Ícone do site Tribuna de Minas

Brilho negro

PUBLICIDADE

Segundo Luiz Fernando Carvalho, diretor de Suburbia – série de oito capítulos exibida às quintas-feiras pela Rede Globo, às 23h50 -, a história da menina Conceição (Débora Nascimento e Erika Januza), que vive no interior de Minas Gerais e vai para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor, é crua e sem firulas, assim como a realidade. Lá, a garota pobre e analfabeta é confundida com uma trombadinha, vai presa e transferida para uma unidade de adolescentes, consegue emprego como doméstica e é estuprada pelo patrão. Para pôr ordem a esse emaranhado de situações, Carvalho conta com o inusitado: um elenco majoritariamente afrodescendente.As gravações marcaram o meu reencontro com o subúrbio e foram uma experiência de transgressão com o que há de pitoresco e caricato das expressões humanas na TV, afirma em entrevista ao portal Terra. Levando-se em conta os séculos de exclusão e a comemoração, hoje, do Dia da Consciência Negra, uma questão merece ser discutida: será que a exibição de Suburbia pode ser considerada uma conquista após tantos anos de luta a favor da igualdade racial?

Dados levantados pelo cineasta Joel Zito Araújo no livro A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira, lançado em 2000, de 98 novelas produzidas pela Rede Globo nas décadas de 1980 e 1990, excluindo as que tiveram a escravidão como tema, em 28 não foi encontrado qualquer personagem afrodescendente, sendo que em apenas 29 o número de atores negros ultrapassava 10% do total do elenco. O enfoque racial da televisão brasileira é resultado da incorporação do mito da democracia racial, da ideologia do branqueamento e do desejo de euro-norte-americanização de suas elites, escreve Araújo.

PUBLICIDADE

Quatro anos depois, quando Da cor do pecado, de João Emanuel Carneiro, foi lançada, a emissora causou estardalhaço, ao divulgar que apresentaria ao público a primeira protagonista negra em uma novela feita predominantemente por brancos. Em 2012, ano em que a presidente Dilma Roussef sanciona a lei que reserva 50% das vagas em universidades federais para alunos de escolas públicas, negros e indígenas, novamente, a Globo surpreende com três produções que abordam a temática afro ou possuem um grande número de negros no elenco: além da série de Carvalho, Salve Jorge, de Glória Peres, e Lado a lado, de Cláudia Lage e João Ximenes Braga.

É a ascensão do negro na sociedade. Ele está presente nas universidades e na política. Há uma mudança, e a TV não pode ficar atrás, tem que refletir, afirma André Santana, jornalista com mestrado em estudos e linguagens pela Universidade Estadual da Bahia, coeditor do portal Correio Nagô e um dos diretores do Instituto Mídia Étnica – organização que realiza projetos com a finalidade de assegurar o direito à comunicação a grupos socialmente excluídos, em especial os afrobrasileiros.A TV vem mudando muito lentamente e ainda não foi tão esperta quanto a publicidade, que já percebeu que o negro é consumidor e quer se ver refletido, destaca o ator Lázaro Ramos, em entrevista ao portal UOL.

Sinais de avanço

Vive-se um momento de convergência de questões econômicas, políticas e sociais, em que negros e negras têm cada vez mais espaço na ficção, de acordo com a jornalista doutoranda em comunicação social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/Universidade Grenoble – Stendhal, e pesquisadora do assunto, Danubia Andrade. Isso é imensamente positivo. Mas o nosso cenário ficcional ainda privilegia os protagonistas brancos de olhos azuis, e os negros e negras são exceção à regra. Além disso, limitar os negros quase que exclusivamente aos personagens pobres, que vivem no subúrbio e em contextos de violência, reforça estigmas que sobrevivem na nossa cultura desde a escravidão. Estamos cansados de representações do traficante, do trabalhador braçal inculto, da sambista, do jogador de futebol, da empregada doméstica que se mete na vida dos patrões, acrescenta. Basta. Negros e negras são uma multiplicidade de seres, desejos e sonhos. Queremos que a ficção possa nos mostrar como somos: a cara do Brasil, desabafa.

