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As diversas estações de uma vida extraordinária

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Paul Auster faz uma profunda reflexão das mais de seis décadas de vida em livro de memórias
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Paul Auster faz uma profunda reflexão das mais de seis décadas de vida em livro de memórias

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Se olharmos para nossas vidas, em todas as suas peculiaridades, veremos que a história da vida de cada um jamais pode ser considerada ordinária. No máximo, somos incapazes de exprimir em palavras, melodias ou imagens as tragédias particulares, a alegria profunda e os fatos pitorescos que, nas mãos certas, causam absoluto interesse. Para o romancista, dramaturgo e roteirista Paul Auster, um dos grandes nomes da literatura contemporânea, o acerto de contas com a memória resultou em “Diário de inverno”, lançado nos Estados Unidos em 2012 e que finalmente chega ao Brasil pela Companhia das Letras.

Se em seu primeiro livro, “Invenção da solidão” (1982), as memórias vinham embaladas pela perda de seu pai, neste novo registro de memórias, Auster lembra principalmente de sua mãe, que sofreu o diabo ao decidir se separar de seu pai numa época em que o divórcio ainda era um tabu fortíssimo nos Estados Unidos. A figura materna, para ele, era uma pessoa inteligente, razoavelmente bonita, que sabia se valer de sua sensualidade e buscou de todas as formas não se prender ao ideário que se fazia da esposa perfeita. Indo e voltando no tempo, o escritor prende a atenção do leitor ao lembrar os altos e baixos pelos quais ela passou, da felicidade com o segundo marido ao momento em que ela desaba, sem dinheiro e como se sustentar, ao se tornar viúva e ter de retornar à Costa Leste e ser dependente do filho, sem se esquecer da morte inesperada – quando ela parecia ter recobrado a felicidade e que provocou no filho mais velho o seu primeiro ataque de pânico.

A morte, inclusive, é tema recorrente em um livro marcado pelas profundas, dolorosas, felizes e bem humoradas reflexões. Há nas páginas de “Diário de inverno” a história do seu primeiro contato com a morte (uma avó da qual não era próximo), assim como a do amigo fulminado por um raio, ao seu lado, quando tinha 14 anos, a do seu pai – e, obviamente, de sua mãe. Os momentos em que ele quase se tornou a próxima vítima também fazem parte das memórias, seja um acidente de carro ou uma prosaica espinha de peixe atravessada na garganta. As memórias de Auster são marcadas por pensamentos não apenas sobre a morte, mas principalmente sobre a vida.

O escritor filosofa sobre as mudanças pelas quais o corpo passa ao longo de mais de seis décadas – no caso dele -, os locais em que precisou se acomodar e morar, as viagens, a passagem do tempo que atinge a todos. Em um dos melhores momentos, ele divaga sobre a incapacidade de conhecer o próprio corpo, o rosto que só é possível conhecer através do espelho. Dentro desse espírito, ele afirma na página 108: “Você gostaria de saber quem é”, enumerando parte dos seus antepassados que, de alguma forma, foram responsáveis pelo que se tornou.

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Do beisebol ao amor verdadeiro

Sem se preocupar com a linearidade temporal, Paul Auster escreve sobre seus relacionamentos e paixões idealizadas – e que, por isso mesmo, jamais deram certo -, volta a falar do pai, recorda a infância em que uma das poucas preocupações era jogar o seu amado beisebol, as dificuldades para viver apenas “do trabalho de escritor’, seu processo de criação baseado, às vezes, em longas caminhadas, as coisas que foi incapaz de dizer no momento certo e sua aversão à nostalgia pela nostalgia, mesmo que lembre com carinho das coisas do passado.

Ainda há espaço para contar, de forma apaixonante e apaixonada, a noite de fevereiro de 1982 em que conheceu sua segunda mulher, a também escritora Siri Hustvedt, e como os dois caíram de amor um pelo outro quase instantaneamente, compartilhando uma vida juntos mais de três décadas depois.

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Com pouco mais de 200 páginas, “Diário de inverno”, mesmo sendo um livro de memórias, carrega aquilo de melhor que pode ser encontrado em suas obras de ficção, como “Desvarios no Brooklyn” e “A noite do oráculo”: uma escrita elegante, limpa, direta, envolvente e que não tem pudores em se valer das palavras mais simples para contar uma história, sem parecer simplório com isso. Ao tornar acessível a sua história, é possível ver no escritor uma pessoa que, a despeito da fama e do talento, no fundo carrega as mesmas dores, angústias, alegrias, qualidades e defeitos que os demais seres humanos. Como ele mesmo escreve no primeiro parágrafo do livro: “Você acha que nunca vai acontecer com você, que não pode acontecer com você, que você é a única pessoa no mundo com quem nenhuma dessas coisas jamais há de acontecer, e então, uma por uma, todas elas começam a acontecer com você, do mesmo modo como acontecem com todas as outras pessoas.” A diferença é que Paul Auster sabe contar essas histórias como poucos.

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