Livros e mais livros. Sites e mais sites. Discursos e mais discursos. A todo momento, discussões sobre o que e como ensinar as crianças um montão de questões. Ensinar a ser educada, valente, responsável, firme, carinhosa, respeitosa e muitos outros bons adjetivos. Esquecemo-nos, portanto, e recorrentemente, que todo aluno esconde um professor, e vice-versa. Com seus 10 anos, Vithoria Nascimento Mateus é dessas crianças a mostrar a potência da infância, com suas naturalidades e coragens sem tamanho. Há pouco mais de um mês – após cair da laje de casa e nada sofrer -, a menina entrou para a aula de pintura e já retrata paisagens com pleno domínio das luzes e texturas, com uma árvore cheia de folhinhas verdes e outras secas, com uma estrada mais clara ao meio e mais terrosa nas bordas. É difícil, Vithoria? “Não. É facinho.”
Com uma rotina atribulada, ela conta o que tem feito: “Pinto, faço aula de canto e de teclado.” Já de férias, a aluna da Escola Estadual Professor Francisco Faria, em Benfica, não sai da piscina nos fundos da casa. Também gosta de assistir à novelinha infantil “Cúmplices de um resgate”, do SBT, e navegar pela internet, onde posta vídeos com mensagens nas quais mostra suas diárias superações. Nascida sem os dois bracinhos, Vithoria escolhe, dia a dia, ser independente e, principalmente, feliz. “Como, escrevo, arrumo meu quarto. Tudo tranquilo. Nem gosto muito quando os outros ficam querendo me ajudar. Falo que consigo fazer sozinha, que é tranquilo. Para mim, não muda em nada, porque sou igual a todo mundo. Tudo o que as pessoas fazem com as mãos, eu faço com os pés”, diz, sorrindo.
Sem medos
“Ela me ensinou muito”, emociona-se a mãe Rosilene Mateus, 33. “Até mesmo a viver numa outra cidade”, completa ela, que morava em Ewbank da Câmara, mas, por conta do tratamento inicial da filha, no Hospital João Penido, aprendeu a dirigir e logo depois se mudou para Juiz de Fora, para um apartamento no Bairro Santa Cruz. Esse ano, a cuidadora de idosos e o marido, pedreiro, conquistaram a tão sonhada casa própria, no São Francisco de Paula, com direito à tão desejada piscina de Vithoria. “Ela tem algumas dificuldades, mas tudo vai acabando à medida em que ela vai crescendo. Ela vai ao banheiro sozinha, escreve superbem, gosta, até, de passar a marcha no carro. Tive muito medo de que ela não fizesse as coisas do dia a dia. Com cinco meses de gestação, receber essa notícia foi muito difícil, mas, depois que ela nasceu, os meus medos passaram. Ela foi me mostrando as habilidades dela. Quando nem sentava direito, já sabia tirar a blusinha. Tudo é o tempo”, comemora, citando os grandes passos que a menina dá diariamente, como o recente convite que recebeu para integrar uma equipe de natação de um clube tradicional da cidade. “Sempre sonhei em vê-la sorrindo. Hoje vejo isso sempre.”
Palavras de Jesus
Quando o pai Fabio André Mateus, 37, soube da chegada de Vithoria, converteu-se evangélico. “Depois, minha esposa também foi. Tudo aconteceu sem forçar. Nossa família tem evangélicos e católicos e vivemos muito bem, independentemente da religião. Hoje em dia, se cada um respeitasse o outro, seria tudo melhor”, comenta ele. A menina, então, cresceu familiarizada com a Bíblia, no convívio da Casa de Oração Pentecostal Vida Nova, próximo onde mora. “Hoje eu canto e prego. Nesse sábado, vou falar sobre Jonas, lá em Linhares. Prego sobre as histórias da Bíblia”, me explica a garotinha. “Sinto muita alegria de falar de Jesus”, acrescenta, para logo dizer que “nunca fica triste”. Nunca? “Nunca!”
Psicóloga na Holanda
Qual o seu sonho, Vithoria? “Ser psicóloga e viajar para a Holanda”. Por quê? “Um dia, vi o país e fiquei interessada em conhecer. E psicóloga porque converso bastante com as pessoas, gosto de resolver as coisas”, responde ela, que fez terapia aos 4 anos e depois parou. No Natal, deseja para si um tablet, para os outros: “Que as pessoas tenham um feliz 2016 e parem de brigar, de fazer coisas que não prestam”. O pai e a mãe observam, admirados, a pequena com sua desenvoltura e simpatia, prova concreta desses mestres mirins que encontramos na vida. “Ela é um grande exemplo. Ela tem toda a liberdade do mundo para ser feliz, para fazer o que quiser, se superando a cada dia”, aposta Rosilene. “Ela vai longe.”

