Ícone do site Tribuna de Minas

Ecoando pelo planeta

PUBLICIDADE

"O grito", pintura sobre tela do artista norueguês Edvard Munch, é uma das obras mais importantes do expressionismo, tão icônica que é quase possível ouvir um brado de desespero e angústia ao contemplá-la. Existem os gritos de guerra, paz, independência e gol. Há, ainda, quem levante a voz por medo, alegria, raiva, socorro e tantas outras emoções. Em qualquer situação, gritar é o ato de uma expressão que não pode ser contida, e que reverbera a longas distâncias de onde foi proferido. Foi assim com o Grito Rock, que começa sua programação juiz-forana hoje e vai até o dia 24, para ser retomada com outras atrações de 7 a 10 de março.

Criado em 2003 em Cuiabá, o evento surgiu como alternativa ao carnaval, idealizado pelo coletivo Espaço Cubo. O formato colaborativo vingou e o "berro" ecoou rapidamente pela América Latina, chegando a mais de 300 cidades, em 30 países do mundo inteiro em 2013. Atualmente, o Circuito Fora do Eixo coordena a realização do festival, orientando – em rede e para todo o Brasil – as centenas de produtores locais envolvidos na empreitada. Em Juiz de Fora, quem tomou as rédeas do projeto desde sua estreia, em 2010, foi o Coletivo Sem Paredes.

PUBLICIDADE

Para Marcelo Castro, músico e integrante do coletivo da cidade, o crescimento do festival em escala global influencia e é influenciado pela cena da região. "O Grito Rock emerge das expressões artístico-cultural locais, então sua força vem muito do que já é feito nas cidades. Por outro lado, ele fortalece este cenário ao dar um espaço importante para os artistas que participam dele."

Prova da solidez do festival em Juiz de Fora – e, por consequência, do panorama artístico da cidade – é o fato de 851 bandas de todo país terem se inscrito para a edição daqui, das quais somente seis puderam ser selecionadas. "Cada município faz sua curadoria, que costuma ser baseada em atrações que têm a ver com o cenário cultural local ou que já deram certo em outras apresentações. Também tentamos sempre valorizar artistas da cidade e da região e buscar novos nomes que possam ter força localmente", conta Marcelo.

Na abertura dos trabalhos, hoje à noite, o músico fará discotecagem no Bar da Fábrica, ao lado de Gramboy Freire, a partir das 21h, mesclando a vertente mais dançante da música brasileira e a soul music ao ska jamaicano dos anos 1970. No mesmo dia e local, os alemães da Yellow Cap farão o primeiro show do Grito na Manchester Mineira, depois de terem participado de edições em diversas cidades do país, com som que vai do reggae ao ska, incluindo elementos da música latina, hip hop e do soul.

 

PUBLICIDADE

Diversidade de sons e expressões

Segundo o guitarrista da Yellow Cap, Christoph Ernst, o grupo está "fascinado" com a diversidade musical do festival, sobretudo na abertura da plateia a diferentes estilos em um mesmo show. "A ideia de ter um festival amplamente difundido em diferentes cidades e países ao mesmo tempo pode contribuir muito para impulsionar a internacionalização da cultura e da comunicação com o auxílio da internet, em um processo que inclui as formas artísticas. Temos muito orgulho em ser parte deste movimento."

Levando a pluralidade para além das escolhas musicais, o Grito Rock integra diversas manifestações artístico-culturais. Na quinta-feira, o Cineclube Bordel Sem Paredes exibe, às 19h, no CCBM, os curtas "Movirtualizar-te", de Cláudia Rangel, Guilherme Landim, René Loui e Luciana Maia; "On the hood", da marca Custom Skate, que abre a exposição "Return for life" no mesmo dia; "Em consideração", de André Viana; um vídeo de skate independente produzido por "Azimagi"; "Dona Sonia pediu uma arma para seu vizinho Alcides", de Gabriel Martins, e "Compro ouro", de Rodrigo Souza.

PUBLICIDADE

De sexta a domingo, o festival terá também mercado de pulgas, contação de histórias, performances artístico-poéticas, matinê e o trabalho de tatuadores. Um dos destaques é a presença do artista visual Stephan Doitschinoff, que dará uma palestra sobre ilustração na sexta e uma oficina do mesmo tema no sábado, ambas no CCBM.

Para Doitschinoff, a integração entre as artes no Grito é determinante para que haja maior acesso às diversas facetas da cultura. "A palavra ‘rock’ no Grito Rock não vem do estilo musical, mas sim da postura de romper os limites, se levantar contra o conservadorismo, tradicionalmente encabeçada por poetas e pintores da antiguidade, muito antes do rock existir. Acho que a postura do festival de colocar artistas em turnê para criar obras e fazer palestras pode ser extremamente importante para cativar o grande público, aquele que não costuma ir a museus e galerias, que não tem formação artística."

 

PUBLICIDADE

Para o músico juiz-forano Pedro Salim, integrante da Aguardela, também uma das atrações, participar do Grito Rock é praticamente obrigatório para bandas independentes. "Não participar é não estar inserido em um movimento que representa muita coisa do que está acontecendo no Brasil e no mundo. Esse estilo de evento em rede, que tenta criar um sistema de divulgação, circulação e estruturação de shows, está acontecendo em vários lugares, e é muito interessante para as bandas que estão começando, como nós." Pedro e os outros integrantes da Aguardela se apresentam no Muzik, no sábado, a partir das 23h, ao lado dos cariocas do Autoramas e dos dinamarqueses da Columbian Neckties. Já na sexta, o som será no CCBM e fica por conta da Galanga, de Outro Preto, e dos juiz-foranos da Ou Sim, que bebe em fontes da poesia e da MPB dos anos 1970, Clube da Esquina, Tropicalismo, entre outros.

Na visão de muitos artistas, o Grito representa uma chance de vitória da música independente contra as grandes gravadoras e os nomes de maior alcance vinculados a elas, batalha que não é restrita ao Brasil. "Acontece na Dinamarca e na Europa toda, é preciso acreditar no trabalho que se faz e não se importar com isso", opinam os músicos da Columbian Neckties. "Para vencer o mainstream, a única chance é partir para o ‘faça você mesmo’, correr atrás por esforço próprio. Acho que o Grito Rock é um bom exemplo disso", completa Christoph, do Yellow Cap.

Marcelo Castro acredita que o fortalecimento da cena independente vem da forma como o festival é estruturado. " Neste formato colaborativo prevalece o melhor de cada um e o de todos. Por isso, contamos com diferentes olhares, diferentes opiniões, diferentes estratégias para dar cada vez mais visibilidade a esta pluralidade de expressões." Integrante da "Ou sim", André Monteiro sintetiza bem as metas lançadas e as conquistas alcançadas pelo evento ao longo dos anos: "Produzir coletividades com singularidades, produzir comunhão para além de um coro uníssono, homogeneizado e homogeneizador, produzir, enfim, uma comunhão capaz de abraçar todos os gritos dos que, de algum modo, necessitam gritar e gritam."

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile