
Em “Tatyana”, cada um dos quatro personagens é interpretado por vários bailarinos ao mesmo tempo
Tatyana, que amava Oniéguin, que se intessou por Olga, que é comprometida com Lenski. O amor, ainda que desenhado feito a “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, sempre será fonte inesgotável de inspiração para Deborah Colker. “Gosto de trabalhar aquilo que é importante nas relações humanas”, diz a coreógrafa de voz rouca, justificando a escolha por revisitar o clássico russo “Evguêni Oniéguin”, de Alexander Púshkin. Às vésperas de seguir com “Tatyana”, que traz a própria coreógrafa para a dança, para Bogotá, na Colômbia, a Companhia de Dança Deborah Colker passa por Juiz de Fora nesta sexta, às 21h, no Cine-Theatro Central. “Quando começamos, em 1994, o primeiro teatro em que dançamos foi o Central. A gente tem muito prazer de levar nossos espetáculos para esse teatro lindo, espero ver uma plateia lotada para continuarmos indo aí.”
Dividido em dois atos, o romance narra a história do rico Evguêni Oniéguin. Depois de deixar a cidade e se mudar para o campo, ele conhece o poeta Lenski e sua noiva, Olga Lárina, cuja irmã, Tatyana, apaixona-se perdidamente pelo rapaz. A jovem confessa seu amor, mas é rejeitada e humilhada por Oniéguin. Ele, por sua vez, flerta com Olga durante um baile. Lenski não fica satisfeito com a investida e desafia o jovem para um duelo, porém, acaba morto no embate. Arrependido e mais maduro, Evguêni volta a Petersburgo anos mais tarde, reencontra Tatyana, já casada, e se apaixona por ela. “É uma história de amor, ciúme, coragem, escolha, ética e, principalmente, da revelação do amor, o amor mais profundo. Como Tatyana escreve na carta, ‘esse amor foi decidido nos céus. É a vontade dos astros, das estrelas, de tudo que está além do planeta’. Fomos identificando essas questões no livro e trazendo para o palco”, comenta a bailarina, para logo traçar as mudanças que se passam com sua heroína diante da plateia.
“Ela é uma menina introspectiva, tímida, da aristocracia rural, quase uma selvagem. Quando vai para a cidade, vira uma mulher incrível, uma nobre, embaixatriz de Moscou.” Segundo Deborah, como todo clássico, embora seja uma criação do século XIX, a obra do “pai da literatura russa” é atemporal. As figuras eternizadas na escrita de Púshkin e que se movimentam em cena são um retrato da atualidade. “A Olga é aquela menina que quer, a qualquer custo, ir para a cidade grande, sair na capa da revista, tudo para ela é superficial. Ela está pouco ligando para os valores, só quer grana, poder, quer conhecer tudo, viajar.”
Mais do que a trama, os conflitos e emoções dos quatro personagens se destacam na montagem de Deborah. “Como não tenho a palavra, o que trago são as construções desses personagens, os sentimentos”, diz ela, apontando o fato de que o espectador não encontrará no romance de Púshkin o esperado final feliz. “Essa é uma tragédia, é uma história de amor que acaba mal por um lado, não é uma história de sonho de valsa natalina, é real, de carne, orgânica, uma história feita por gente e para gente.”
Narrativo, sim, porém denso
Com “Tatyana”, Deborah se aproximou da narrativa. Um caminho inverso ao que é percorrido por muitos dos artistas contemporâneos. Sem deixar de ser “denso, atlético, eletrizante e vigoroso”, nas palavras da própria diretora, o espetáculo transita pela dramaturgia. “Eu quis experimentar o contar história, trazer uma poética, construir personagens”, afirma ela, que divide o papel de Púshkin com um bailarino. “No livro, Púshkin se coloca o tempo inteiro, ele se apaixona por aqueles personagens, é passional, é bravo, fica triste. É ele quem vai conduzindo essa história. Acho muito bacana escrever uma história do século XIX que pertence aos dias de hoje, por isso eu quis trazê-lo para o espetáculo.”
As criaturas são múltiplas. O público pode contemplar quatro Tatyanas, quatro Oniéguins, quatro Lenskis e quatro Olgas. Cada personagem é interpretado por vários bailarinos ao mesmo tempo. “Acho que os personagens têm muitas personalidades, muitas facetas. Tem um Oniéguin que é mais arrogante, outro que é mais alto, outro que é mais delicado, outro que é mais romântico. Tem uma Tatyana mais doce, outra mais tímida”, adianta Deborah.
Neta de russos, Deborah buscou no berço e nos escritos de Púshkin a inspiração para sua obra. A coreografia e as performances, contudo, são bem brasileiras. Na trilha sonora, estão o romantismo de Tchaikovski, o modernismo de Stravinsky e as remixagens de Berna Ceppas. No figurino, de Fabia Bercsek, passado e presente se misturam. “A linguagem do movimento é contemporânea, a encenação é contemporânea e brasileira. Ao mesmo tempo, as músicas são 95% russas. O figurino tem um pé nas texturas, nos tecidos, nos bordados clássicos”, explica a coreógrafa, que faz a ambientação rural com uma gigante árvore metálica. “O cenário tem o pé no construtivismo russo”, destaca.
“TATYANA”
21 de agosto, às 21h
Cine-Theatro Central

