"Sou um escritor proletário, trabalho porque preciso comer", revela Luiz Ruffato. "A ideia de que o escritor tem que escrever sob inspiração, por prazer, é uma herança de uma visão romântica. Todas as grandes obras do Renascimento foram feitas sob encomenda. Qual o problema de ter prazer e ganhar dinheiro? Eu tenho enorme satisfação em ganhar dinheiro. Se for com literatura, melhor ainda." O lançamento do livro de Ruffato "De mim já nem se lembra", no final de setembro, em Portugal, pela Editora Tinta da China, levou a Tribuna a discutir a questão da obra de arte sob encomenda. Será que o trabalho feito nesses moldes diminui o valor artístico da produção? Será que é possível chegar a sentimentos catárticos criando com objetivos financeiros?
"Estive em Lisboa e lembrei de você", outra obra do escritor realizada sob encomenda, também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Além de Portugal, chegou à Argentina e foi recorde de vendas na Itália, sumindo das prateleiras em apenas três meses. Os dois livros, já lançados no Brasil em anos anteriores, foram escritos atendendo ao projeto desenvolvido pelo Governo federal, dentro do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). "Tenho o maior orgulho das duas publicações e as considero importantíssimas", assevera.
De acordo com a professora de história da arte, do Instituto de Artes e Design da UFJF, Patrícia Meneses, a ideia de se produzir qualquer tipo de arte com fins financeiros não é recente e tem suas bases ainda na Antiguidade. "O artista não gastava seus próprios recursos para fazer um trabalho sem ter a certeza de que ele seria comprado. Era um risco que ele raramente podia se dar ao luxo de correr. Nesse sentido, a intenção, a vontade da existência da obra de arte, vinha quase sempre do comitente. E essa situação não dependia necessariamente da condição do profissional na sociedade, fosse ele visto como um mero artesão, como acontecia na Idade Média, ou como um grande gênio, a partir do Renascimento. O artista tinha que lidar com as vontades e opiniões de quem o patrocinava."
A professora salienta que esse panorama só é alterado a partir do Romantismo – momento no qual o artista passou a se ver como alguém que faz arte não como um ofício, mas como uma necessidade vital de sua própria existência. "Com o modernismo, veio a reclamação da total liberdade criativa, mas isso não significa que a encomenda desapareceu completamente. Ela só deixou de ser o motivador principal da produção artística. Mesmo hoje, quando os artistas contemporâneos passam uma imagem de completa liberdade, muitas obras são produzidas atendendo a pedidos específicos de fundações culturais ou organizações de bienais, pois disso dependem, muitas vezes, as suas carreiras."
Conforme o escritor paulista, Santiago Nazarian, quem vive da literatura não pode ter aquele romantismo de só escrever o que lhe move. "Produzir só por prazer é bonito, é importante, mas o autor também tem que se expandir, sair da zona de conforto, ir além do que ele consegue escrever", observa.
Com "Garotos malditos" – obra publicada pela Record, em 2012, e direcionada ao público adolescente -, Nazarian passou a fazer parte do seleto grupo de escritores que consegue "sobreviver" do seu ofício. "Recebi da Petrobrás R$ 40 mil para escrever. Foi a primeira vez que trabalhei sem poder voltar atrás. Eu tinha a obrigação de fazer dar certo, pois já havia fechado com a editora e recebido o dinheiro", destaca.
Segundo ele, diferentemente de suas outras publicações, seu último livro se distancia de seus anseios por retratar questões em que não acredita. "Ele não é para mim, não satisfaz as minhas necessidades, não são coisas que eu queria dizer. Ele é encarado como um trabalho, foi escrito para um público específico. Quando conto isso, muita gente acha que estou escrevendo somente por dinheiro. No entanto, acho que, como escritor profissional, o desafio é sentir prazer com os trabalhos por encomenda."
Em coro com Nazarian, o artista plástico Apolo Torres conta que fez uma ilustração em um estande de uma feira por R$ 5 mil, e o trabalho não estava dentro do seu estilo. Ele garante que é preciso fazer concessões. Apolo já teve suas obras exibidas em galerias de vários países e colecionadas nos Estados Unidos, Itália e Alemanha. "No começo da carreira, quando não era conhecido, rolava muito isso. Hoje sou mais seletivo. Porém não vou dizer que não ilustraria por dinheiro. Se pagar bem e não entrar em conflito com a minha ideologia, nem com a minha ética e moral, está ótimo. O montante que recebi pela ilustração era razoável, e fiz por causa disso. O trabalho em si não me envolveu muito."
