Aos 8 anos, sentada em uma das poltronas do Theatro Municipal carioca, Maria do Carmo Carriço fitava o palco. Como podiam aquelas mulheres voar? Foi assim que a artista, hoje com 78, soube da existência do balé. Ali, protegida pelo prédio centenário, ainda incrédula e espantada, fez uma promessa para si mesma: seria bailarina para o resto da vida. A história de Maria do Carmo confunde-se com a história da dança em Juiz de Fora. Foi ela que, em 1952, trouxe a arte dos movimentos para a cidade, oferecendo as primeiras aulas na Escola Normal. Vou morrer vibrando pelo balé, diz a eterna professora durante conversa em seu apartamento nas vésperas do Dia Internacional da Dança, comemorado amanhã.
Antes de instalar sua academia Ana Pavlova no Centro Cultural Pró-Música, Maria do Carmo passou pelo Conservatório Brasileiro de Música e por diversos endereços. Ela conta que não havia espaço para a arte por aqui. Não tínhamos sala para ensaio. Precisei recorrer a auditórios de instituições. Durante 25 anos, como acrescenta a artista, ela lecionou sozinha na cidade. Dava aulas no palco do Teatro Pró-Música, longe da presença dos espelhos. As alunas iam se acostumando com o ambiente de apresentação. Indagada algumas vezes sobre o lugar inusitado, afirmava: é assim que se aprende. A disciplina, aliás, sempre direcionou o trabalho desenvolvido pela carioca, conhecida por usar uma vara de madeira para acertar a postura das aprendizes.
Valéria Carvalho e Waldea Couto, que hoje comandam a escola fundada por Maria do Carmo há quase 60 anos, confirmam a rigorosidade da professora. A primeira vez que fiz duas piruetas seguidas foi com a ajuda de um ’empurrãozinho’ dela, brinca Valéria. Outra que guarda na memória importantes lições da artista pioneira é Lucília Teixeira, integrante de uma das primeiras turmas. Ela sabia até onde nós podíamos ir. Segundo Maria do Carmo, o que ela repassava às jovens eram ensinamentos recebidos de seu professor tcheco Vaslav Veltchek, com quem conviveu na Escola do Theatro Municipal do Rio e no Conjunto Coreográfico Brasileiro, ligado à União das Operárias de Jesus. Aliás, Clotilde Guimarães, que na época presidia a instituição, foi quem criou a carioca, órfã de mãe aos 8 anos. Eu era muito pobre, não tinha nem o que comer, mas queria tocar piano, lembra.
Pedido depois do plié
Aos 20 anos, Maria do Carmo decidiu vir para Juiz de Fora. Já havia estudado história da arte, balé clássico, moderno e espanhol, além de ter passado por várias capitais sul-americanas. Convidada a dirigir o primeiro curso local, logo preparou uma apresentação para ser levada ao Cine-Theatro Central. Essa foi a única vez que a artista esteve em cena por aqui. Naquela noite, Manoel Gonçalves Carriço a pediu em casamento. Nós acabávamos de nos conhecer, e eu disse sim. Por sugestão dele, não dançou mais. Ainda assim, o balé permaneceu na rotina da professora, que passou a dedicar todo o seu tempo às alunas.
Muitas delas saíram e montaram suas próprias academias, o que fez a dança se expandir pela cidade. Em 1991, Valéria Carvalho e Waldea Couto assumiram a Escola de Ballet Ana Pavlova. Fico feliz e satisfeita com a continuidade que elas dão ao meu trabalho, diz a pioneira, reivindicando a criação de um corpo de baile municipal. Para ela, embora a dança local tenha evoluído desde sua chegada, muito ainda precisa ser realizado. Quanto a mim, sei que venci. Segundo Lucília Teixeira, o grupo capitaneado por Maria do Carmo foi convidado para inúmeros eventos daqui e de outros lugares, como Brasília, Ouro Preto e São João del Rei.
A busca pela autenticidade
Segundo a diretora da Ekilíbrio Cia. de Dança, Christine Sílmor, foi na década de 1990 que Juiz de Fora descobriu a dança contemporânea. Enquanto Christine trouxe a questão da inclusão, grupos como Corpus, Cos’é e Inércia Zero começaram a pinçar outras inovações. Acho que a dança juiz-forana ainda não tem uma ‘cara’ própria, embora muitos estejam se atentando para isso.
A diretora também ressalta o aparecimento do gênero na grade curricular das escolas municipais. De acordo com ela, isso aconteceu na segunda metade dos anos 90. Foi uma conquista que promoveu resultados ligados tanto à cidadania quanto à arte, assegura, enfatizando a importância de se resgatar o passado. Só assim podemos planejar as próximas construções, promovendo a continuidade e evitando constantes recomeços.
