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Menos ego, mais arte

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Excessos de informações e imagens. Uma quase redundância. E a vida segue confundindo tudo. Como um turbilhão, nada parece exatamente claro. "O que te representa?", podem lhe perguntar, deixando-lhe ainda mais perturbado. Objetivamente, alguns respondem mostrando o rosto, nu e cru. Outros exibem o corpo, igualmente despido. E, de forma subjetiva, ainda, alguns replicam oferecendo metonímias. Em "Olhe para mim", coletiva fotográfica que integra a programação do "Foto 14", chamam atenção os autorretratos rompendo a fragilidade e a gratuidade dos selfies, numa perseguição por interpretações mais profundas acerca da representação de si. Há os que se decidiram por enfocar o próprio umbigo, os que fotografaram apenas a orelha, ou, ainda, um mamilo. Sob curadoria do professor do Instituto de Artes e Design e artista visual Afonso Rodrigues – que integra a mostra numa foto de si agarrado ao esqueleto da cabeça e os chifres de um veado -, a mostra segue em cartaz até 14 de setembro, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas.

"Aconteceu uma diversidade de autointerpretações. Até viabilizei a exposição anônima, porque queria essa diluição de si mesmo nesse mundo de afirmações, no qual o autorretrato serve como projeção social através da imagem. Queria que as pessoas olhassem as fotografias com a força que elas têm. A ideia era essa: como nós somos uma diversidade. É nessa diferença que encontramos nosso rosto social, somos um amontoado de pessoas", comenta Afonso, que fez uma selfie para convidar os amigos do Facebook a fazerem uma "imagem de si pensada".

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Segundo o curador, a autorrepresentação é uma tradição. O homem da idade da pedra desenhava a própria mão no que seria um tipo de autorretrato, prática comum aos pintores e intensificada nos séculos XV e XVI. "O Rembrandt se pintou desde jovem até ficar octogenário. A vida dele está toda em autorretratos. A fotografia veio e rompeu com a posse da imagem – porque, antes, quem tinha imagens era quem tinha dinheiro para pagar artistas – e trouxe a possibilidade de você fazer seu próprio autorretrato", explica o curador.

Como a reproduzir a história da arte, "Olhe para mim" exibe fotografias singelas, de um rosto milimetricamente enquadrado em porções iguais, mas também o registro da sombra de um torso nu. Inquietante, um dos trabalhos exibe um rosto dentro de uma gaiola – seria a revelação de um aprisionamento? -, enquanto outro aparece com a face apagada – seria a dificuldade em se apresentar? – e ainda outro sugere o quadro "Os amantes", de René Magritte, com duas faces cobertas por um lençol – seria um sempre a companhia do outro?.

"A ideia é fugir da banalização do autorretrato que virou o selfie", explica Afonso, que diz ter se surpreendido com a "criatividade, o apoio tecnológico e até mesmo, dentro da formalidade do retrato, a adição de um elemento ou outro que estende a interpretação de si" nas 66 imagens que lhe enviaram, dentre elas uma face construída por pequenas fotografias do cotidiano de um fotógrafo. Sintetizando a discussão, a imagem representa o múltiplo de que somos compostos. Na verdade, todas as fotos também induzem a um único retrato.

 

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Todos somos fotógrafos?

Uma das obras da mostra apresenta oito fotografias 3×4, próprias de documentos, agrupadas em três fileiras (com um espaço em branco ao fim), registradas com uma sombra sobreposta. Ali está a ideia de que a identidade não prescinde do tempo. Da mesma forma, a fotografia enquanto suporte carece do tempo, que oferece a maturidade, a experiência.

"Olhe para mim" revela, também, a faceta da expressão enquanto pesquisa artística, veículo para a manifestação da identidade de um artista. "Fotografia é tecnologia. As pessoas acham que a tecnologia é só a informática, e não é. Um lápis é uma tecnologia, tem uma técnica aplicada ali. As tecnologias mudam a vida das pessoas e mudam também a visão de mundo. A fotografia é assim, tem uma função prática, que é o registro da imagem. Como instrumento técnico de leitura e pesquisa, ela tem a ver com o aporte pessoal", discute Afonso Rodrigues.

De acordo com ele, o selfie – "O que me incomoda é o fazer automático, que virou quase um cacoete" – faz parte do discurso de pertencimento contemporâneo. "É uma tecnologia a serviço, mas ela pode me mostrar algo além disso, que é o que fazemos na exposição. O que posso fazer como pesquisa, usando essa ferramenta, para sair desse contorno de banalidade? Quem manipula a técnica é a cabeça de cada um. Parafraseando Sebastião Salgado, quem faz a foto não é o olho, não é o dedo, é a minha cultura", diz. Ainda que o acesso à fotografia seja hoje muito maior do que há algumas décadas, é fundamental perceber a linguagem própria dessa ferramenta. "A tecnologia hoje é ultra-acessível. E acredito que hoje não há nada mais acessível nesse contexto do que a fotografia, pelo menos em termos de linguagem artística. Esse acesso trouxe para as pessoas a possibilidade de ser fotógrafo. Quem é fotógrafo? Por definição de dicionário, quem faz foto e fotógrafo, então, qualquer pessoa é. Porém, existe uma arqueologia da fotografia. Existem aqueles que vão no fundo buscar algo para trazer à tona na imagem, e outros que ficam na superfície."

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OLHE PARA MIM

 

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Visitação de terça à sexta, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 21h.

Até 14 de setembro

 

Centro Cultural Bernardo Mascarenhas

(Av. Getúlio Vargas 200 – Centro)

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