‘Não concordo em ser obrigada a escrever o que me mandam’
Contando com a experiência de seus 86 anos de idade e quase 40 de literatura, a escritora juiz-forana Rachel Jardim afirma que receber a incumbência, seja de um livro ou de um quadro, pode ter resultados positivos, desde que o profissional não fuja do seu universo de atuação. A autora evidencia clássicos da literatura e das artes plásticas, concebidos dentro desse processo, que se tornaram referências de criação artística. "As telas que foram encomendadas a Picasso, por exemplo, e a outros grandes pintores, saíram extraordinárias. ‘Os sertões’, de Euclides da Cunha, foi encomendado por um jornal e saiu aquela obra-prima. Não concordo em ser obrigada a escrever o que me mandam, mas, se for solicitado por um determinado assunto, tudo bem. Posso, por exemplo, escrever sobre os anos de chumbo. Se se tratar de um grande escritor, esse problema será superado, e o trabalho será ótimo. Caso contrário, encomendado ou não, não será bom."
Assim como na literatura e nas artes plásticas, a música também pode ser tratada como um negócio. "Minha banda tocava um estilo muito pesado para as rádios e TVs, que geralmente não querem muito barulho, já que, de certa forma, não é rentável. Certa vez, tivemos que fazer uma versão quase acústica de uma canção que era bem pesada para que fosse aceita por estes veículos. No entanto, sempre fui fiel ao que acredito, embora soubesse que era pouco comercial. Caso optássemos por fazer um som mais melódico, certamente o retorno financeiro seria maior", diz o músico paulistano conhecido como Fil, ex-integrante da Banda Glória – que atua no cenário underground e "mainstream" – e profissional formado no Musicians Institute, em Los Angeles.
A extensão do ser
"Para ser arte, tem que existir sentimento, caso contrário, é habilidade, é técnica. Não é possível criar sem acreditar no que está fazendo, porque não vai haver a extensão do seu ser", reflete o artista plástico de Juiz de Fora Gerson Guedes. Professor de artes aplicadas do Colégio João XXIII, Guedes retrata, em suas telas, temas tipicamente juiz-foranos. Seus quadros extrapolam as galerias, chegando a estabelecimentos comerciais da cidade. Em conversa com a Tribuna, ele se recorda que já passou pelo desafio de contar a história do café em exposição, sob pena de não receber o apoio financeiro de uma determinada empresa caso não obtivesse êxito. "Fui provocado. Quando o pedido te desafia, em vez de ser desanimador, é um incentivo. A pessoa conhece o meu trabalho, então, ao me contratar, já sabe que vou materializar tanto o meu imaginário quanto o dela", salienta. "Quando faço nos meus moldes, não é angustiante. O que caracteriza a dor de fazer é a distância da flexibilidade, é você não poder colocar a sua marca", afirma.
Apolo Torres acrescenta que a obra tem mais valor artístico quando é autêntica e feita com sensibilidade. Contudo, isso não significa que a atividade comissionada não seja arte. "Claro que, se ela representa algo de que o artista não tenha orgulho, não consegue se enxergar, o valor como criação diminui. O mais importante é gostar do que estar fazendo", observa Apolo.
Com um olhar analítico sobre o assunto, a historiadora e crítica de arte Janaína Melo, que foi curadora de Arte e Educação do Instituto Cultural Inhotim, em Brumadinho (MG), assistente curatorial do programa Rumos Artes visuais do Itaú Cultural, e, atualmente, é gerente de educação do Museu de Arte do Rio (MAR), avalia que a atividade de um artista é igual à de qualquer outro profissional. "É possível fazer um trabalho sem receber por ele? Temos que entender que a pessoa que atua nas artes visuais é como um médico ou um advogado, por exemplo. Como eles recebem seus honorários pelo serviço prestado, o artista também precisa ser remunerado por aquilo que executa. Qualquer profissão exige um compromisso e uma responsabilidade. Existem pessoas que são empenhadas, fazem o que fazem porque acreditam naquilo e reconhecem aquela experiência de trabalho como seu experimento de vida."
Depois de uma rápida entrevista com a Tribuna, por e-mail, direto da Feira do livro de Frankfurt, Luiz Ruffato conclui que a ideia de que a obra executada sob encomenda é inferior àquela feita espontaneamente e que a satisfação relacionada ao trabalho está ligada à liberdade de se criar sem as pressões do mercado colocam o artista numa posição de superioridade em relação ao resto da humanidade. "Eu só aceito encomenda dentro daquilo que tenho competência para fazer. Nunca aceitaria só por dinheiro, mas eu quero que me paguem cada vez mais pelo que escrevo. Eu sou escritor profissional há nove anos, ou seja, vivo exclusivamente do meu trabalho. Antes fui operário têxtil, torneiro-mecânico e jornalista. Encaro a profissão de escritor como as anteriores, nem melhor, nem pior, apenas diferente."
