Miguel Pereira (RJ) – Ao longo do século XIX, o cultivo e o comércio do café levaram à região Sul fluminense inúmeros produtores descrentes no ouro e confiantes no grão negro. Numa ascensão rápida, esses indivíduos fixaram residência e constituíram famílias, dando o pontapé inicial para uma história luxuosa e de bons perfumes. Já distante das glórias cafeeiras, entre as décadas de 1940 e 1980, artistas brasileiros, como Francisco Alves, Luiz Gonzaga, Raul Seixas e Tom Jobim, descobriram a região, em especial a pequena Miguel Pereira, que chamavam de Suíça brasileira. Impulsionado por imigrantes e empresários cansados do ritmo acelerado das grandes capitais brasileiras, o Vale do Café volta à cena turística, oferecendo um cardápio variado de atrativos. Da boa culinária aos casarões históricos, tudo embalado pela tranquilidade das paisagens montanhosas e pelo clima rural, o lugar pode ser um interessante destino na Semana Santa.
Italiano nascido na Calábria, Alessandro Bova conheceu toda a América do Sul antes de se instalar, por definitivo, na Fazenda do Salto, no município de Engenheiro Paulo de Frontin. À frente do bistrô Empório Sacra Família, um misto de restaurante e butique com ares de Almodóvar, ele produz um delicioso limoncello, com limões sicilianos que cultiva em casa, diversos tipos de massas e pães. Aqui me recordo de minha infância, emociona-se em forte sotaque italiano. Lugar de muitas pronúncias, a Fazenda do Alemão também denúncia a pluralidade de culturas do vale. Sob o comando do casal Manfred e Anne Maria Bergmann, ele alemão e ela sul-africana, a fazenda reúne um restaurante com decoração e receitas referentes aos dois países e uma pequena fábrica de embutidos. Chegamos aqui e não havia nada. Construímos tudo. É um paraíso, sem nada de barulho, conta a mulher. Para os menos afeitos ao exotismo na cozinha, o restaurante Summer Garden, da chef Diana Carvalho, é uma boa pedida, apresentando um menu sofisticado, mas sem exageros. Para sentir o gosto de interior, o famoso Doces Carmen produz mais de 30 especiarias feitas com frutas típicas, cristalizadas ou em compotas.
A ostentação é evidente, mesmo aos poucos entendidos em história. A beleza da Casa da Hera, museu situado em Vassouras, pode ser percebida já em sua fachada, coberta pela vegetação que lhe dá nome. Construída no século XIX, a casa pertencia à família Teixeira Leite, tradicional no comércio de café da cidade. Com 22 cômodos, 69 janelas, paredes revestidas por suntuosos papéis e exuberantes espaços festivos, a residência desperta curiosidade pelas referências à uma das filhas do casal, Eufrásia, mulher vanguardista em decotes e cumprimento do cabelo, além de talentosa negociante, que conseguiu dar continuidade ao trabalho da família e ainda multiplicar os resultados.
Bem mais simples em seu resgate à memória, a vizinha cidade de Conservatória tem na música sua vocação museal. Serestas se espalham por ruas – que não são muitas! – e casas – cada uma com um nome de uma canção romântica. Museus de personagens míticos do Brasil, como Vicente Celestino e Guilherme de Brito, ilustram o município, que luta para não deixar extinguir a tradição das composições que exaltam o amor. Isso aqui é uma utopia. Você anda pelas ruas tocando músicas de amor, aponta Olímpia Neiva, integrante do mais antigo grupo de seresta do lugar.
Formado por 15 municípios, o Vale do Café oferece uma variedade de hotéis, dos mais baratos aos mais estrelados. Interessante pouso para os que gostam do silêncio do interior, Miguel Pereira, além do terceiro melhor clima do mundo – alcunha nunca comprovada, mas amplamente divulgada -, fica muito bem localizado em relação aos municípios da redondeza. À cerca de 120 km da capital fluminense, em estrada de fácil acesso, a cidade possui dois acessos para quem sai de Juiz de Fora, ambos com pouco mais de 130 km: seguindo pela BR-040 rumo a Petrópolis e entrando em Araras, numa rota de bonita paisagem, mas de via bastante íngreme, ou, seguindo rumo à Comendador Levy Gasparian, passando por Paraíba do Sul e Paty do Alferes, em estradas bem cuidadas e sinalizadas.
* O repórter viajou a convite da Pousada Yledaré, que promove o roteiro Viagem cultural e gastronômica ao Vale do Café
