Era fevereiro de 1970. Uma Quarta-Feira de Cinzas. Distantes de qualquer espaço coberto por confete ou serpentina, funcionários e professores, liderados pelo então diretor, Afonso Ribeiro da Cruz, davam início a uma nova fase do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da Universidade Federal de Juiz de Fora. Pioneiros, eles finalizavam a mudança para o novo campus. No ano anterior, o primeiro de sua longa trajetória, o ICHL havia funcionado nas instalações da antiga Fafile e das faculdades de Economia e Serviço Social, ainda no centro da cidade. Quatro décadas depois, nova migração, iniciada em 2010 e intensificada neste segundo semestre.
De acordo com o atual diretor, Eduardo Salomão Condé, até o fim de dezembro, os sete departamentos do ICH (o curso de Letras deixou de integrar o instituto em 2005) estarão ocupando o novo complexo de prédios, construído na esteira das ampliações provocadas pelo Reuni. A inauguração, como acrescenta Condé, depende da agenda da Reitoria, que aguarda uma possível visita da presidente Dilma Rousseff. Conforme adianta o pró-reitor de Planejamento e Gestão Alexandre Zanini, a antiga edificação passará por reformas a partir do início de 2012 para acolher parte da Faculdade de Letras e do Instituto de Ciências Biológicas (ICB).
Nas duas ocasiões, em 1970 e agora, foi preciso superar desafios. Durante o nascimento da universidade, a falta de móveis e de equipamentos, as instalações elétricas inadequadas e até a inexistência de água potável eram alguns dos problemas enfrentados pelos desbravadores, como pontua Cruz. "Só tínhamos acesso ao campus por meio de uma precária estrada de terra", completa. Da mesma maneira, quando o curso de Bacharelado Interdisciplinar em Ciências Humanas alojou-se em dois andares do prédio A da recente construção, em março do ano passado, o barulho e a poeira das obras em andamento fizeram companhia às aulas. "O acesso não estava terminado, e a universidade precisou disponibilizar um ônibus para os estudantes", lembra Condé, que lamenta a escassez de registros sobre a trajetória do instituto.
Foco de resistência
Se os obstáculos são semelhantes, o mundo que os recebeu transformou-se consideravelmente de 1970 para cá. Além das questões estruturais e conjunturais, a gestão do professor Cruz precisou encarar a ditadura militar. "Era uma ansiedade dia e noite", comenta, ressaltando que o chefe da secretaria, Ricardo Bonfante, foi levado para o quartel após ter as digitais identificadas em um envelope suspeito que ele apenas encaminhou. "A todo momento, qualquer suposta ‘autoridade’ armada poderia taxar de subversivo professor ou estudante."
Nesse período, o ICHL cumpriu papel importante na mobilização estudantil contra a repressão. Segundo o professor Ignácio Godinho Delgado – aluno de história no final da década de 1970 e diretor de 2002 a 2006 -, o instituto mostrava-se mais tolerante. "Quando tudo era proibido, ele acolhia as reuniões. E essa tradição se mantém. De lá partiram discussões importantes, como o movimento docente nos anos 1980 e a democratização do ingresso na universidade."
O professor Antonio José Gabriel, primeiro aluno das turmas do campus a se tornar diretor (entre 1994 e 1998), assegura que o ICHL sempre foi um foco de resistência. Por conta disso, esteve na mira constante dos militares. No momento da abertura política, Gabriel vivenciou a greve de estreia. Para ele, embora o instituto continue oferecendo espaço para debates, muitos estudantes já não apresentam tanta consciência política e histórica. Eduardo Condé concorda. "Os anos 1980 foram os últimos de militância", sentencia, observando que o mercado de trabalho mudou, assim como a postura do homem diante da vida.
Do 486 ao "palm"
Em 1987, o ICHL – de onde saíram os reitores José Passini e Margarida Salomão e muitos nomes da cena política – instaurou os primeiros cursos noturnos da UFJF. É o que conta o professor Carlos Alberto Argrives Botti, primeiro a dirigir o Centro de Pesquisas Sociais, inaugurado há 26 anos. De acordo com ele, como as luzes do campus não funcionavam, as aulas aconteciam com a ajuda de lampiões a gás. "Foi uma luta histórica para a cidade." Antonio Gabriel diz o mesmo: "muitos professores trabalharam de graça".
À frente do Centro de Pesquisas, Botti importou o primeiro computador 486 da universidade, no valor de US$ 18 mil. "Hoje, possuímos equipamentos de última geração, que nos permitem pesquisar no meio do Amazonas e transmitir as informações para cá." Sob a iniciativa do professor, também foi fundada a Editora UFJF.
Outro momento marcante e um tanto polêmico foi a transferência da biblioteca do instituto para a Biblioteca Central. "Faltava espaço e funcionários", explica o professor Ignácio Delgado, então diretor. Na opinião de Afonso Ribeiro da Cruz, desde o princípio, o ICHL sofreu com as instalações reduzidas para o tamanho da demanda, já que também atende a diversos cursos nos créditos básicos. O novo complexo, como destaca Eduardo Condé, possui três prédios de quatro andares e dois elevadores, um bloco com seis salas e um centro de convivência, com xerox, cantina e uma futura livraria. "Também aguardamos a licitação para a construção de uma biblioteca de 1.200 metros quadrados e capacidade para 87 mil volumes", acrescenta o professor, informando que diversos equipamentos ainda devem ser instalados. No total, 30 das 40 salas, além dos três anfiteatros, receberão projetores. Para o segundo semestre de 2012, está prevista a criação da graduação em ciência da religião.
Pesquisa e cantina
Na década de 1990, segundo Ignácio Delgado, o ICHL promoveu saltos acadêmicos e se projetou no cenário nacional. Anos antes, havia surgido, no instituto, o primeiro programa de pós-graduação da UFJF, o de ciência da religião. "A partir disso, o perfil da universidade passou a ser orientado fortemente pela pesquisa, o sentido mais profundo da vida acadêmica." Conforme menciona o professor Afonso Cruz, já em 1969, ele apontava a necessidade de ampliação e aprimoramento do corpo docente. Ele dizia, em relatório encaminhado à Reitoria: "parece-nos indispensável enviar os elementos mais jovens, dinâmicos e interessados para cursos de pós-graduação no país e no estrangeiro".
Cruz também relembra situações inusitadas, como o caso da conferência do acadêmico Ivan Lins, defensor da filosofia positivista. A sala média reservada não foi suficiente para os incontáveis ouvintes que esperavam assistir a uma apresentação de outro Ivan Lins, o da música popular. "Depois de um tempo, o auditório foi se esvaziando", brinca o professor.
Antonio Gabriel recorda-se, de seu tempo de estudante, do famoso despertador que ficava sobre a mesa da professora Maria José Vieira. "Ele tocava para marcar o final da aula. Então, vivia adiantado pelos alunos." Outro ponto que fez história foi a cantina. De acordo com Gabriel, ela reunia discentes de todos os cursos, diminuindo o isolamento provocado pela disposição espacial do campus. "Muitas discussões e criações nasceram ali", finaliza.
