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Para lembrar dos dias cinzas

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"O mundo não é feito só de dias bonitos." As fotografias de Fernando Priamo, repórter fotográfico da Tribuna, atestam sua constatação. No dia em que se propôs a captar as imagens que dão vida a "Retratos de Auschwitz. A arte em busca da paz", os campos de concentração nazistas, na Polônia, pareciam propositalmente ainda mais sombrios. "Caía uma garoa fininha, estava muito frio. Tudo era cinza", conta o autor da mostra que integra a programação do projeto "Foto 13", em cartaz no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas.

As 43 fotografias que retratam os campos de concentração de Auschwitz I e II, este chamado de Birkenau, foram selecionadas entre duas mil imagens, captadas em setembro do último ano. Decidir pelo registro em preto e branco foi necessário. "Auschwitz é um lugar que não tem cor, de muita tristeza", lembra Priamo.

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A galeria pintada de preto, o arame farpado através do qual as imagens se revelam, os avisos de alta tensão – reproduzindo com fidelidade de cores as placas nas cercas que aprisionaram milhares de perseguidos pelo regime de Adolf Hitler – são tentativas de trazer à cidade o horror e o silêncio vividos na época. "Mesmo estando preparado psicologicamente, você se pega chorando pela carga de dor e sofrimento do lugar."

As fotografias do trabalho são agregadas em três grupos – "o museu", "documentos" e "evidências de crime". Imagens dos prédios, instalações, celas e crematórios compõem o primeiro grupamento. Em meio às obras, destaca-se uma cela, no Bloco 11, onde os prisioneiros eram abandonados para morrer de fome e sede. Foi neste lugar que morreu o frei Maksymilian Maria Kolbe, em 14 de agosto de 1941. O religioso voluntariou-se para o sacrifício no lugar de um pai, que possuía muitos filhos, punição pela fuga de um prisioneiro do campo. Como o frade franciscano persistia em sobreviver, após duas semanas de confinamento, o homem foi morto por uma injeção de ácido. Em 1982, na presença de Franciszek Gajowniczek, homem cujo lugar tomou e que sobreviveu a Auschwitz, São Maximiliano foi canonizado pelo Papa João Paulo II como mártir da caridade.

Outro local que se destaca entre as imagens é o paredão entre os Blocos 10 e 11 – chamados de "Blocos da Morte" – no qual os prisioneiros eram fuzilados. No Bloco 10, eram realizadas experiências médicas, com os recursos mais cruéis, nos homens e mulheres aprisionados.

Entre os documentos registrados por Priamo, estão listas de nomes, cartões de registros dos presos, pedidos de gás Cyclon B, utilizado para asfixia nas câmaras de gás. Já como evidências do crime apresentam-se fotografias de dezenas de malas de viagem roubadas das pessoas enviadas aos campos de extermínio, centenas de sapatos e óculos, duas toneladas de cabelos raspados de mulheres. "Quem duvida que o nazismo existiu tem nessas evidências provas de que o extermínio foi real", dispara Priamo.

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" Ao empunhar a câmera para registrar tudo, sabia que minhas imagens repetiam algo visto e compartilhado pelos quatro cantos do planeta." Aproximar o horror vivido da realidade local é, segundo o fotógrafo, a principal "missão" da empreitada. "Ainda convivemos com uma violência diária, embora menos escancarada e intensa que aquela dos campos de concentração. A sociedade sofre, ainda que aos poucos, com a violência com mulheres e crianças, com o vício das drogas, com a corrupção."

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As imagens expostas – em formato 40cmx60cm, em papel metalizado com resina – foram doadas à Funalfa, que disponibilizará a mostra itinerante à Secretaria Municipal de Educação. Crianças e adolescentes das escolas públicas da cidade poderão, assim, ter contato não só com a arte fotográfica, mas também com a história.

"Os artistas têm que deixar de estar ‘deitado eternamente em berço esplêndido’, de achar que o mundo é uma eterna arte sem compromisso", afirma Priamo, que credita parte de sua aguçada postura crítica como fotógrafo aos anos dedicados à cobertura diária dos fatos. As palavras "solidariedade", "justiça", "igualdade", "respeito" e "paz", grafadas em branco, dividem espaço com as fotografias na galeria.

 

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RETRATOS DE AUSCHWITZ.

A ARTE EM BUSCA DA PAZ

 

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De terça a sexta, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 21h. Até 13 de setembro

 

CCBM

(Av. Getúlio Vargas 200)

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