Por 28 anos, o fotógrafo Jorge Couri esteve separado do legado que ele próprio produziu para a cidade. Após 35 anos de trabalho no jornal Diário Mercantil, ele viu seu arquivo escapar de suas mãos depois que o periódico fechou as portas em 1983. Nas caixas de negativos que ficaram trancadas na redação, estavam não só os registros de Couri, mas também as imagens de outros profissionais que passaram pelo veículo. Juntas, elas documentam 71 anos na história de Juiz de Fora, a partir de 1912. Depois de anos de afastamento, o reencontro foi finalmente possível por meio de uma iniciativa da Funalfa, que, em parceria com o Arquivo Histórico Municipal, vai promover a digitalização integral do acervo. A propósito, cerca de 60 imagens de Couri foram recuperadas desse material para integrar uma homenagem ao fotógrafo na programação do Foto 11. Em cartaz no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), a mostra Tributo a Jorge Couri comprova a relevância desse patrimônio, que compõe uma verdadeira crônica de Juiz de Fora entre as décadas de 1950 e 1980.
Curador da exposição, o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, adianta que será realizada a catalogação das imagens com a finalidade de construir um inventário completo, que ficará disponível para consulta. Entretanto, a dimensão exata do acervo ainda é desconhecida, uma vez que grande parte da coleção é constituída de negativos, guardados em dezenas de caixas.
Além das fotografias do Diário Mercantil, o conjunto conta com imagens do Diário da Tarde- que cobrem os anos de 1944 a 1983 – e a coleção encadernada de ambos os periódicos. Um escâner de alta precisão, capaz de ler negativos, será adquirido para a digitalização do material. Serão contratados estagiários para a realização do trabalho, que atuarão sob orientação da equipe do Arquivo Histórico.
Noite traumática
A noite que marcou o fim do Diário Mercantil ainda está viva na memória de Jorge Couri. A notícia surpreendeu os funcionários, que trabalharam normalmente até o último instante, sem suspeitar da decisão tomada pelo consórcio que, na época, controlava os Diários Associados. O fotógrafo conta que foram deixados dois espaços em branco, reservados na capa e na última página da edição. A equipe não sabia que, mais tarde, essas colunas seriam preenchidas pelo comunicado do fechamento do jornal.
A notícia gerou revolta entre os funcionários. Para acalmar os ânimos, os diretores do grupo alegaram que não se tratava de um final definitivo, mas de uma interrupção de apenas 30 dias na publicação. Durante esse período, Couri dedicou seu tempo a organizar seu acervo, separando negativos em caixas. No entanto, um dia antes do prazo expirar, foi impedido de entrar no prédio. Minha inocência foi tão grande que não levei as caixas para casa. Aquela era a história de 71 anos de Juiz de Fora, conta.
Por muitos anos, o fotógrafo se empenhou junto à direção dos Diários Associados para reaver esse material, sem sucesso. O destino das fotografias nos primeiros anos após o fechamento do Diário Mercantil é incerto. Sabe-se, entretanto, que a coleção esteve por muito tempo arquivada em uma casa na Rua Oswaldo Cruz, onde funcionava a sucursal do jornal Estado de Minas- pertencente ao mesmo grupo. Nessa fase, chegou-se a cogitar a transferência do acervo para Belo Horizonte, o que acabou não acontecendo. Em 2003, finalmente, foi efetivada a doação dos itens para o Arquivo Histórico Municipal.
Depois de quase três décadas, o reencontro de Jorge Couri com as imagens que produziu não aconteceu sem uma certa dose de mágoa, em relação ao que o fotógrafo chama de traição dos Diários Associados. Por trás dessa recusa, estão anos de tentativas de recuperar o acervo para a cidade e o constante medo de que as fotos se perdessem para sempre.
Tempos atrás, convidado pela Funalfa para trabalhar na identificação das imagens, Couri preferiu recusar. Mas ao receber um novo chamado, no início de 2011, decidiu mudar de ideia. Achei que aquela emoção iria me fazer mal. Mas, depois, pensei que seria egoísmo meu, porque era algo que só eu poderia fazer.
A memória de Jorge Couri foi essencial para a identificação de personagens e acontecimentos registrados nas fotos ou para contextualizar referências e anotações no verso de algumas imagens. O trabalho, realizado pelo departamento de memória da Funalfa, foi feito em duas reuniões semanais na casa do fotógrafo. Além disso, foram registrados depoimentos de Couri em vídeo. Em fase de edição, o material também será disponibilizado pelo órgão.
Crônica de sete décadas
O material que compõe a exposição Tributo a Jorge Couri foi extraído quase integralmente do acervo do Diário Mercantil. São 67 fotos, selecionadas de um universo de quase quatro mil. Toninho Dutra conta que tentou resgatar o cotidiano da cidade nas décadas registradas pelo fotógrafo, um panorama que vai se revelando não só por fatos, mas pela mudança do cenário urbano e da indumentária. Você acaba puxando para onde seu olho direciona. Busquei recontar a cidades nesses 35 anos, com o material que tinha nas mãos. Juntei o meu olhar com a beleza das fotos dele, explica.
Feliz com o reconhecimento e com o resultado da exposição, Jorge Couri conta que fez questão de retornar à galeria no dia seguinte à abertura para olhar as fotos com mais atenção. Empenhou-se também em conhecer o trabalho de jovens colegas, expostos em outras galerias do CCBM.
O fotógrafo afirma que não se adaptou à tecnologia digital, mas não poupa elogios ao falar sobre as reproduções feitas para a mostra. Está melhor do que as minhas fotos são de fato, diz. Com o trabalho concretizado, Couri afirma que valeu a pena ter se reconciliado com o passado. Eu me senti realizado profissionalmente, por ter um acervo meu disponível para Juiz de Fora.
