As tintas espessas, de cores fortes, e o tempo de espera exigido pela técnica do óleo sobre a tela fizeram com que Guilherme Melich tomasse a contramão do inicialmente planejado para a produção das 38 obras expostas na Casa de Cultura da UFJF. Desde 2010, o artista plástico e professor do Instituto de Artes e Design da UFJF (IAD) se dedica à elaboração das peças da mostra "Corpo [matéria]", dividida em seis séries distintas, mas produzida de maneira simultânea.
Composta predominantemente por pinturas, alguns desenhos (nanquim e grafite) e gravuras em metal, a exposição apresenta ao público obras inéditas do artista, que, recentemente, marcou presença na mostra do projeto "Carne fresca", da Hiato Galeria de Arte. Melich também assinou a exposição "Úlcera nervosa", que estampou as paredes do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, em 2009.
"Seis séries de trabalhos que se diferenciam por suas linhas de pensamento e se aproximam por seus pontos de reflexão", avalia a curadora da mostra, Mariana Lopes Bretas. A distinção das linhas de pensamento, segundo Melich, estaria na distância temática entre os conjuntos reunidos. "Em determinadas séries, exploro imagens de construções pegando fogo, ou de pessoas pulando de prédios, em outras, realizo estudos de naturezas-mortas ou pessoas que posaram para mim. Enquanto em algumas séries o olhar volta-se para o mundo,
em outras, volta-se para mim mesmo ou para as coisas que estão ao meu redor, minha família ou os objetos descartados no meu quintal", diz.
Já a convergência reflexiva estaria, talvez, segundo o autor, em um ponto específico. "Uma certa perplexidade frente às coisas, frente à vida", cogita. "Seja quando avalio o limite entre a vida e a morte ou quando observo minha filha dormindo em meio a um amontoado de colchas. Percebo o quanto somos frágeis perante o tempo e agarro-me à fantasia da permanência, à ideia de que a arte pode resistir às ruínas do que é efêmero."
"Em queda", "Incêndios", "Ao vento", "Todos os olhares sobre ti", "A vastidão das coisas ínfimas" e "Escritos para ninguém ler" são as séries desbravadas por Melich. "Vertigem, densidade, perigo, angústia, dúvida, deformidade… São inúmeros os sentimentos e as sensações com os quais o artista trabalha e que nos chegam de imediato, ao primeiro contato com sua pintura", avalia a curadora em texto para a exposição, no qual contrapõe o conceito de sublime através dos tempos. Diferentemente do que atribuímos hoje, o sublime era, no século XVIII, o caos, o infinito, a natureza em sua forma mais intensa. "O sublime fazia clara oposição à beleza naquela época, ou seja, era o oposto do equilíbrio, da harmonia e da estabilidade."
Em sua percepção do trabalho do artista, Mariana destaca a maneira como é trazido à tona o remoto significado do sublime na arte de Melich, com "telas carregadas de pigmento, pesadas texturas, camadas espessas que deixam àquele que vê um sabor de assombro e enigma, estranhamento e confusão".
No próximo ano, a mostra será exposta em um centro cultural na cidade de Muriaé. A ideia, segundo o autor, é participar de outros editais para que o trabalho circule por espaços e entre públicos distintos. "Pintura tem que ser vista cara a cara. É preciso sentir o cheiro da tinta", conclui.
De terça a sexta, das 14h às 19h, sábados, das 10h às 14h. Até 27 de outubro
Casa de Cultura da UFJF- (Avenida Rio Branco 3372)
