
Galeria de Arte Celina funcionou no segundo andar do prédio acima da galeria Pio X, com vista para a Rua Marechal
Autorretrato de Renato Stehling lançado em mostra de 1972
Projetor usado para o Centro de Estudos Cinematográficos
Para serenar a dor, um espaço. Para a saudade, um projeto coletivo. Para o público, um lugar de arte. Para a história, a primeira galeria de Juiz de Fora, que, em dez anos, passou de sala de exposição a arrojado centro cultural, com cinema, teatro, literatura e música. Fundada em dezembro de 1965, passados nove meses e 11 dias da morte de Celina Bracher, seus pais e irmãos decidiram ocupar a sala do patriarca Waldemar com luminárias feitas de latas de Neston e um fôlego sem tamanho para exposições que lançaram grandes nomes das artes locais, mostras de cunho internacional, como a de Di Cavalcanti, além de trazer à cidade espetáculos memoráveis, como “Liberdade, liberdade”, com Paulo Autran e Teresa Rachel, e cursos de repercussão nacional, como o do crítico Pierre Santos. Ao lugar, no segundo andar da Galeria Pio X, a família deu o nome de Galeria de Arte Celina, que no último dia 18 completou 50 anos de fundação, esse ano transformou-se em volumosa tese de doutorado, pode virar livro e tem seus objetos originais redescobertos no acervo do Castelinho dos Bracher.
“Meu pai tinha aquele escritório, que acolhia de tudo um pouco. Lá foi a sede do Partido Social Progressista, servia para reuniões de amigos, empresa de representações, sala de ensaios para a Orquestra Filarmônica, encontros da Sociedade para o Progresso da Ciência e muitas outras atividades para diversas entidades”, conta Paulo Bracher, citando, ainda, a sede da fábrica de louças Louçarte. “A premissa foi a morte da Celina, absolutamente terrível. O primeiro impacto foi de tristeza, tristeza, tristeza. Depois veio a reação, com a oportunidade de se ampliar a própria casa em nível ainda mais público, ainda que nossa residência tenha sido absurdamente pública”, comenta Carlos Bracher, então presidente da galeria, que ainda completa: “Foi uma loucura coletiva e santificada.”
Criar livre de uma geração
Por nove anos – ativa até 1974 e oficialmente fechada em 1975 -, a Galeria de Arte Celina movimentou uma cidade que, até então, se bastava com um salão de artes da Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, em comemoração ao aniversário do município. Segundo a pesquisadora e professora da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Cláudia Matos, a galeria era um espaço de produção e também de resistência, haja visto o momento político em que existiu durante os anos sombrios da ditadura. “Houve um ‘culto’ à liberdade e à criatividade artística em comunidade”, pontua Claudia, autora da tese de doutorado “Galeria de Arte Celina: espaço e ideário cultural de uma geração de artistas e intelectuais em Juiz de Fora (1960/1970)”, defendida esse ano, com projeto de se transformar em livro.
“Lá ficava aberto diariamente. Parecia não ter chave. Me dá até orgulho falar assim. É lindo falar isso, vou até anotar: ‘Parecia não ter chave'”, diz, ao telefone, Carlos, cuja esposa, Fani, também trabalhava no local, como diretora administrativa. A família – posteriormente Carlos e Nívea se afastaram para viver no exterior – e artistas amigos cuidavam do lugar. O financiamento? “Esse é o enigma. E não eram coisinhas, eram grandes produções, com muita qualidade e constância. Acho que o que dava força era a nossa energia. O material humano era a grande diferença”, aposta Carlos. “Acredito que dava mais prejuízo do que renda”, comenta Paulo Bracher.
Com vista para a Rua Marechal Deodoro, a galeria que lançou a compositora Sueli Costa, autora das músicas da peça “O romanceiro da Inconfidência”, com o Teatro Universitário de Juiz de Fora e direção de Nilo Batista, também virou ala do desfile de 1973 da Turunas do Riachuelo e serviu ao Centro de Estudos Cinematográficos de Juiz de Fora. Em entrevista à estudiosa Claudia Matos, Frederico Morais, um dos maiores críticos do país, destaca que a galeria “é pioneira, é fundadora de um espaço múltiplo ou multimídia, em um tempo em que a tecnologia não é como a de hoje”. Dentre os objetos identificados recentemente pela família Bracher no Castelinho, estão obras lançadas em mostras no espaço, o projetor de filmes do lugar, convites, cartazes, recortes de jornais e a curiosa luminária feita com lata de Neston.
