O Dia da Consciência Negra, celebrado nesta quinta-feira (20), marca um momento de reflexão sobre o legado da população negra no país e sobre os desafios ainda presentes no enfrentamento ao racismo. Desde 2023 parte do calendário nacional em homenagem a Zumbi dos Palmares, a data mobiliza ações públicas e iniciativas sociais que buscam reforçar a importância da memória e da valorização da cultura negra.
Em Juiz de Fora, além da programação organizada pela Prefeitura, diferentes grupos e pesquisadores atuam continuamente para ampliar a visibilidade dessas discussões. Nesta matéria, a Tribuna ouviu especialistas, lideranças e artistas que analisam o passado da cidade, os avanços recentes e os caminhos necessários para consolidar políticas efetivas de igualdade racial e a cultura negra na cidade.
Lacunas da presença negra na memória urbana
A professora e historiadora Giovana Castro avalia que a história urbana de Juiz de Fora ainda não expressa de forma adequada o legado da população negra que participou da formação do município. Ela recorda que houve, ao longo dos séculos, um esforço de “desafricanizar” o território, apagando referências à escravidão e à presença africana, mesmo em uma cidade que se consolidou como a mais escravocrata de Minas Gerais. Segundo a pesquisadora, a narrativa de modernidade associada ao protagonismo europeu ocultou a origem da riqueza que impulsionou o desenvolvimento local.
Giovana destaca a colaboração de agentes como a imprensa, a Sociedade de Medicina e Cirurgia e o Instituto Histórico e Geográfico em contribuir com a percepção de que o desenvolvimento da cidade não se relacionava à exploração do trabalho escravizado. Para ela, o desconhecimento da população sobre protagonistas negros é resultado de um racismo estrutural que não vê essas histórias como dignas de registro e memória.
A Secretária Especial da Igualdade Racial, Giane Elisa, complementa que a marca da população negra na formação social, cultural e patrimonial é extremamente significativa. Nesse sentido, ela menciona que é possível perceber, por meio de pesquisas de diversas épocas, que a cidade é marcada pela presença negra em diversos territórios, que embora não sejam oficialmente reconhecidos, são patrimônios da cidade.
“Juiz de Fora é uma cidade negra. Esta é uma cidade que, quando a gente anda por ela, a gente vê gente preta em todos os lugares e isso quer dizer que existe aqui uma presença que esteve aqui ao longo de toda a sua história e segue presente no cotidiano”, afirma.
Raízes históricas
Coordenador do Movimento Negro Unificado (MNU) de Juiz de Fora, Paulo Azarias, observa que bairros juiz-foranos como Vila Esperança, Benedito e Ipiranga são majoritariamente negros, refletindo a composição da periferia. Apesar do afastamento dos centros, ele enfatiza que o povo negro sempre foi protagonista: o que falta são políticas públicas que façam um levantamento histórico dessas comunidades.
Giovana acrescenta que “é um compromisso do historiador que suas pesquisas reverberem no presente e cheguem até pessoas que foram convencidas que são destituídas do direito à memória, que ela tenham espaço para entender e contar suas vivências também”. Para isso, ela defende a necessidade de financiamento público para produção de textos, acervos e materiais pedagógicos que permitam a circulação do conhecimento.
A artista e estudante de jornalismo (UFJF) Sophia Bispo, relata que sua trajetória e modo de viver foi moldada pelo lugar que a criou, o Bairro Retiro, Zona Sudeste. Ao produzir poesia marginal, ela reflete não só sobre a comunidade negra de Juiz de Fora, mas também sobre o Brasil inteiro. Para Sophia, as instituições sociais criam vítimas de contextos variados, mas unidas pela mesma experiência de opressão cotidiana.
Slammer, ela explica que o mais importante nas competições de poesia falada é a troca entre participantes, o protesto e o processo de escuta. “É o nosso trabalho intelectual ali, exposto para todos e que é uma crítica do mundo a partir da nossa visão. No meu caso, enquanto pessoa negra, periférica, mulher e LGBT, considero que o objeto do estudo está falando. Eu acho isso importantíssimo pra valorizar a cultura negra, porque a gente vem de uma tradição no Brasil, onde a nossa história foi e ainda é contada muitas vezes por outras pessoas, infelizmente”, afirma.
Um espaço simbólico
Inaugurado em julho de 2025, o Centro de Preservação da Memória Negra (CenPre) recebeu mais de 120 visitas diárias em seu primeiro mês, que contou com a exposição “Estesia”. Localizado no Paço Municipal e mediado pela Secretaria Especial de Igualdade Racial, o espaço recebe diversas atividades atreladas ao Novembro Negro. A programação completa pode ser conferida no site oficial da Prefeitura de Juiz de Fora.
“O CenPre é um espaço revolucionário e crava, no coração da cidade, uma visibilidade fundamental. Ele representa o trabalho da população negra em busca de valorização e dignidade. A pós-abolição foi marcada por movimentos negros que denunciavam esse processo incompleto e debatiam sobre a cidadania negra enquanto uma pauta que demandava a reorganização do nosso modelo de Estado Nacional. Movimentos como Frente Negra Brasileira, foram responsáveis, posteriormente, a lançar as bases de uma luta que resultou na Assembleia Constituinte, na Comissão das Minorias, na demarcação das terras quilombolas e na aprovação da leis como a nº 10.639/03, que leva o ensino obrigatório de história e cultura afro-brasileira em escolas públicas e privadas”, explica Giovana.
Para Giane, o CenPre atende a uma reivindicação histórica de movimentos sociais negros, como o MNU, e representa um marco de reparação. Ela afirma que o espaço fortalece práticas de museologia social, que ampliam formas de preservação da memória e envolvem diretamente as comunidades. Segundo ela, para este Novembro Negro e para o cotidiano da cidade, é essencial sensibilizar toda a população para reconhecer o CenPre como um espaço coletivo. “Nós precisamos fazer com que as pessoas não negras compreendam esse processo de construção e valorização dessa memória coletiva, e que comecem a criar os seus repertórios de enfrentamento ao racismo”, afirma.
Paulo Azarias reforça que o centro contribui para reconstruir a história e a trajetória do povo negro juiz-forano, processo necessário tanto para resgatar o passado quanto para orientar novas gerações. Sophia destaca que essas iniciativas, mesmo tardias, constituem um esforço atual de ressignificação e inclusão. “Enquanto artista e jovem negra periférica, eu vejo isso com muito bons olhos, pois eu percebo que é um esforço atual, que ressignifica o passado e que nos coloca no centro da discussão.”
Perspectivas futuras
Sophia defende que o racismo institucional ainda é uma das principais barreiras para a ampliação da consciência racial. Para a poeta, o meio social busca maneiras de excluir pessoas negras de diversos ambientes e as pressiona a fazerem parte de uma estatística que os enquadra em dados negativos relacionados a saúde e a economia, por exemplo. Esse processo, na visão dela, incentiva o pensamento de que diariamente essas pessoas precisam se superar, sendo excelentes pois não podem ter espaços para erros.
Giovana avalia que há frentes importantes a serem avançadas, como a implementação do Estatuto da Igualdade Racial, aprovado em 2024. Ela também destaca a necessidade de retomada de editais culturais mais inclusivos e de investimentos contínuos em educação. “Ao tomar esses passos, o poder público pode então fazer aquilo que é sua responsabilidade: operar em favor da democracia em todas as suas instâncias”, conclui.
*Estagiária sob supervisão da editora Carolina Leonel

