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O ódio toma as ruas

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Ataques violentos, que têm como motivação a repressão de policiais a cidadãos da periferia. As cenas vistas em Londres no início do mês repetem, com contornos bem parecidos, os conflitos ocorridos nos subúrbios de Paris em 2005, quando jovens foram para as ruas para protestar contra a morte de dois jovens de origem árabe. Ambos os episódios repercutem uma questão em latência em outros países do primeiro mundo: o crescimento da população marginalizada nos grandes centros urbanos, formada, em grande parte, por imigrantes e seus descendentes. O estado de tensão vivenciado nessas cidades é uma realidade observada por escritores, cineastas e outros formadores de opinião, que alertam em suas obras para a necessidade de se repensar as políticas sociais e o lugar da própria cultura. A Tribuna conversou com professores e estudiosos de diferentes áreas da cultura para mostrar como a arte pode ajudar a entender o que está acontecendo no mundo atual.

Em 1995, dez anos antes dos choques entre a polícia e moradores de Paris, o longa "La haine – O ódio", de Mathieu Kassovitz, alertou para a existência uma geração criada sob o estigma da exclusão. Imersa no desemprego, na pobreza e no crime, essa população – em grande parte formada por imigrantes norte-africanos e seus descendentes – alimenta o ódio pelo mundo que a reprime. "É um filme que mostra bem o preconceito e o clima de tédio entre esses jovens. O diretor consegue expressar muito bem a pressão e a falta de perspectiva dessas pessoas", explica o filósofo Sandro Santiago, organizador de cineclubes como o Kifilmebrasilis e o Gutes Kino.

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Na opinião da professora do curso de Letras da UFJF e organizadora do ciclo de cinema "Migrações contemporâneas", Enilce Albergaria Rocha, estamos assistindo à amplificação de uma situação histórica, que se tornou mais visível durante os conflitos nas ruas de Londres e Paris. "As migrações das populações vem crescendo por diferentes razões, dentre as quais a fome, as guerras, os conflitos étnicos e religiosos, os governos ditatoriais e as catástrofes climáticas. E isso vem acontecendo de maneira avassaladora, sobretudo no continente africano. A busca pela sobrevivência vem gerando migrações massivas para o continente europeu, e a solução encontrada tem sido o reforço do policiamento e não políticas sociais e culturais visando à inclusão dessas populações", comenta a professora, citando exemplos polêmicos, como o do governo francês, que criou o Ministério da Identidade Nacional, para tentar definir os critérios de identidade de um francês legítimo.

Santiago incrementa a lista com sugestões como "Coisas belas e sujas" (2002), de Stephen Frears, trama policial protagonizada por dois estrangeiros em situação irregular em Londres, e "Bem-vindo" (2009), de Philippe Loiret, que questiona as políticas de imigração europeia, narrando a história de um jovem iraquiano que arrisca a vida, cruzando o Canal da Mancha a nado, para reencontrar a esposa na Inglaterra.

Entram ainda na discussão os nacionais "Jean Charles" (Adriano Goldman), que utiliza a tragédia real do mineiro assassinado pela polícia de Londres para mostrar a situação dos imigrantes na Inglaterra, e "Terra estrangeira" (1995), de Walter Salles, que faz uma reflexão sobre a perda da identidade no exílio. "O cinema tem a capacidade de mostrar simultaneamente várias situações. A pressão pode ser econômica, simbólica ou psicológica. Além disso, o cinema tem a capacidade de fazer com que o público entenda essas questões também através da emoção", comenta Santiago.

A questão não se restringe à Europa, estendendo-se para outros pontos de permanente tensão, como a fronteira dos Estados Unidos com o México. A situação dos imigrantes que arriscam a vida ao cruzar o deserto é denunciada no documentário "A fronteira", de Roberto Carminati. "Ao mesmo tempo em que as fronteiras estão sendo fechadas, os jovens têm mais acesso às informações. Existe um apelo ao conhecimento de outras culturas", pondera Enilce.

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Enilce Albergaria Rocha acrescenta o exemplo de "Exílios", de Tony Gatlif, que narra o drama das famílias que vivem dividas entre duas culturas. Muito comum na Europa, essa realidade, por vezes, entra em choque com a política e cultura nacionais, como ocorreu na proibição do uso do véu nas escolas pelo governo da França. "Uma situação de grande complexidade cultural, como a que estamos vivendo no mundo atual, exige novos parâmetros", opina Enilce.

O antropólogo, poeta e romancista Édouard Glissant, em seu livro "Introdução a uma poética da diversidade", traduzido pela professora, discute a questão da convergência das culturas hoje no mundo e a necessária mudança na concepção de nação, de uma estrutura fechada sobre si mesma para outra de fronteiras mais abertas, portadora de uma identidade cultural híbrida. Glissant ressalta a importância da participação da literatura e das artes em geral nesse processo.

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Autor de livros como "Cultura e imperialismo" e "Reflexões sobre o exílio", o palestino Edward Said acrescenta novos elementos à discussão, explicando como os valores europeus, através da colonização, se espalharam pelo mundo e criaram uma espécie de sobreposição de culturas, gerando diferentes formas de hibridismos. Enilce acrescenta, ainda, o pensamento do antropólogo francês Michel Agier. "Ele diz que só a tolerância não é mais suficiente, é necessário empatia: pensar como se sentiria se estivesse na situação e circunstância experimentadas por outra pessoa", resume a professora.

Conceitos como o de Agier estão na contramão da realidade atual, revelada na situação dos centros de refugiados oficiais, que concentram imigrantes em situação irregular na Europa e em outras partes do mundo. Atualmente, cerca de 12 milhões de pessoas vivem nessas condições. Embora não se passe na Europa, o filme "Um heroi do nosso tempo" (2005), de Radu Mihaileanu, exemplifica essa situação, retratando uma dessas zonas de espera, que reúne migrantes judeus (os chamados falashas) na fronteira da Etiópia com o Egito.

Vencedor da Palma de Ouro de Cannes, em 2009,"Entre os muros da escola" apresenta uma espécie de choque cultural no microcosmos de uma sala de aula. O abismo social entre o professor François Marin e seus alunos – africanos, asiáticos, latino-americanos e franceses – é a razão da incompreensão e dos atritos entre ambas as partes, em um retrato do que seriam as metrópoles europeias contemporâneas.

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O diretor do Instituto de Artes e Design da UFJF, Ricardo Cristofaro, apresenta o contraponto da arte, que age não só como agente de denúncia, como também de promoção social. O exemplo disso é o projeto "Kids of survival", do norte-americano Tim Rollings, desenvolvido desde a década de 1980. O artista tem como colaboradores um grupo de estudantes da região do Bronx, em Nova York, considerados alunos problemáticos. A partir de um contexto de intolerância racial, o artista cria um entrecruzamento entre as histórias de vida desses jovens e narrativas da literatura clássica. "São trabalhos de caráter político, que ajudam a desalienar esses jovens. Hoje, são quadros muito disputados em leilões de arte", explica Cristofaro.

"A democracia funciona com o peso das contradições. Existem várias associações defendendo esses imigrantes", pondera Enilce Rocha, que recentemente testemunhou manifestações na cidade de Toulouse, na França, onde centenas de pessoas se reúnem periodicamente na Place du Capitole, com velas acesas, para se solidarizar com os imigrantes vítimas da perseguição política e policial. De acordo com a professora, o tema também está presente no teatro e na música, sobretudo nas letras de grupos de rap, como o Zebda. "Não se trata mais de uma questão de humanismo apenas, mas de uma situação de urgência que depende da conscientização por parte das populações europeias que podem pressionar por ações políticas."

 

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