
O cinema e a cultura pop em geral são pródigos em imortalizar datas escolhidas por roteiristas, diretores e escritores em suas histórias como momentos-chave para a humanidade. É assim, por exemplo, em clássicos da ficção científica como “2001: Uma odisseia no espaço”, “O exterminador do futuro”, “Star trek”, entre outros. E o mesmo vale para “De volta para o futuro 2”, cujos fãs, nesta quarta-feira, celebram a chegada de Marty McFly (interpretado por Michael J. Fox) à fictícia Hill Valley, na Califórnia, no fatídico 21 de outubro de 2015, com a missão de salvar seu filho da prisão e, por causa disso, acaba alterando involuntária e radicalmente o passado. Como era de se esperar, desde o ano passado começaram a surgir reportagens relembrando erros e acertos do exercício de futurologia que diretores e roteiristas fazem ao jogar suas histórias para o futuro.
De todas as previsões feitas pelo filme, nenhuma tem sido mais comentada recentemente que uma ligada a um dos esportes mais populares dos Estados Unidos, e que surgiu como um misto de brincadeira e provocação: ao chegar à futurista Hill Valley, Marty McFly depara-se com um painel anunciando o título do Chicago Cubs na World Series, a série de sete jogos que define o campeão da liga profissional de beisebol lá na terra de Obama. O caso é que a equipe foi escolhida pelo roteirista do filme, Bob Gale, como gozação em cima dos “adoráveis perdedores”, como são conhecidos os torcedores do Cubs, pois a equipe tem apenas dois títulos na Major League Baseball (MLB), o último deles em 1908. Isso mesmo: o Chicago Cubs não vence um campeonato há 107 anos – na época do filme, a “seca” durava “apenas” 81 anos.
Em uma entrevista para o canal ESPN, Gale declarou que a escolha do beisebol foi natural, uma vez que a World Series é disputada entre o final de outubro e início de setembro, e “De volta para o futuro 2” tem como um dos seus ganchos a possibilidade de ganhar dinheiro no passado apostando nos resultados conhecidos do futuro. Além disso, tanto ele quanto o diretor do filme, Robert Zemeckis, tinham motivos para querer provocar os torcedores dos Cubs, pois ele é torcedor do Saint Louis Cardinals (rival de divisão do Chicago Cubs e que conquistou 11 World Series desde 1926, sendo nove deles antes de 1989), e Zemeckis torce para o conterrâneo Chicago White Sox, vencedor em 1906, 1917 e 2005. E os Cubs são, ainda por cima, uma das franquias com o maior número de superstições nos esportes americanos, incluindo a famosa “maldição do bode”: em 1945, último ano em que a equipe disputou – e perdeu – a World Series, um torcedor que tinha o carnê para assistir a todos os jogos no Wrigley Field (estádio da equipe) foi expulso das arquibancadas porque havia levado o seu bode (!) como companhia, e o bicho estava cheirando mal. Possesso, ele decretou na ocasião: “os Cubs jamais vão vencer.”
E tem sido assim desde então, com a equipe perdendo jogos inacreditáveis ou sendo eliminada nos playoffs em situações que entraram para o folclore do beisebol. Este ano, porém, existe uma chance real da “maldição do bode” ser quebrada, e “De volta para o futuro” cravar mais uma na sua lista de acertos: os Cubs disputam a final da Liga Nacional (última etapa antes da World Series) com o New York Mets após eliminarem o Pittsburgh Pirates e – ironia das ironias – o Saint Louis Cardinals. Para a profecia acontecer, porém, será preciso correr atrás, pois Chicago perdeu as duas primeiras partidas da melhor de sete fora de casa, e receberia o Mets na noite desta terça-feira em Wrigley Field, com o quarto confronto marcado para esta quarta-feira. Seria irônico ver os Cubs eliminados justamente hoje – para alegria do bode, de seu dono e supersticiosos em geral.
