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Erudito com atitude

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Rolling Stones, Kiss, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Adele, Bruno Mars, Thaeme e Thiago, Victor e Leo. Nomes da música popular de diversas épocas e variados gêneros surgem no ensaio da Orquestra Experimental do Festival de Música Antiga, no intervalo do ensaio das peças eruditas. Entre um acorde e outro nos instrumentos seculares, os jovens músicos revelam outras influências e referências musicais, mostrando a relação entre os clássicos por definição estilística e os clássicos de seu tempo.

Neste diálogo, há quem pense que a violinista Beatriz Esteves, 16 anos, transite entre extremos. "Gosto de sertanejo e arrocha", diz ela, sem receio de olhares preconceituosos. Segundo Beatriz, muita gente estranha o fato de uma instrumentista clássica ter interesse em gêneros tão populares, argumento que ela rebate sem pestanejar.

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"A música fala um idioma só, com diferentes sotaques e vocabulários. A música erudita me dá uma base mais sólida para compreender qualquer gênero. Já o arrocha e o sertanejo são para descontrair, têm um ritmo animado", conta a fã de Vitor e Leo, Thaeme e Thiago e Jorge e Mateus. Se a dúvida é o que seria arrocha, ela esclarece: "É meio uma mistura de sertanejo com axé, boa de dançar e com letras divertidas", conta, destacando no gênero o cantor Israel Novaes, autor de versos como "Quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro."

Deixando a cadeira e o violoncelo de lado, Mariana Gomes, 15, revela seu apreço pelo estilo que consagrou o banquinho e o violão, a bossa nova, sobretudo da tabelinha entre Tom e Vinícius. Também admiradora de MPB, Mariana destaca Caetano Veloso e Chico Buarque entre seus artistas preferidos. "O gênero permite um envolvimento com as letras, uma outra forma de se relacionar com a música, e a erudita tem uma relação expressiva mais forte do músico com o instrumento", opina a adolescente, apelidada pela mãe, flautista e pianista popular, de "Garota de Ipanema", reforçando os laços entre as duas facetas da música.

 

‘É tudo música’

 Para o violinista Moisés Amâncio, a dicotomia entre clássico e popular é uma relação literalmente física. Usuário de uma prótese por conta de uma severa perda auditiva, o jovem explica a diferença sensorial entre as duas vertentes. "O popular possui mais percussões, um ritmo batido mais marcado, que é mais facilmente perceptível para mim. Já o erudito possui compassos mais sutis e, às vezes, mais rápidos, mas é só saber interpretar, que as partituras se transformam em música", pondera o rapaz, fã de grandes ídolos pop da atualidade, como Adele e Bruno Mars.

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Também na onda dos astros internacionais, Maria Francisca e Paula Barci, ambas de 16, não negam a veia rock’n’roll. Com camisas das bandas favoritas, as duas falam sobre suas preferências musicais quando não estão com violinos em punho. "O que mais gosto são as guitarras e baixos, que dão um ritmo por si só. A música erudita tem que ser mais calma, mais sentida, enquanto o rock pode ser mais extravasado, mais agressivo", observa Paula, que curte Red Hot Chilli Peppers, Pink Floyd, Queen, Beatles e Iron Maiden.

Trazendo o Kiss no peito, e posando com a "mão chifrada" dos roqueiros, Maria Francisca completa: "Uma coisa complementa a outra. Posso levar a emoção do rock para a orquestra e a precisão da orquestra para o rock. É tudo música, o que importa é ser boa". Engrossando o coro, o jovem violoncelista e fã de Stones Pedro Gabriel Lima de apenas 12 anos quebra qualquer tabu entre concertos e shows, bandas e orquestra, clássico e popular. "Dá para tocar música erudita com atitude rock’n’roll, ou de qualquer gênero que você goste."

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Na visão da regente da orquestra, Nerisa Aldrighi, que confessa sua queda por jazz de raiz, choro e samba, a diversidade de experiências musicais é válida e enriquecedora. "O popular pode emprestar ao erudito sua potencialidade de improvisação, de tirar sons de ouvido, de decorar técnicas. Já o clássico pode oferecer ao popular a disciplina, a precisão e o perfeccionismo técnico para desempenhos cada vez melhores.

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