No rastro da década de 1960, vieram, entre outras reviravoltas, Andy Warhol, minimalismo, tecnologia e interesse artístico pelas coisas do mundo. Um pacote batizado de arte contemporânea. Desde então, muitos tentam defini-la, embora ela não pareça aceitar margens fixas. Por vezes, sequer consegue categorizar teatro, dança, cinema, pintura, escultura e literatura. Diante de janelas tão amplas, seria possível encontrar paisagem única para a produção artística atual da cidade? Em que sentido o que se faz por aqui aproxima-se das tentativas de delimitação da contemporaneidade?
Essas são apenas algumas questões que estarão presentes no I Ciclo de Debates Culturais da Tribuna de Minas, apelidado de "Dois prá lá, dois prá cá". Com o intuito de refletir sobre o cenário local, o evento irá reunir artistas e público na videoteca do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) ao longo de quatro segundas consecutivas. O primeiro encontro, marcado para esta segunda, abordará as artes cênicas e contará com a presença de José Luiz Ribeiro, diretor do Grupo Divulgação; Alexandre Guttierrez, diretor do GTMG / Companhia Tralha; Carú Rezende, atriz e produtora da Funalfa; e Sylvia Renhe, coreógrafa e diretora da Companhia Inércia Zero.
A pedido da Tribuna, os convocados adiantaram alguns temas que merecem ganhar o centro do palco. "Acho fundamental uma conversa sobre a falta de espaços para espetáculos. O término da construção do Teatro Paschoal Carlos Magno é um caminho, embora não seja suficiente", comenta Alexandre Guttierrez. O superintendente da Funalfa, Toninho Dutra (convidado para conferir todas as edições), amplia esse apontamento inicial ao acrescentar que os centros culturais públicos, de maneira geral, necessitam rever dinâmica e programação. "Defendo o uso democratizado", ressalta.
Ainda no campo das artes cênicas, outro assunto suscitado pelos participantes é a profissionalização. Guttierrez pondera que tal debate deve estar atrelado às ideias de qualidade e formação. Carú Rezende, atriz e produtora da Funalfa, concorda. "Todos querem caminhar para a profissionalização, mas é preciso ir com calma e compreender a realidade de Juiz de Fora."
A falta de apoio da iniciativa privada intriga a coreógrafa Sylvia Renhe. De acordo com ela, a dança local tem dificuldades em conquistar recursos para se promover e – o que seria ideal – remunerar seus artistas. Nesse caso, Toninho Dutra destaca a escassez de interesse até mesmo quando se trata de renúncia fiscal. "Vários projetos daqui foram aprovados na Lei Estadual, mas poucos conseguiram captação."
Na visão do escritor Iacyr Anderson Freitas, convidado para o encontro sobre literatura no dia 5 de dezembro, as letras locais mereciam ser incentivadas por meio de um festival literário. "Cidades próximas, menores, acolhem eventos de projeção nacional", compara, citando São João Del Rei. Freitas pondera que a situação juiz-forana, em relação à leitura, não é inferior à do restante do país. Entretanto, diz, ainda há consideráveis lacunas. "Em todos os segmentos, é necessário refletir sobre a formação de público."
O artista plástico Petrillo, que estará presente no debate de encerramento, aponta a arte-educação como um instrumento essencial para a criação de espectadores futuros. A partir disso, sugere que os espaços culturais aprimorem suas gestões. José Alberto Pinho Neves, pró-reitor de Cultura da UFJF, atesta que revisões frequentes dos editais são salutares, na medida em que as instituições têm a responsabilidade de fixar os produtos artísticos na memória local. Retornando à abertura da matéria, ele questiona o conceito de vanguarda. "Só o tempo dirá o que é e o que não é representativo para a cidade. Não se pode confundir qualidade com quantidade."
A poeta Carolina Barreto salienta a importância da troca de experiência entre os pares. Para ela, além de se reunir para mostrar textos, os escritores locais devem se abrir para comentários e críticas. "Dessa maneira, a área pode se desenvolver mais." Assim também observa Fred Fonseca, um dos representantes da música no dia 28 de novembro. Conforme complementa ele, é imprescindível que os artistas estejam mais presentes nos diálogos da classe.
Fred, diretor regional da Cooperativa da Música de Minas (Comum), propõe para o "Dois prá lá, dois prá cá" conversas sobre a viabilização da música autoral juiz-forana. "No dia 8 de dezembro, o assunto será discutido na Câmara dos Vereadores. A ideia é que as produções daqui estejam na TV e nas rádios." O músico menciona ainda a reduzida participação dos artistas nas discussões sobre políticas públicas culturais. Nesse ponto, Toninho Dutra ressalta a necessidade de fortalecimento dos fóruns e do Conselho Municipal de Cultura (Concult). "Estamos em um momento singular, de elaboração do Sistema Nacional de Cultural. O envolvimento de todos é essencial."
