Passados mais de 110 anos desde sua criação, o Hospital Colônia de Barbacena tem suas portas abertas para todo o Brasil. Detalhes dos horrores cometidos em nome da razão estão no livro "Holocausto brasileiro", que a repórter especial da Tribuna Daniela Arbex autografa hoje, em lançamento nacional, das 19h às 22h, na livraria Saraiva, em Juiz de Fora. O livro-reportagem da jornalista surpreendeu até mesmo a experiente Geração Editorial, a qual publicou a obra. "Em três dias, os livros já haviam esgotado. Isso é inédito na história da editora", comenta o editor Paulo Schmidt, ressaltando a preparação de uma segunda edição da obra.
Em tempos de novas caras pintadas em passeatas, nas quais milhares de brasileiros saem às ruas para protestar contra a atual situação política e econômica do país, Schmidt aponta o desejo de os cidadãos reconhecerem a própria história como uma das justificativas para o sucesso da publicação. "Antes mesmo de o ‘Holocausto brasileiro’ sair, houve muito interesse. Hoje o brasileiro quer se conhecer. Há uma tentativa de saber e entender o que acontece para fazer com que as coisas não continuem ruins", sugere.
Desde sua veiculação no YouTube, em 1º de junho, o book trailer da obra já teve mais de 20 mil acessos, o que configura uma média de pouco mais de mil exibições diárias. Para Daniela, apesar de toda a repercussão, o que mais lhe satisfaz é o fato de tornar pública uma história de tantas dores. "O jornalista sofre por não conseguir colocar no papel tudo que apurou. Ele sempre fica com a sensação de que podia ter feito melhor. Foi um sofrimento, porque as histórias mereciam ser bem contadas. Senti muitas dificuldades. Escrever é um sofrimento, não é puro prazer", relata, bastante emocionada, a jornalista que já foi contemplada com três prêmios Esso de Jornalismo, um deles destinado à série de matérias sobre o Colônia, publicada na Tribuna em 2011.
Serviço à história
Sofrendo de superlotação, entre as décadas de 1930 e 1980, o Colônia se tornou o retrato mais cruel do ideário de limpeza social no século XX no Brasil. Enviados de trem ao maior hospício do país, localizado na Cidade das Rosas (e também da Loucura), na Zona da Mata mineira, os pacientes eram tratados como bichos, muitos viviam nus, alimentavam-se com insossas e sujas comidas, além de receberem tratamentos cruéis, como os eletrochoques e outras brutalidades. "Ninguém orquestrou isso, mas todos foram deixando com que as coisas acontecessem. O Estado se omitiu, as pessoas que trabalhavam lá dentro se omitiram, as famílias se omitiram. Aquilo foi se tornando um crime de lesa humanidade. Tenho certeza de que, quando o Colônia foi criado, não era essa a intenção, mas seu caráter foi desviado desde muito cedo", diagnostica Daniela.
"É um episódio do Brasil contemporâneo da maior importância. É uma história que não teve vencedores, que a Daniela resgatou, prestando um serviço enorme à cidadania", avalia Schmidt, destacando as altas doses de coragem tanto da autora quanto da editora para levar a público uma tragédia que atravessou gerações. "Durante anos e décadas, todas as pessoas que tentaram denunciar eram caladas. Havia um interesse tão grande para que esse episódio não viesse à tona que todas as vozes foram silenciadas", completa.
Com narrativa indignada, Daniela Arbex triunfa por não reduzir seu trabalho às feridas formadas pelo Colônia. Nas 256 páginas do livro, ela revela a superação de sobreviventes e a força de um país que luta para humanizar o tratamento psiquiátrico no país. "É urgente refletir sobre os erros do passado, para que não sejam esquecidos e não sejam novamente cometidos. O ser humano tem uma grande capacidade de se superar. O livro também mostra essa esperança", constata uma das mais premiadas jornalistas do país, que fez questão de que a primeira sessão de autógrafos fosse em casa. Além de Juiz de Fora, "Holocausto brasileiro" será lançado em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, e uma grande exposição com as imagens que ilustram o livro, feitas por Luiz Alfredo, em 1961, no auge dos horrores, está sendo preparada e deverá excursionar pelo país.
Lançamento de Holocausto Brasileiro
Das 19h às 22h
Livraria Saraiva – Independência Shopping
(Av. Itamar Franco 3.600)
