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‘Atemporal como a paixão’

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No célebre "Samba da bênção", parceria com Baden Powell, Vinicius de Moraes se autointitula "capitão do mato", "poeta e diplomata", "o preto mais branco do Brasil", ilustrando apenas algumas de suas diversas facetas. Na mesma canção, certo de que "a vida é pra valer", Vinicius reitera a certeza de uma só passagem pelo planeta: "Duas mesmo que é bom / Ninguém vai me dizer que tem". Se por um lado é verdade, ainda que triste, que o poetinha – apelido que lhe teria sido dado pelo parceiro Tom Jobim – já encerrou sua turnê por aqui, sua obra, por outro lado, permanece viva e pulsante, e tem sido especialmente reverenciada neste ano, já que a data de hoje marca o centenário de nascimento do multiartista.

Para a filha caçula de Vinicius, Maria de Moraes, a atemporalidade da obra do pai deve-se à intimidade que ele buscava com o público. "Ele buscava essa proximidade e a levou da poesia à música de maneira muito fácil. Além disso, sua obra é muito diversa e fecunda, sendo capaz, até hoje, de atingir pessoas de qualquer idade", observa ela, uma das sócias da VM Cultural, empresa familiar responsável pelos direitos culturais do artista, fundada há 25 anos.

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Segundo Maria, a maior parte dos projetos em menção aos 100 anos do diplomata mais controverso do Itamaraty já estão disponíveis, como livros sobre o artista e reedições de seu trabalho literário, entre elas a de "Obras completas". Musicalmente, duas homenagens ganham destaque, o relançamento do belíssimo infantil "Arca de Noé", revisitando as canções originais, com artistas da velha e da nova geração; e um disco de clássicos produzido por Georgiana de Moraes – também filha de Vinicius – e Zé Milton, em que cada intérprete escolheu a canção do poetinha que gostaria de cantar.

Os festejos incluem ainda a adaptação para a Broadway de "Orfeu da Conceição", texto de Vinicius para o teatro, já adaptado duas vezes para o cinema. Maria de Moraes não esconde o entusiasmo ao falar do site oficial de Vinicius (www.viniciusdemoraes.com.br), criado em 2002 e relançado nesta madrugada, aniversário de "papai", completamente reformulado. "É o presente da família para o centenário, e está agora com mais fotos, mais detalhes de vida, dos parceiros, um programa de rádio, e toda a obra publicada em vida, além de textos avulsos publicados posteriormente. O objetivo é propagar a obra corretamente, com uma curadoria de excelência, dar acesso a quem não tem", diz Maria.

Nos idos de 1940, Vinicius residia em Hollywood, nos Estados Unidos, e em carta a seu primo, o jornalista Prudente de Moraes Neto, fala sobre a amenidade do clima local, "de modo geral tão sereno quanto Juiz de Fora". Retribuindo a generosidade, a cidade preparou, ao longo do ano, algumas homenagens a seu centenário. Uma delas foi a peça "O poeta da paixão", de José Luiz Ribeiro, encenada em julho deste ano pelo núcleo de terceira idade do Grupo Divulgação. "Vinicius teve uma grande expressão na literatura, mas ‘Orfeu da Conceição’, sua peça de teatro mais famosa, foi um sucesso enorme. Mesmo suas crônicas e poemas permitem adaptações interessantes para o teatro, porque ele foi um mestre da linguagem", observa José Luiz, que, como jornalista, teve a oportunidade de entrevistar o compositor.

Movido a paixão, o poeta teve nove casamentos, versando e cantando o amor a diversas musas em seus sonetos, poemas, canções e crônicas. É este culto ao amor que a exposição "Eu sei que vou te amar…", da galeria de arte Hiato, pretende mostrar, por meio do trabalho de 24 artistas a partir da frase-título de uma das canções mais famosas de Vinicius. "O mais difícil é conseguir expressar o amor com tanta delicadeza e simplicidade, sem perder a beleza e a intensidade, como Vinicius sempre fez", observa Petrillo, idealizador do projeto e um dos expositores.

