A juventude é o tema central da Semana da Consciência Negra e da Cultura Afro-brasileira de Juiz de Fora, que acontece até o próximo sábado, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer mais a cultura e debater sobre a postura dos afrodescendentes perante a sociedade, no que tange seus direitos e deveres. Além do espaço voltado para as palestras, a programação reserva diversas apresentações de danças, oficinas e exposições, que abordam o universo africano e seu reflexo no Brasil.
Integrante da comissão organizadora do evento, Eridan Leão questiona quais políticas são necessárias para reverter a situação atual, já que a cidade vive um momento em que a violência vem preocupando a população – principalmente a violência praticada entre os jovens negros contra eles próprios. "Trazer o tema para o debate pode aumentar o nível de conscientização das pessoas, sobretudo a partir das ideias apresentadas pelos convidados e participantes."
"O jovem negro, assim como os demais, não deve se portar apenas como sujeito e objeto de violência. Ele é força criativa e precisa de oportunidades para expressá-la, independentemente de qualquer instituição", defende o professor da Faculdade de Comunicação da UFJF e especialista em projetos de pesquisa sobre juventude e violência, Wedencley Alves Santana, que ministra, hoje, no Centro Cultural Dnar Rocha, a palestra "O que quer a juventude negra em JF?".
Segundo o pesquisador, o quadro em que a juventude negra se encaixa se repete desde o período da escravidão. "A precariedade é histórica, e, de lá para cá, não houve mudanças significativas. Na época do regime militar, por exemplo, tivemos a má distribuição de renda, que atingiu, principalmente, a população negra. Este quadro vem sendo reproduzido ao longo dos anos, e, nas últimas duas décadas, houve mais um agravante: a institucionalização da violência e o aumento exacerbado de crimes e execuções praticados pela polícia, que atingiu, mais uma vez, os jovens negros."
Na visão de Wedencley, melhorar a distribuição de renda evitaria que estes jovens ficassem na mira para serem mortos e se envolverem com crimes e tráfico. "Uma renda maior permitiria a estas famílias mais conforto e possibilidade de investimento em formação pessoal e profissional. Vejo que falta, ainda, o estímulo a uma cultura de valorização na educação e reflexão", ressalta.
Para a presidente do Conselho Municipal para a Valorização da População Negra, Zélia Lúcia Lima, a grande dificuldade é chegar até os jovens negros que vivem nas periferias de Juiz de Fora, locais onde há maiores índices de criminalidade. "Queremos travar uma luta pela paz entre estes jovens, para que tenham oportunidade de voltar à escola e ter acesso a programas como o ‘Juventude viva’, do Governo federal, que trabalha diretamente entre a juventude negra."
A realização da Semana da Consciência Negra e da Cultura Afro-brasileira é assegurada pela Lei Municipal nº 11.769, de 26 de maio de 2009, que determina que as comemorações aconteçam entre a data da Proclamação da República (15 de novembro) e o dia da morte de Zumbi dos Palmares (20 de novembro), o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior da história do período de colonização brasileira, que representa um grande símbolo de lutas e de resistência.
Um continente, diversas expressões
Para mostrar que no continente africano não existe apenas uma forma de manifestação cultural, sete jovens vindos dos países de Cabo Verde, República Democrática do Congo, Angola e Guiné Bissau, que formam o grupo Conbráfrica – Conexão Brasil África, serão uma das atrações do "Dia de Zumbi, a senzala na praça", que acontece, amanhã, na Praça Antônio Carlos. Cada um a sua maneira de se vestir e expressar, apresenta ao público danças típicas de seus países de origem, de forma individual e em grupo. Segundo as produtoras Sheyla Cristina Gonçalves e Alline Aparecida Pereira, esta será a primeira apresentação em conjunto realizada pelos meninos, que estudam na UFJF.
Entre os estilos apresentados, estão o "coupé decalé", da República Democrática do Congo. É um ritmo percussivo com um refrão caloroso e repetitivo. De Cabo Verde, chega o ritmo "funaná" – marcado pela gaita (equivalente a um acordeão) e pelo ferrinho (barra metálica originalmente da lâmina de uma enxada friccionada com uma faca ou outro objeto metálico) -, que retrata fatos do cotidiano deste povo. Outro estilo apresentado é o "gumbé", de Guiné-Bissa, ritmado por um tambor feito com couro de animal, chamado "cicô". Era uma dança comum na época da colonização portuguesa, em que as mulheres cantavam para seus maridos e filhos, pedindo para que eles voltassem vivos após as batalhas.
Para Jailson Pires, nascido em Cabo Verde, um dos integrantes do grupo, poder participar da Semana da Consciência Negra, é uma oportunidade de contribuir para a cultura negra local. "Tem pessoas que acham que a África é uma só, e, de fato, não é. Esperamos que, com nossas músicas e danças, possamos mostrar estas diferenças. É uma maneira de homenagear nossos antepassados, que conseguiram preservar esta cultura tão forte."
Homenageados recebem medalha
Dez cidadãos que se destacaram na produção e na difusão de manifestações culturais e sociais da raça negra, em níveis municipal, estadual e nacional, recebem, nesta quinta-feira, a Medalha Nelson Silva, durante evento na Câmara Municipal. Entre os homenageados, estão o poeta, professor titular da Universidade Federal do Ceará e integrante do Movimento Negro, Henrique Cunha Junior; a autora dos livros "Educação infantil, igualdade racial e diversidade: aspectos políticos, jurídicos e conceituais" e "Práticas pedagógicas para a igualdade racial na educação infantil", Maria Aparecida da Silva Bento; a coordenadora pedagógica nas redes municipal e estadual de Juiz de Fora, Jussara Alves da Silva; a líder das empregadas domésticas juiz-foranas, Neuza Felipe da Silva; a professora e integrante do Movimento Negro, Luzia Francisca de Souza; a subchefe da Divisão de Programação e Liquidação de Despesas da Câmara de Juiz de Fora, Vera Lúcia Couto Brigido; o jovem militante do movimento estudantil e secretário geral do DCE , Victor Cezar Rodrigues; o maestro Paulo Luiz Moreira; a líder comunitária do bairro Santa Efigênia e idealizadora de projetos sociais voltados para crianças, mulheres e idosos, Sandra Maria Silva; e o cantor, compositor, sambista e um dos fundadores da Escola de Samba Partido Alto, Paulo Cézar Calíchio, conhecido por Coração.
