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Desfiles cheios de curvas

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Engarrafamentos: trânsito segue em pista única no trecho da passarela
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Engarrafamentos: trânsito segue em pista única no trecho da passarela

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Unidos do Ladeira espera terminar os preparativos em dez dias, e Mocidade Alegre (detalhe) ainda trabalha nas alegorias

Em menos de uma hora, todo o trabalho é posto à prova. E o júri considera apenas o que passa diante deles. Não está em jogo o amor dos que se dedicam ao carnaval, mas o que conseguiram fazer com essa paixão. Para alguns, resta apenas o cansaço de noites mal dormidas e as contas que precisam ser fechadas depois da Quarta-Feira de Cinzas. O que está por trás dos desfiles, salvo exceções, não é sinônimo de glamour. Na segunda reportagem da série “Nos bastidores da folia”, os preparativos das agremiações demonstram não apenas a crise que essas instituições enfrentam, mas o próprio enfraquecimento da ideia de comunidade, tão relacionada a esses espaços.

Enquanto o envolvimento de foliões é muito aquém do esperado nas quadras da cidade, os dois dias de desfiles criam impactos que duram quase um mês, com a montagem e desmontagem da Passarela do Samba na Avenida Brasil, alterando o fluxo de veículos e, nos dias de desfiles, obrigando motoristas a seguirem caminhos alternativos por conta da interdição total. Segundo o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, retirar os desfiles do Centro já foi um avanço, mas o novo endereço também exige atenção. “A cidade já enxergou que não cabe mais um carnaval na Avenida Rio Branco. Se tentássemos montar um módulo de arquibancada lá, já criaria um transtorno incomensurável. Hoje, o lugar encontrado para o carnaval também já é um problema para o trânsito. A cidade é antiga, com ruas estreitas, sem crescimento de vias, e não vemos a possibilidade de desvios para outros lugares”, comenta.

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Para a Juiz de Fora que há mais de 30 tenta finalizar as obras de seu Teatro Paschoal Carlos Magno, a construção de um sambódromo é projeto irreal. “A cidade tem outras carências. Particularmente, defendo a possibilidade de um espaço multiuso, que possa ser usado para outras coisas que não apenas um evento de dois dias. Não temos um carnaval que justifique isso”, aponta Toninho. Segundo o pesquisador André Diniz, autor de “Na passarela do samba: o esplendor das escolas em trinta anos de desfile no Sambódromo”, no Rio de Janeiro “foi feita uma pressão vinda de baixo, envolvendo a comunidade, uma teia social muito grande, e culminando no espaço chamado Sambódromo”. E é, justamente, essa força coletiva que tem se mostrado cada vez mais enfraquecida por aqui.

Com o pires na mão

Com uma angústia a transparecer na voz, a diretora de carnaval Thereza Epifânio Alves, da Rivais da Primavera, escola pertencente ao Grupo B, diz ter iniciado só em dezembro os preparativos para o carnaval deste ano, com apenas oito pessoas trabalhando. “Eles não são diretamente pagos. Às vezes, damos uma gorjeta, porque não temos condição de pagar muito. Só alegoristas e carnavalesco são remunerados”, afirma ela, que cede a própria casa para a produção. Com a quadra, no Bairro Benfica, interditada, a agremiação contará apenas com os cerca de R$ 35 mil repassados pela Prefeitura, além de poucas e espaçadas contribuições. “Tem várias pessoas que ajudam a gente. Alguns com madeirite, e outros, quando saímos com um caderninho pelas ruas, sempre nos dão algum dinheiro”, pontua.

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Tradicional, a Real Grandeza, do Grupo A, também vive situação semelhante. “Não temos renda para gastar mais. Vamos alugar as fantasias por R$ 30, e 70% das alas já estão completas. Fiz uma rifa de uma televisão, vendemos publicidade em uma revista nossa, mas não saímos muito do repasse”, comenta o presidente da junta governativa administrativa da escola, Toninho Cunha. “Não temos o morro como comunidade. Temos uma parte da Avenida Sete, o São Bernardo, pessoas do Centro e de outros bairros, além de muitos empresários e clubes. Com antecipação da data do desfile, veio, também, muita gente de cidades vizinhas”, comemora. Fazendo coro, Rafael Eduardo de Oliveira Lima, vice-presidente da Mocidade Alegre, escola promovida em 2014 ao Grupo A, também conta com a presença de pessoas da região.

De acordo com ele, a agremiação tem hoje 30 trabalhadores para colocar em pé um desfile feito para 700 componentes. A quadra está sendo erguida no Bairro Santa Cecília, próxima ao galpão alugado para os preparativos, que também dividem espaço na quadra do Feliz Lembrança, no Barbosa Lage. Anteriormente denominada Mocidade Alegre de São Mateus, a escola decidiu retirar o nome do bairro com o intuito de arregimentar ainda mais moradores do entorno.

Maior detentora de títulos na cidade e atual campeã, a Unidos do Ladeira também se preocupa em envolver a comunidade. “Ela está muito próxima da gente. Temos um bloco que sai dia 30 de janeiro na Rua Maria Perpétua com todos da escola. Eles participam de tudo o que fazemos”, diz o presidente Marcos Valério Mendes.

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Adiantada, a Ladeira está com 90% das fantasias prontas e com as alegorias já em fase final, com expectativa de término das atividades até o dia 30 deste mês. Completamente distante da realidade local, a agremiação alcançou um profissionalismo ainda pouco visto pelas bandas de cá. “Os R$ 65 mil que a Prefeitura dá não pagam nem o aluguel dos cinco galpões que temos. Em um deles, eu pago, por ano, R$ 38 mil só de aluguel. Essa verba municipal é ínfima. Ano passado, gastamos R$ 274 mil no carnaval. O dinheiro advém de eventos. Empregamos 56 pessoas todas as sextas-feiras em festas. Nessa época, chegamos ao ápice, são 116 pessoas trabalhando na escola. Temos um galpão no Nova Era com gente empregada o ano inteiro”, explica Mendes, que às sextas abre a quadra para shows sertanejos, aos sábados aluga para a comunidade e, aos domingos, toca samba e pagode.

Não dá voto, mas conceito

Impasse de décadas, a profissionalização das escolas de samba, segundo seus dirigentes, depende de um investimento público maior, ao passo que o Governo aguarda uma produção mais profissional para, assim, apostar mais na festa. E porque a Passarela do Samba continua existindo, então? Segundo André Diniz, “escola não dá voto como antes”, mas traz, com o apoio, a subjetividade da ideia de aproximação com o que é comunitário e o respeito às raízes. Para a jornalista e pesquisadora Rosiléa Archanjo, autora de “No ar: carnaval de Juiz de Fora meio século de identidade”, o fortalecimento e o enriquecimento cultural e financeiro das agremiações locais passam, em grande parte, pela gerência dessas entidades. “Ou é a família ou é um grupo muito unido em um bairro que comanda as escolas”, comenta, para logo exemplificar: “O presidente da Vale do Paraibuna é vitalício, a família Castro comanda a União das Cores, e os Epifânio comandam a Rivais da Primavera. No Partido Alto, era o Sebastião Giron, mudou para a Regina Rabello e agora voltou o Sebastião. Não muda. Por um lado é bom porque mantém a tradição, mas por outro, não renova e nem inova.”

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