Extensão de uma casa, a galeria inaugurou, na cidade, a ideia de espaço cultural. Nívea Bracher, uma das figuras centrais na luta pela preservação e abertura como lugar de arte da antiga fábrica Bernardo Mascarenhas, sonhava em fazer da Celina o embrião do que viria a ser o Museu de Arte da Cidade. Conta Paulo, o irmão, que, certa vez, Nívea viajou a São Paulo e encontrou o mecenas Assis Chateaubriand, e ele lhe prometeu uma doação para a galeria. “Ela não voltou para buscar, e ele acabou morrendo”, lamenta Paulo. A visibilidade do centro cultural era tamanha que trouxe obras de museus paulistas, como o Museu de Arte Contemporânea da USP. A dor, transformada em ação artístico-cultural, ganhou eco e ecoa, ainda, na narrativa da cidade.
Matriz da casa e motriz da galeria
Um mês antes de se mudar, com os pais e os quatro irmãos, para o castelinho de número 300 da Rua Antônio Dias, no Granbery, Celina Bracher organizou uma grande festa. Uma banda tocava no primeiro andar, outra, no segundo. A casa, pequena em seus cômodos, tornou-se grande com uma intelectualidade que entrava e saía a qualquer momento. “Celina era uma espécie de matriz da casa”, recorda-se o irmão Carlos, sobre a segunda filha do casal Waldemar e Hemengarda, nascida em Belo Horizonte, em 1934.
“Celina era muito extrovertida, alegre, conhecia todos e fazia festas e mais festas nessa casa. Inclusive, criou o ‘Saiazar’, em todo o 31 de outubro, para comemorar o aniversário da mamãe, sem dizer que era para isso. Todo mundo se fantasiava de fantasmas, bruxos e outros personagens. Lembro-me do Pimpinella, Sidivan, Ruy Merheb, Ibiapina e muitos outros vestidos a caráter”, recorda-se o irmão Paulo. “Tudo virava um acontecimento inesperado e grandioso se a Celina estivesse por perto”, contou Nívea à pesquisadora Cláudia Matos, para sua tese de doutorado.
Enquanto as amigas trajavam vestidos e saias, Celina, à frente de seu tempo, vestia calças. Figura sempre presente em vernissages, teatros, cinemas e festivais, ela tomou para si, segundo Carlos, a hospitalidade dos pais. “Um encanto. Pessoa de grande bem, dessas que a gente bate o olho e gosta”, diz o pintor. De um humor contagiante, a mulher esbelta, sempre em pose para fotos, era de uma perspicácia sem limites. Aos risos, Paulo conta de um trabalho em comum com a irmã: “Passei a Semana Santa toda na biblioteca, pesquisando nomes de baías e rios, um monte de detalhes. Na véspera, ela resolveu fazer o mapa, só riscando, com formas quadradas, uma coisa genial. Nós dois tiramos dez.”
Afeita às máquinas de costura, Celina arrumava as próprias roupas e produzia apetrechos para a casa. Também pintava, expoente da mesma Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras, de onde saíram os irmãos Décio, Nívea e Carlos. Mas tudo durou muito pouco. Quando enfim entrou para o curso de história da UFJF, foi acometida por dores muito fortes, que logo lhe tiraram a vida aos 31 anos de idade, em março de 1965. Porfiria, apontava, tardiamente, os exames enviados para o Rio de Janeiro. Autora do “Decálogo do bom visitante”, voltado aos que adentravam o Castelinho dos Bracher, Celina descumpriu a nona ordem: “Ao partir desta para melhor, fazê-lo sem se despedir, sem deixar bilhetinhos de agradecimento, enfim, ir-se sem mais aquela.” Na memória dos irmãos, da casa e da cidade, ela permaneceu, muito mais que um simples bilhetinho.