Acertos e erros
Independentemente do que o Chicago Cubs conseguir, “De volta para o futuro 2” acertou em outras previsões. Uma delas é ligada também ao beisebol, pois o filme previu que Miami teria uma franquia na MLB até 2015, e os Marlins foram incorporados à liga em 1993. Só não poderiam disputar a final com o Cubs, pois pertencem à mesma conferência. Entre outras adivinhações de Gale e Zemeckis, um Marty McFly do “mundo real” encontraria, hoje, videogames que são jogados sem joystick, TV de tela gigante e plana (com a possibilidade de assistir a mais de um canal ao mesmo tempo), propagandas personalizadas, videoconferências, cirurgias plásticas como procedimento corriqueiro, câmeras por todos os lugares (seja em postes, edifícios, casas ou drones), a invasão asiática (só erraram o país: hoje é a China que dá as cartas, e não o Japão) e a invenção do slamball, esporte que mistura basquete com trampolim.
O tão falado e desejado hooverboard, o skate voador, é uma “realidade” que surgiu no ano passado, mas que não está à venda – e nem se sabe se estará, um dia. Entre os erros, ainda não temos carros voadores movidos a qualquer tipo de material orgânico; a princesa Diana não virou rainha da Inglaterra; cabines telefônicas estão em extinção; “hidratadores” de comida não existem; as pessoas não fazem exercício enquanto comem; e não, não usamos aquelas roupas pavorosas que aparecem no filme – se bem que há cada combinação por aí…
Os futuros que ficaram no passado
Antes, durante ou depois de “De volta para o futuro 2”, outros filmes também acertaram e erraram suas previsões futuristas. Em “2001: uma odisseia no espaço”, de 1968, a adaptação de Stanley Kubrick para o livro de Arthur C. Clarke mostrava a humanidade viajando para os confins do Sistema Solar ainda no final do século XX, sendo que há 40 anos não colocamos os pés sequer na Lua. O futuro indicava, ainda, que já teríamos criado computadores com inteligência artificial – e o mais famoso deles, HAL 9000, teria sido ativado em 12 de janeiro de 1992, anos antes de ser acoplado à nave Discovery.
Em “Star trek”, um dos mais conhecidos eventos é o Primeiro Contato, que só vai “acontecer” em 5 de abril de 2063, quando Zefram Cochrane realizar o primeiro voo de dobra espacial. E tudo isso só vai ocorrer devido à III Guerra Mundial, que o criador da série, Gene Rodenberry, imaginou na década de 1960 que teria início em 2026 e terminaria apenas em 2053, matando mais de 600 milhões de pessoas. Mas antes disso, no futuro que não aconteceu, a Série Clássica teve o episódio “Space seed”, em que se descobria que a humanidade travou, entre 1992 e 1996, as chamadas Guerras Eugênicas contra superhumanos geneticamente modificados, cujo líder era o notório indiano Khan Noonien Singh, que chegou a dominar um quarto do planeta antes de ser derrotado. Como se sabe, nunca tivemos “super-homens” andando por aí, muito menos uma guerra por causa disso.
Também não rolou
Já a franquia “Exterminador do futuro” fez um samba do androide doido com sua cronologia, mas os dois primeiros – e melhores – filmes estabeleceram os dias 4 e 29 de agosto de 1997 como os mais importantes da série: o primeiro é a data que em que o governo dos Estados Unidos repassa exclusivamente à inteligência artificial Skynet as decisões do Departamento de Defesa; 25 dias depois, ao se tornar autoconsciente, ela revida a tentativa de seu desligamento com um ataque nuclear à Rússia, que devolve a agressão e provoca o famoso Dia do Julgamento Final, em que a humanidade virou farelo.
Os filmes B também têm o seu futuro que não se realizou. John Carpenter, por exemplo, dirigiu em 1981 o clássico “Fuga de Nova York”, que viaja até 1997 para mostrar a maior cidade do mundo relegada à condição de prisão de segurança máxima para os maiores criminosos. Quinze anos depois, em 1996, o cineasta filmou “Fuga de Los Angeles”, passado em 2013 e que tem a maior cidade da Califórnia separada do continente após um terremoto, passando a abrigar a escória da sociedade americana da época. Para a alegria dos turistas, as duas cidades continuam sendo uma tentação para o consumismo, e nada mais.
