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Entrevista – Klester Cavalcanti, jornalista

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Klester Cavalcanti, 46 anos, tem o olhar voltado para o agora, pois quer provocar mudanças. “Não quero fazer um livro sobre a ditadura, sobre alguém que passou por algo há 30, 40 anos. Por que isso acabou, né? Não vai mudar nada. Não tenho nada contra quem faz, mas o que me interessa é fazer livros sobre questões atuais”, afirma ele, que acaba de lançar “A dama da liberdade” (Saraiva, 376 páginas). No centro dessa história, está Marinalva Dantas, a coordenadora de um grupo do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que, desde 1995, tem dedicado sua vida à causa da libertação de escravos no Brasil. Como jornalista, Klester tem números e documentos que comprovam uma situação que corre com o conhecimento do poder público. “O governo brasileiro assumiu, em 2014, diante da ONU, que ainda há 25 mil trabalhadores privados da liberdade no país. Mas, de acordo com a ONG internacional Walk Free, esse número chega a 155 mil”, escreve o cineasta Fernando Meirelles no prefácio da obra.

Chega a ser impossível para o leitor não se chocar com os nomes que aparecem envolvidos nesse esquema ardiloso que persiste em pleno século XXI. “A dama da liberdade” não nos deixa esquecer de que, inclusive, crianças, ainda hoje, labutam de sol a sol por 14 horas seguidas. Por telefone, Klester contou detalhes dessa grande reportagem. O entusiasmo com o qual fala dessa nova empreitada revela todo o seu desejo por fazer algo pelo país. Da última vez que conversamos, em outubro de 2013, o jornalista havia acabado de lançar “Dias de inferno na Síria” (Saraiva, 296 páginas), pelo qual recebeu o terceiro prêmio Jabuti da carreira. No livro, o escritor relata os dias em que foi preso e torturado, em Homs, no ano de 2012, ao lado de 20 árabes, sem direito a dar um telefonema sequer. Klester também é ganhador do prêmio Vladmir Herzog de Direitos Humanos.

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A entrevista com o escritor foi transmitida pela Rádio CBN Juiz de Fora, no quadro “Sala de Leitura”, que vai ao ar aos sábados, às 10h30, com reprise às segundas-feiras, às 14h30.

Tribuna – Destacar o lado humano, ao tratar de um assunto tão difícil e delicado, era sua preocupação desde o início?

Klester Cavalcanti – Não é um livro só sobre o trabalho escravo, o que já seria muito forte. É um livro sobre uma mulher que dedicou a vida a combater o trabalho escravo. A Marinalva abriu mão, durante mais de dez anos, de ter uma relação próxima com os filhos, com o marido. Ela perdeu o casamento por causa do trabalho, porque ela ficava 20, 25 dias do mês viajando em operações para libertar escravos, o que é algo muito lindo, muito nobre. Por outro lado, tem a situação dos que ficavam, dos que sentiam a falta dela, sofriam com sua ausência. Tanto é que o casamento não resistiu, mesmo gostando muito um do outro. Só depois de muito tempo, depois de sair do grupo do trabalho escravo, ela conseguiu retomar uma relação bacana com os filhos. Conto a história dessa mulher, como ela fez, o empenho dela na luta contra o trabalho escravo. Há momentos muito divertidos, engraçados, tem romance, tem suspense.

– Você é um jornalista que vive em situações extremas. É mais triste e difícil cobrir uma região em conflito ou as mazelas do seu próprio país?

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– São coisas bem distintas. O que eu vi na Síria foi muito forte. Você vê o exército de um país atacando o próprio povo, você vê terroristas também matando pessoas inocentes, pais, mães e crianças. É muito doloroso, só que essas guerras uma hora vão acabar. A guerra da Síria está durando mais de quatro anos, mas, obviamente, vai chegar um momento em que isso vai ser resolvido. O que é muito pior, em relação ao nosso país, é que a gente tem, no Brasil, problemas que, infelizmente, você imagina que não serão resolvidos. O trabalho escravo é um deles. Há pouco mais de 10, 15 anos, o grupo do Governo federal que combate o trabalho escravo no Brasil era formado por nove equipes, hoje ele está reduzido a quatro equipes. É óbvio que isso vai trazer menos resultados. O problema que estava sendo combatido tende a crescer.

– Choca ainda mais perceber que isso acontece com o conhecimento do poder público?

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– Sim, e esse problema existe no Brasil inteiro. As pessoas têm uma ideia muito equivocada de que só acontece no Norte e no Nordeste do Brasil, mas não é. Entre os dez estados com maiores índices de trabalho escravo, estão São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

– E você cita os nomes reais das pessoas, inclusive, de políticos influentes…

– Quanto mais conhecidas as pessoas, acho que maior a minha obrigação, como jornalista e escritor, de colocar nomes reais para que a sociedade veja até que ponto a gente chegou. Infelizmente, não vejo muitas possibilidades de a gente erradicar o trabalho escravo nas próximas décadas. A Marinalva libertou mais de 50 escravos de uma fazenda do Mato Grosso. Nos documentos que ela apreendeu nas fazendas mais a minha apuração posterior, ficou provado que José Alencar, que era vice-presidente do Lula, tinha envolvimento em negócios ilícitos com esse fazendeiro de escravos do Mato Grosso. Quando você vê que o vice-presidente da república está envolvido com fazendeiro escravagista, que esperança pode haver de que isso se resolva? E tem um processo sobre esse caso do José Alencar na Controladoria Geral da União. Eu tive acesso a ele, identifico no livro exatamente o número do processo, coloco trechos do processo. Também tem o caso do deputado Jorge Cipriano, do Rio de Janeiro, que tem uma fazendo no Mato Grosso, de onde a Marinalva também tirou, se não me engano, 40 e poucos escravos. Acho sempre importante falar isso, não é um político do Acre, de Rondônia, do Pará. É um político do Rio de Janeiro, que, na época da operação da Marinalva, era presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e mantinha trabalhadores escravos na fazenda dele no Mato Grosso. Se você vê um vice-presidente da república e um deputado do Rio de Janeiro alimentando a escravidão contemporânea no Brasil, fica muito difícil imaginar que isso vá ser resolvido em menos de 10, 20 anos.

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– No prefácio, o cineasta Fernando Meirelles diz que você deve ter algum tipo de compulsão ou distúrbio que te leva, a cada livro que escreve, a situações mais extremas. É distúrbio ou é compulsão?

– É um desejo de tocar em feridas que poucas pessoas tocam no Brasil ou, se tocam, não vão tão a fundo. O último capítulo do meu livro termina em maio de 2015, a Marinalva ainda está trabalhando, vai até hoje a fazendas, a feiras tirar crianças que estão trabalhando ilegalmente, dá palestras. Busco muito tratar de assuntos de agora, para que, como disse o (Fernando) Meirelles no prefácio, a gente tenha esperança de que as pessoas que podem resolver alguma coisa, fazer alguma diferença, depois de ler um livro meu, tenham outra visão e façam algo que mude o país para melhor.

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