Como os seres humanos, as árvores têm um ciclo de vida semelhante, porém mais duradouro. Nascem e crescem. Algumas florescem e frutificam, outras não, apenas ostentam suas folhas. Umas chegam à exaustão, à senescência, após desfolhar e secar. Outras nem sequer chegam à maturidade e são vitimadas pela violência do homem. Como os seres humanos, as árvores também preservam histórias, algumas de décadas e mais décadas, outras de centenários, e, ainda outras, de apenas meses. No Dia Mundial da Árvore, comemorado hoje, a Tribuna foi até três grandes espécies diferentes, instaladas em pontos diversos. Cada uma a sua maneira experenciou as mudanças vividas pela cidade, o processo de urbanização e o gradativo ataque à arborização de Juiz de Fora em prol de uma desenfreada corrida imobiliária.
Em uma rua onde já não existem muitos arbustos, onde as folhas são escassas e os altos prédios já cumprem o papel de sombrear, um pau-brasil, espécie comum da Mata Atlântica brasileira e responsável pelo nome do país, chama atenção. Instalada no jardim frontal da Escola Estadual Fernando Lobo, na Rua São Mateus, a árvore é antiga no bairro, só não é anterior às senhorinhas que passam por ela lembrando de quando foi feito o plantio, ainda nos anos iniciais da mudança de endereço do então Grupo Escolar de São Mateus. Fundada em 1917, a escola funcionava num prédio da esquina das ruas São Mateus e Padre Café. Em 1929 mudou-se para o endereço no qual se encontra até hoje. Segundo a vice-diretora da instituição, Vera Berbert, não há uma data precisa acerca do plantio da árvore, mas especula-se que isso tenha ocorrido nos anos finais da década de 1930, numa atividade da qual os próprios alunos participaram.
Em setembro de 1979, o então prefeito Mello Reis decretou imune ao corte o pau-brasil do Fernando Lobo. Na cerimônia, 60 jovens estudantes declamaram: "Houve um dia em que chegamos a esta escola, bem pequeninos ainda, trazidos por nossos pais. E a sua figura altiva e majestosa, árvore querida, está aí presente à minha história de criança". Um dos jovens que passou pela árvore com uma mochila nas costas foi o escritor Afonso Romano de Sant’Anna, que estudou na escola durante as décadas de 1940 e 1950. E daqueles tempos aos dias de hoje, o tal pau-brasil viu não apenas mudanças sociais, marcadas pelo enobrecimento do bairro, mas as muitas transformações na educação do país. Viu o ensino fundamental ampliar de oito para nove anos e presenciou novas nomenclaturas, além de observar, nem tão distante assim, a transformação do Fernando Lobo em escola inclusiva, nos anos 2000.
Aos que passam pelas redondezas, é possível perceber que a tal árvore, estática e constantemente com muita folhagem, também foi espectadora dos gostos estudantis. Não apenas os uniformes mudaram – inclusive, na camisa adotada pelo colégio está lá o pau-brasil, estilizado – e ficaram mais curtos, mais cheios de detalhes nas calças e sapatos, mas também o vocabulário e os gostos musicais, que se fazem ouvir a quem passa pela calçada enquanto jovens, encostados nos muros, escutam suas músicas em aparelhos de celular. "Muita coisa mudou desde que essa árvore foi plantada. Hoje os valores são muito mais voltados para o consumismo. Fazemos um trabalho contínuo para mostrar aos estudantes o valor dessa parte importante da natureza que temos aqui, despertando para outras questões, mais subjetivas", comenta Vera.
Séculos para contar
Centenária, mas nem por isso cansada, já que exibe suas folhas verdes desenvolvendo e a paina branquinha anunciando a primavera, a paineira que cresceu onde hoje é o Bairro Centenário tem muito a contar. Ah, se ela falasse! Plantada no quintal da casa da psicóloga Mírian Bisaggio, na Avenida Rio Branco, a árvore já existia quando sua avó, uma professora do Grupo Central, atual Escola Estadual Delfim Moreira, comprou a grande fazenda chamada Grota dos Macacos. Na época, em 1915, tudo era mato, com arbustos grandes e pequenos. "A paineira já estava lá, não foi ela quem plantou", afirma Mírian, contando que foi a avó quem decidiu lotear a fazenda, dando o pontapé inicial para a urbanização da área.
Nascido e crescido bem em frente à árvore, melhor vista pela Rua Catulo Cearense, paralela à Rio Branco, Carlos Henrique de Oliveira recorda-se de muitas brincadeiras na paineira. "A gente gangorrava nos galhos dela, brincava debaixo dela, fazia muita farra." Emocionado, Oliveira diz que ela marcou essa geração: "Tanta gente já se foi, e ela está aí. Durmo com minha janela aberta, e ela me dá a sensação de ar puro. Às 4h da manhã os passarinhos já estão cantando nela". Moradora da rua há meio século, Sebastiana Dolores de Miranda, a Tânia, afirma adorar a sombra que ela faz na rua. "Dá vontade de sentar embaixo e conversar com os vizinhos, que são praticamente uma família."
Da rua de terra à via asfaltada, com um fluxo de carros e um barulho constante vindo da avenida próxima, a paineira observou a especulação imobiliária e a transformação da região em um centro comercial de relevância na cidade. A tal árvore viu tanto que até deu nome ao bairro onde está inserida: Centenário. "De uns anos para cá, ela tem sido muito perseguida. Infelizmente desisti de lutar. Não posso correr o risco de receber uma liminar me multando", lamenta Mírian, contando que a centenária está no centro de uma grande e polêmica ação judicial que pede o seu corte.
No coração da cidade
Em meio às mais de 150 árvores do Parque Halfeld, a peroba-rosa localizada na ponta direita, na esquina das ruas Marechal Deodoro e Santo Antônio, não é tão antiga quanto a praça na qual está inserida, mas já possui mais de sete décadas. Apesar de não ter presenciado a estrutura do Largo Municipal, primeiro espaço público da então Vila de Santo Antônio do Paraibuna, que ainda no século XIX recebia eventos como circo e cavalhadas, a árvore foi plantada quando o local já havia passado por duas grandes intervenções, dando lugar à Praça Coronel Halfeld, composta por um belo jardim romântico onde caminhos sinuosos acompanhavam o declive do terreno, margeando os lagos e os canteiros arborizados.
Memorialista da cidade, radicada no Rio de Janeiro, Rachel Jardim descreveu assim o parque em seus "Os anos 40": "Existiam pontes e tocas de peixes. Ao meio-dia, parecia tudo parado como um retrato. Os caramanchões emergiam da folhagem. Havia caminhos de cascalho, e as samambaias margeavam o riozinho claro. O velho chafariz onde minhas tias tiravam retratos quando mocinhas durou pouco". Hoje, o que a peroba-rosa, imune ao corte desde 1982, enxerga são os altos prédios que a circundam, pouco maiores que ela. Tombado como patrimônio municipal em dezembro de 1989, o Parque Halfeld e suas árvores, algumas também imunes ao corte, viu e vê a cidade em sua rotina agitada dos dias atuais. Enquanto vivem seus ciclos, o pau-brasil, a paineira e a peroba-rosa observam outras vidas, também em seus ciclos.
