O presente é muito frágil. Tudo o que é agora pode já não ser mais. Revivendo discussões sobre mídia e história, o professor da Faculdade de Comunicação Social da UFJF, Cristiano Rodrigues, percebe que a memória é um propulsor para o futuro. Ela dá base para pensar no amanhã. Se não nos apegamos a ela, não damos conta dessa fragilidade do presente, reflete Rodrigues, que apresenta ao público o livro Memórias possíveis – personagens da televisão em Juiz de Fora (320 páginas), escrito com a professora doutora e secretária de comunicação da instituição, Christina Musse. O lançamento acontece hoje no Espaço Manufato. Em um contexto em que as relações se estabelecem de forma cada vez mais acelerada e efêmera, a memória, tomada de sensações e obscuridades, se torna responsável pelos vínculos, observa Christina.
Citadas pelos autores como grandes protagonistas da obra, a cidade e suas representações estão em depoimentos de 24 personagens da história do telejornalismo juiz-forano, como Wilson Cid, Jorge Couri, Natálio Luz, Álvaro Americano, Mauro Pianta e Sérgio Rodrigues, comunicadores que fizeram parte de distintas emissoras de Juiz de Fora. Cabe ao pesquisador fazer falar o passado, instigando aqueles que se colocam no lugar de testemunhas a relembrarem pedaços de tempos que brotam agora, no presente, sob a forma de palavras, sintetiza Marialva Barbosa no prefácio da publicação, que tem capa assinada pelo artista gráfico e professor Jorge Arbach e é editada pelo selo Nankin Editorial, com apoio da Lei Murilo Mendes.
Lembranças referentes às transformações ocorridas em 50 anos – recortados entre 1960 e 2010 – permeiam as narrativas, em um trabalho de transcrição de mais de 60 horas de gravação, que contou com o auxílio de bolsistas de Iniciação Científica. Lidar com depoimentos é algo fantástico, porque essa fala vem carregada de sensações, subjetividade, e nem tudo fica claro. Quem escuta precisa trabalhar para compreender as entrelinhas e saber conduzir sem interferir, avalia Christina.
Afetividade em narrativas
A recuperação da história pelos depoimentos é apontada como legítima pelos autores, sobretudo, em função da dificuldade de reconstrução do percurso telejornalístico a partir dos acervos audiovisuais. A consciência de arquivar esse material só começa a ser adotada recentemente. Programações ao vivo não eram gravadas, e fitas foram regravadas. Muito se perdeu ou foi destruído, relata Christina, destacando a importância da imprensa na construção da história e das identidades.
A autora observa ainda que os pioneiros da televisão local não deixam de lado o tom romântico em seus depoimentos. Não que a paixão pelo jornalismo tenha morrido, mas a rotina mais organizada da profissão, talvez, tenha distanciado os profissionais de hoje daqueles que se desdobravam em diversas funções para fazer o conteúdo da TV dos anos 60, 70, acredita. Como quando a caminhonete usada por Geraldo Magela, conforme conta o jornalista, enguiçava, e ele precisava subir o Morro do Cristo para se apresentar ao vivo com os sapatos cheios de barro, conta a jornalista.
Talvez, segundo os autores, a nostalgia esteja hoje ligada, sobretudo, à maneira como os veículos mostram a cidade e, ainda, qual é a Juiz de Fora que representam. Existe sempre um hiato de que o passado da cidade era mais autêntico, de que Juiz de Fora era a Manchester Mineira, a pioneira em vários aspectos, e, hoje, é mais permeável a outras identidades, em detrimento de uma identidade própria. Resta perguntar se, hoje, podemos dizer se a cidade tem uma ‘cara’, e que cara é essa, reflete Cristiano, que ressalta o quanto é difícil representar um lugar de trânsito, de passagem entre as montanhas de Minas e o mar. Nossa identidade é fluida, não estática, completa, assinalando, contudo, o empenho de emissoras extintas, como a TV Visão e a TV Tiradentes, em busca de um conteúdo local e representativo à sociedade.
Identidade local
Sem dúvida, me incomoda um pouco o fato de hoje as TVs locais serem como shopping centers. Iguais em qualquer lugar do mundo, ironiza Cristiano. O professor exemplifica que no Nordeste e no Sul do país é possível encontrar emissoras afiliadas comprometidas com a identidade local, mas destaca a praticidade e o aspecto mais rentável da adoção de uma mesma estética para o Brasil inteiro. Esse modelo centralizado foi imposto pela ditadura militar. Não podemos negar que hoje temos, em relação ao formato, um padrão comparável às melhores televisões do mundo. Entretanto, no conteúdo, podemos caminhar bastante, defende Christina.
O perfil do telespector mudou muito. A internet e outros meios segmentam o poder da transmissão da informação. Mas a sociedade continua se pautando pela televisão. A mídia constrói imagens, preconceitos, valoriza ou desvaloriza locais da cidade. Dita um espaço simbólico, constata Cristiano. Os jornalistas – e não mais somente os historiadores, antropólogos e sociólogos – têm o privilégio de pensar a memória. As pessoas são cada vez mais sujeito de suas memórias, conclui Rodrigues.
MEMÓRIAS POSSÍVEIS – PERSONAGENS DA TELEVISÃO EM JUIZ DE FORA
Lançamento hoje, às 20h
Espaço Manufato
(Rua Fonseca Hermes 57 – Centro)
