os problemas da cultura, mas organiza e propõe caminhos para esses dez anos. O plano de metas, agora, é nosso próximo caminho, explicou. Não só os grandes nomes fizeram essa cidade, mas os pequenos também, e o plano pensa em todos, completou. O superintendente do Museu Mariano Procópio, Douglas Fasolato, destacou as intensas atividades do espaço mesmo com apenas um terço do local aberto a visitação. Temos desenvolvido projetos culturais no que consideramos como um processo de visibilidade. Assim, conseguiremos obter recursos, afirmou, revelando que, no próximo ano, a instituição terá parcerias para exposições fora da cidade. O próprio museu enfrenta a burocracia do Governo, isso atrasa a reabertura, mas nem por isso estamos parados.
Ao invés de refletir sobre as formas de como se chegar aos 2% do orçamento municipal aplicado em cultura, o encontro serviu para demarcar a rejeição da classe artística com a proposta do presidente da Câmara. Segundo o vereador Wanderson Castellar (PT), é imprescindível que exista um conselho fortalecido para a aplicação do que o plano estabelece. Esse debate acerca do Plano Municipal de Cultura é muito mais amplo do que ficar discutindo a proposição do Julio, que se eu conheço bem, já está um pouco arrependido, alfinetou. Reforçando o coro, o vereador Roberto Cupolillo (Betão-PT) disse que a etapa mais difícil para o documento é referente ao seu cumprimento. Além disso, o parlamentar também reforçou que existem outras formas de beneficiar o museu. Cada vereador aqui tem direito a apresentar R$ 157 mil em emendas. Eu vou colocar uma parte disso na Lei Murilo Mendes, comprometeu-se, recebendo aplausos de todo o plenário. Para atender o museu, já que todo ano sobra dinheiro na Câmara, por que não repassar essa quantia para o museu?, questionou Betão. O presidente da Casa não se pronunciou durante o encontro.
