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Arquivo vivo

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Apesar de já ter sido gravada incontáveis vezes, "Eleanor Rigby" é uma surpresa na voz de Cássia Eller. Ao ouvir "Do lado do avesso", fica a sensação de que a gravação da canção dos Beatles não poderia ser esquecida. Chicão Eller, filho de Cássia, Eugênia, companheira da cantora, e Rodrigo Garcia, amigo e produtor, perceberam a importância do registro do show realizado meses antes da morte ocorrida em dezembro de 2001. Lançado recentemente, o CD e DVD que leva o nome de uma composição instrumental da artista, resgata o show "A luz do solo", cujo palco contava apenas com uma despojada mulher se revezando entre três violões. "Esse show mostra o cuidado e a despreocupação dela. Parece um recital particular", relata Garcia, produtor do disco ao lado de Chicão.

A permanência de Cássia Eller no cenário musical após sua morte se deve não apenas ao cuidado que ela teve preservando alguns de seus trabalhos, mas a seu comportamento durante a vida. Lançado no país simultaneamente à abertura de uma exposição inédita com roupas, próteses e documentos da artista mexicana Frida Kahlo, o livro "Diário de Frida Kahlo – Um autorretrato íntimo" reúne confissões da pintora durante os anos 1944 e 1954. Recorrente no universo das artes, a descoberta de inéditos movimenta um mercado póstumo e insere nomes na posteridade, palavra forjada sobre o futuro e ancorada no presente.

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Considerado um dos mais importantes críticos de arte do país, Frederico Morais assina a introdução do livro de Frida e diz que a biografia de um artista confere maior relevo a sua obra. "Quanto mais a gente sabe sobre a pessoa, melhor nós compreendemos seu trabalho", reflete Morais. Alinhado à crença do filósofo francês Roland Barthes, para quem a interpretação de uma criação se soma ao próprio trabalho, conferindo-lhe uma nova dimensão, Morais afirma que "uma obra de arte é também a história de sucessivas interpretações". Assim, faz-se compreensível a crescente valorização de nomes como Frida Kahlo e Cássia Eller.

Na exposição "As aparências enganam: os vestidos de Frida Kahlo", em cartaz no Museu Frida Kahlo, a Casa Azul, residência dela e do marido Diego Rivera na Cidade do México, pode ser conhecida uma pequena parcela das mais de 20 mil peças descobertas após a abertura de um cômodo da casa. Mantido fechado desde a morte do muralista Rivera, que impôs em seu testamento que o banheiro deveria permanecer lacrado durante 15 anos, o lugar lança novas luzes à produção do casal.

"A importância de uma obra não depende só de um artista", afirma Morais, destacando a trajetória de pouco prestígio gozado por Frida durante a vida. "A Frida com sua obra trouxe questões novas que ainda não se esgotaram", aponta, ressaltando que "hoje ainda há um resíduo de algumas idealizações". Certo de que a figura romântica e carismática do artista contribui para a valorização de seu acervo, Morais justifica a popularização de imagens icônicas como ela e como o guerrilheiro Che Guevara, presente em estampas de camisa, canecas, broches, entre outros objetos.

 

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Processos guardados

Se não há nos artistas uma intenção em permanecer, existe, ao menos, a admiração pelo que já foi feito. Autor de mais de três centenas de livros, o casal Mary e Eliardo França diz preservar o trabalho com o intuito de revisitá-lo de tempos em tempos, tornando possível a retrospectiva de toda a carreira, como deseja fazer esse ano, em exposição que terá curadoria de Mariana Lopes Bretas."Não jogo fora, mas também não tenho tanto cuidado como outros artistas", ressalta Eliardo, despido de qualquer preciosismo para pegar suas obras em papel, mas preocupado em utilizar um material de longa permanência, como o MDF. Numa analogia comum aos artistas, ele relaciona as obras aos filhos e acredita que, ao rever antigos trabalhos, tem a possibilidade de compreender e apreender erros e acertos.

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Com intenção semelhante, a escritora Carolina Barreto guarda aleatoriamente, em caixinhas, cadernos ou fichários, projetos de textos que irão se transformar em poemas ou prosa. "O caderno é minha memória de criação", comenta. "Guardar isso é como manter o roteiro de estudo", completa. Sem recusar a tecnologia, Carolina transcreve todas as anotações no computador, para, enfim, ver o material pronto. Irretocáveis, seus textos não são mexidos após a publicação, mas o processo que a levou ao resultado final é constantemente revisitado. Cuidadosa com a forma poética de suas criações, Carolina preserva papéis dos mais diferentes formatos, cores e tipos, nos quais estão trechos de poemas, estudos acadêmicos e outras anotações. Diferentemente do conjunto de folhas, o computador é um lugar de regras e métodos. Pastas intituladas por ano e poema são organizadas para a pesquisa, que origina um livro.

Já Eliardo França e a mulher Mary reservam três grandes cômodos de sua residência ao que já foi feito. Num deles, onde Eliardo escolheu para executar grandes pinturas, estendem-se pelas paredes quadros já expostos e obras ainda inéditas. Lado a lado, duas versões da série baseada no conto de fadas "Chapeuzinho Vermelho", uma de 2002 e outra iniciada esse ano. Numa mapoteca, próxima às telas, desenhos inéditos, alguns inacabados, mas guardados com carinho. Da mesma forma, alguns originais da série "Os Pingos", reunidos com as primeiras impressões dos livros, se encontram num armário extremamente organizado, separados os arquivos por títulos dos livros. "Os rascunhos todos são guardados. Vamos colocando tudo nas caixas", conta Mary, para logo em seguida revelar que seus textos só são escritos no computador quando toda a história foi projetada mentalmente, excluindo-se, então, qualquer possibilidade de arquivamento do processo de criação.

Considerando a extensão de uma carreira artística e as possibilidades de apresentação de todo o trabalho, arquivar torna-se um ato comum. Cheio de projetos, incluindo um disco com as composições de Cássia Eller, faceta pouco explorada durante toda a sua carreira, o produtor Rodrigo Garcia navega num oceano de arquivos. "Ainda temos muito material inédito", diz. Observando a curta trajetória, Carolina Barreto conta que "o que está publicado é só a pontinha do iceberg", certificando que todo arquivo revela um artista muito- maior.

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