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Gal inova em ‘Recanto ao vivo’ com funk e eletrônico

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Um breu. E nos primeiros acordes uma Gal sem inteirezas, sem completudes, sem revelações. Uma cantora despida nas pistas que não entregam todo o seu rosto. Gal, total no minimalismo de uma luz pontual. Mesmo que não dissesse, após cantar a animada versão de "Divino maravilhoso", desde o início do DVD e CD "Recanto Gal ao vivo", fica a certeza de que há uma outra, claramente nova, intérprete. Se os cabelos e a voz, ainda vigorosa nos momentos em que simula riffs de guitarra, continuam os mesmos, os gestos, agora, se mostram contidos, sóbrios como as roupas que cobrem todo o corpo, velando a sensualidade nata. "Desde o começo de minha carreira, eu nunca me esforcei para ser sensual. Isso é muito puro, muito genuíno da minha personalidade. É o meu jeito", comenta a cantora.

Recém-saído do forno, o trabalho que leva ao palco o último disco de inéditas de Gal destoa das cores fortes do Tropicalismo, mas afina-se com as intenções de Caetano, Gil, Bethânia e da própria Gal no movimento que previa rupturas, sob a influência da vanguarda e do popular. "Ver a Gal de hoje é ver a reafirmação de tudo que ela foi na história. Realmente a gente conquistou um negócio bem complexo", reflete Caetano no documentário presente nos extras do DVD, produzido e dirigido ao lado do filho, Moreno Veloso.

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Entre batidas eletrônicas e guitarras distorcidas, versos como "Não, o autotune não basta pra fazer o canto andar", de "Autotune autoerótico", ou frases mais dolorosas como "Só deus sabe o duro que eu dei/ Mulher, aos prazeres, futuro/ eu me guardei", de "Recanto escuro".

Com os fortes acentos do sotaque baiano, a cantora, que se transferiu para São Paulo no ano passado e logo incorporou o clima da grande metrópole ao novo trabalho, comentou, entrevista à Tribuna, sobre a fase atual, que, apesar de aparentemente nova, é parte da revolução que sempre perseguiu: "Desde lá atrás eu tinha uma tendência a gostar do desafio das coisas novas. Para mim, a estranheza, a novidade não eram um empecilho. Eram um dado que me fazia apaixonar".

 

Tribuna – A crítica e o público apontam o disco "Recanto" como uma renovação em sua carreira. Você se sente renovada?

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Gal Costa – É uma renovação sim. É totalmente coerente com a minha história, principalmente o show. Trabalhei com música eletrônica nos anos 1960, com uma estética diferente, mas com uma pegada roqueira. Na verdade é um resgate. O show, especificamente, é isso. Uma tentativa de sintetizar toda a minha trajetória. As Gals. As diferentes Gals, dos momentos de rompimentos, que foram muitos na minha carreira.

DISCO "RECANTO"

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 – Você acredita que a grande novidade agora são as composições do Caetano e como elas dialogam perfeitamente com seu momento atual e com seu percurso musical?

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– Acho sim. A novidade está na composição, na estética musical pensada por Caetano para mim. É um disco que se diferencia do que já se fez e se faz atualmente no Brasil.

 PARCERIA COM CAETANO

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– Esse frescor tem a ver com a maternidade?

– Tem a ver, também, com a maternidade. A maternidade rejuvenesce. Você reaprende, se renova. Mas essa tendência de gostar de enfrentar uma coisa nova, uma coisa desafiadora é muito da minha personalidade. Eu gosto disso.

 MATERNIDADE

 

– E existe algum peso da idade? "Tudo dói"?

– Não! Eu gosto dessa música não pelo que ela fala, que é bonito também – não que eu me identifique com o texto, tudo dói, ou que eu tenha problemas com isso -, mas eu gosto da sonoridade da música, da economia, da poesia, do som das palavras, com a dissonância harmônica que tem a música no seu todo. Ela representa o universo "joãogilbertiniano". Falei isso para Caetano sem ele nunca ter comentado comigo. Ele também acha isso. Por isso que me atrai. Por isso que digo que gosto mais da música, não porque ela fale que tudo dói, tudo dói, tudo dói, de que o fato de envelhecer seja uma coisa ruim. Não é ruim. Você tem que aprender a lidar com o tempo, com as coisas que ele proporciona. Eu sempre digo – e é verdade: tenho uma cabeça que não combina com minha idade cronológica. Sou uma pessoa jovial, faço ginástica, me cuido. A idade me trouxe coisas boas como a tranquilidade, a serenidade, a maturidade. Não que a idade seja um peso para mim, não é!