PUBLICIDADE

Quando eu vi a menina sofrendo, sendo violentada e caindo nas graças do traficante em ‘Suburbia’, disse: ‘chega, não quero mais ver isso’, e senti a mesma coisa com o primeiro capítulo de ‘Salve Jorge’, que mostrou uma chacina no Morro do Alemão, com tiro para todos os lados. Será que falar do negro é só mostrar isso? questiona Santana. Na visão dele, não se deve negar que o cenário atual representa um avanço na TV brasileira, se forem levados em consideração os mais de 40 anos de telenovela. Entretanto, ainda há muito o que caminhar. Sem dúvida alguma, é algo histórico e que chama a atenção, somente, nos últimos cinco anos, termos alguns protagonistas e galãs negros. Agora, fazendo uma avaliação qualitativa, acho que ainda é uma representação muito aquém do ideal. Temos uma quantidade de mulheres e homens negros muito maior, e esse número é muito reduzido na televisão, observa o jornalista.

PUBLICIDADE

Para fugir de estereótipos e se aproximar mais do estilo documental, Luiz Fernando Carvalho, consagrado com filmes como Lavoura arcaica e minisséries autorais como Hoje é dia de Maria e Pedra do Reino, não poupou recursos verossímeis. Contou com a parceria de Paulo Lins, roteirista negro do filme Cidade de Deus, e lançou mão de um elenco formado somente por atores desconhecidos – a exceção fica por conta do ator Fabrício Boliveira, que já havia estrelado em novelas como A favorita e Sinhá moça.

Se fosse um Lázaro Ramos e uma Camila Pitanga, com certeza, teria mais apelo. Muito mais aceitação, afetaria mais a audiência. É uma pena não ter um elenco conhecido. Sinto falta de que os artistas negros participem da dramaturgia brasileira como qualquer outro. Fica parecendo que não é ficção. Nossos intérpretes são competentes para viver histórias ficcionais. O sucesso da nossa televisão se deve à mocinha, ao amor impossível, aos vilões surreais, e é disso que a gente gosta. Por que na hora de retratar a cultura negra tem que ser bem próximo do real? Vamos criar uma história de um negro em que as pessoas vivem felizes e lutam pelo seu amor, opina. Essa é a justificativa que se usa para somente tocar no assunto da violência. E se a gente reclama eles respondem que é a realidade. Por que quando se fala dos italianos no Brasil, eles ‘ficcionam’?, comenta. Prefiro a representação da novela Lado a lado, que aborda a contribuição que a comunidade negra deu para a civilização brasileira. Tem a criação do samba, da luta pela liberdade, a Revolta da Chibata. Isso levanta mais a nossa autoestima.

PUBLICIDADE

Programação

para refletir

Dentro da programação do Mês da Consciência Negra, hoje, às 14h, o Anfiteatro João Carriço vai abrigar a primeira entrevista do projeto A necessidade de memória – O negro em Juiz de Fora, com Flavinho da Juventude, presidente do Batuque Afro-Brasileiro de Nelson Silva. O objetivo é discutir a importância da cultura negra para a cidade. Às 17h, é a vez de a Associação de Mulheres Negras Chica da Silva promover uma exposição de artesanato, no Mercado Municipal. Finalizando a programação desta terça, a professora Adenilde Petrina Bispo, do Cesu, e o professor Inácio Delgado, da UFJF, comandam a mesa-redonda Juventude e práticas contrahegemônicas, às 19h, no Museu de Crédito Real.

PUBLICIDADE

Até o dia 30, serão realizados mesas-redondas, missa, palestras e shows. Na sexta-feira, além de ser celebrado o Dia da Conscientização da Saúde da População Negra, às 9h, no Parque Halfeld, com atividades como vacinação e aferição de pressão, os destaques são entrega da Medalha Nelson Silva, às 19h, na Câmara Municipal de Juiz de Fora, e o show de Flavinho da Juventude, também às 19h, na Praça da Estação, seguido da apresentação da Velha Guarda da Bateria da Mangueira, com ritmistas, pastoras, passistas e os intérpretes Rody e Tantinho da Mangueira.

Sair da versão mobile