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Além disso, um curioso livro, "Pois sou bom cozinheiro" (Companhia das Letras), que retrata a história de Vinicius por meio da gastronomia, será lançado na cidade em novembro, reunindo receitas da infância e da família do artista, os pratos de seus restaurantes preferidos e interpretações de iguarias citadas nas obras do poetinha. "Vinicius nunca foi singular, por isso acho que jamais seria apenas uma receita, mas um farto e completo menu. Para começar, os aperitivos que ele adorava, ‘pasteizinhos’ de carne mergulhados no açúcar, ‘bolinhos’ de arroz bem ‘fritinhos’, e os ‘bolinhos’ de bacalhau com aipim", diz a organizadora da publicação, Daniela Narciso, remetendo à mania do compositor em falar de seus quitutes prediletos no diminutivo.

 

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‘A vida só se dá pra quem se deu’

Na visão de Maria de Moraes, se vivo e bem de saúde, seu pai estaria em plena atividade. "Estaria produzindo mais, agregando mais, junto aos jovens, aos que ama, entrando nas novidades. Era um homem à frente de seu tempo." De fato, em seus 67 anos de vida, Vinícius foi um exagero: amou demais, bebeu demais, produziu demais, transbordando seu talento para diversas artes. Para o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, a precoce incursão na música enriqueceu muito a MPB. "Ele trouxe um toque mais literário, não podemos esquecer que ele estudou literatura inglesa na Inglaterra. E tem uns achados populares sensacionais: Começar uma música falando de "um velho calção de banho" e fazer música sobre Itapuã depois de Caymmi é uma ousadia genial, além da série com Baden, que é maravilhosa."

Segundo o professor da USP, cineasta e ex-secretário de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil, Vinicius foi também um importante crítico de cinema nos anos 1940. "Foi um cinéfilo, acima de tudo, e atuou em diversos jornais. Sua contribuição na crítica cinematográfica no país é muito grande pelo volume e qualidade dos textos, que também eram muito divertidos. Típico de sua personalidade, ele chegou a levantar uma discussão em prol do cinema silencioso, algo que não fazia mais sentido na época, mas só ele seria capaz de tornar relevante", observa ele, que organizou grande parte do material do Vinicius crítico no livro "O cinema de meus olhos", lançado em 1991.

Para o cineasta Cacá Diegues, que dirigiu "Orfeu", adaptação brasileira da peça "Orfeu da Conceição" para as telonas depois de uma versão francesa de 1959, o contato com Vinicius foi essencial na elaboração do longa. "Desde que vi a peça em sua estreia, aos 16 anos, sonhava em fazer esse filme, sobretudo depois que vi a adaptação francesa do "Orfeu Negro", que me decepcionou muito. Conversei muito com Vinicius, muito antes de fazer o filme, e trabalhamos juntos pouco antes de ele morrer, em 1980."

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Cacá destaca que uma das coisas mais importantes deste texto de Vinicius era sua necessidade de conexão com o tempo para o qual fosse adaptado, algo ressaltado pelo próprio autor nas conversas com o diretor. "Na peça original, o antagonista que matava Eurídice era um pastor de abelhas, numa favela de 1942 – quando Vinicius escreveu a peça – ainda bastante rural. Em nosso filme, ele se tornou um líder do tráfico de drogas", exemplifica.

 

Para Toquinho, um dos maiores parceiros musicais de Vinicius, o encontro entre eles ocorreu no momento certo para cada um. "Ele precisava de um músico jovem, disposto e livre. E eu necessitava de um letrista à altura de minhas melodias. Trocamos experiências: ele me passou a juventude da experiência, porque não sabia ser velho, sempre se renovando; e eu lhe passei a experiência da juventude, colocando Vinicius na estrada justamente numa época em que todos pensavam que ele já não produziria mais para a música popular", observa o músico.

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Na visão de "Toco", como foi chamado pelo bonachão Vinicius antes mesmo que se conhecessem pessoalmente, não há dúvidas quanto à maior faceta do parceiro: "A coragem de transferir a poesia do livro para a música". A poesia, aliás, é o que explica, independentemente da arte a que se dedicasse, a perenidade da obra do amigo, assim como sua própria personalidade. "Foi um poeta que viveu como poeta. Não aceitava a rotina, dizia que o cotidiano era a ferrugem da vida. É atemporal como a paixão, que ele perseguiu por toda a vida."

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