MÚSICA "TUDO DÓI"

 

– Tanto o Moreno Veloso quanto o Kassin, o Domenico Lancellotti e o Pedro Baby, que fazem parte de seu disco, também estão envolvidos na nova fase musical do Caetano e, agora, da Baby Consuelo. Seriam eles os grandes responsáveis por esse movimento de renovação na música brasileira?

– De certa forma eles podem até contribuir, mas uma coisa acontece: os jovens hoje se inspiram muito no tropicalismo, em tudo que minha geração fez. Para assumir esse disco, que é bonito, que é lindo, é preciso ser corajoso. É disso que eu gosto. Lá atrás, ainda uma menina, quando ouvi o João Gilberto pela primeira vez, aquela voz estranha, aquele violão estranho e dissonante, me atraiu de uma maneira radical. Fiquei totalmente vidrada e apaixonada e ficava mudando o dial do rádio para ouvir João cantando "Chega de saudade". Aquilo me transformou completamente. Passei a ouvi-lo com uma paixão e reaprendi a cantar e ouvir música.

JOÃO GILBERTO

 

TROPICALISMO 

 

– De todas as faixas de "Recanto", a música "Neguinho" tem um discurso bastante incisivo. Você tem essa preocupação em trazer o social para dentro da sua música?

– Não necessariamente. De uma maneira política e atuante, acho que não. Meu lado mais revolucionário é o da estética, da coragem de fazer e defender coisas novas.

 

– Em "Um dia de domingo", você faz uma espécie de imitação da voz de Tim Maia. De onde saiu essa decisão?

– Saiu de Caetano. Ele me propôs cantar essa canção e me perguntou se eu conseguiria imitar o Tim Maia. Aí eu disse: me dá um tempo que vou ver. Ouvi a gravação original nossa e comecei a perceber que eu conseguia usar os graves do Tim. Fomos ensaiando e foi nascendo…

 

– E quando você fala desse nascimento, parece com a ideia que você cita no documentário, de que esse show é uma grande entidade. De onde surge esse envolvimento absurdo?

– Entidade eu falo porque no candomblé a gente costuma falar assim. Sou ligada ao Gantois. O "Recanto" tem uma personalidade, é uma entidade que são todas as Gals ali, onde é sintetizada, naquele momento, através do meu canto, da minha presença no palco. "Recanto" é a soma disso. Como eu dizia que Doces Bárbaros é uma entidade, que são quatro personalidades diferentes. No show, a Gal que está ali é a soma de todas as Gals de todos esses anos.

 

– Essa identificação com "Recanto" se deve às canções como "Miami maculelê", "Autotune autoerótico"? Isso foi intencional?

– Totalmente. "Miami" é um funk carioca que se mistura com um ritmo da Bahia. Foi intencional para me trazer de volta. Eu nunca cantei funk, é uma novidade. A melodia é bem pensada para minha voz.

 

– Algumas cantoras jovens, em especial a paulista Tulipa Ruiz, dizem ser muito influenciadas pelo seu trabalho. Você se enxerga na produção dessa nova geração?

– Me enxergo sim. Sou inspiração para muitas delas. E isso já vem lá de trás, com a Marisa e agora com essas cantoras da nova geração, que se espelham no meu trabalho e tem relação com o tropicalismo. Bebem nessa fonte. Assim como a gente bebeu na fonte dos grandes músicos e cantores e compositores do passado da nossa geração. E assim por diante. A vida é assim.

NOVAS CANTORAS

 

– Na sua fala, me parece haver em você um orgulho muito grande dessa trajetória. Como trabalha isso?

– (Risos) Não sei se orgulho é a palavra exata. É gratificante saber que você tem uma carreira rica, grande, que se perpetua e tem se perpetuado até hoje. Não só minha, mas a carreira de minha geração, que tem atuado de uma maneira muito enérgica e vital. Não é que eu me orgulho. É prazer, mesmo. Entende?!

CARREIRA

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