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No centro das vanguardas

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O poeta Murilo Mendes viveu os 18 últimos anos de sua vida no exterior, período que pode ser incluído entre os mais produtivos de sua vida. A relevância dessas quase duas décadas está não só na publicação de livros como "A idade do serrote" (1968), mas também nas relações que o escritor estabeleceu em território europeu. Em sua residência na Itália, ou em seus trânsitos por Portugal, Espanha e França, o juiz-forano contemplou o clássico e conviveu com as vanguardas, criando relações que o credenciaram como colecionador e crítico de obras de arte. Em Roma, a casa do poeta esteve aberta para artistas e intelectuais de renome, convertendo-se em um espaço para a reverberação da cultura. A influência desses anos – que vão de 1957 a 1975 – no legado do juiz-forano é tema de um seminário com convidados internacionais e uma exposição no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), que reúne alguns dos nomes mais relevantes da arte moderna italiana e brasileira.

Em cartaz na Galeria Convergência, a mostra "Murilo Mendes – Poeta peregrino na Itália" exibe um dos segmentos mais nobres do acervo do juiz-forano, que está sob guarda do Mamm. A coleção, criada no período em que o escritor residiu em Roma, é considerada uma das mais relevantes do país no tema, ao abranger alguns dos principais representantes da arte italiana dos anos 1950 aos 1970, com obras de Magnelli, Giuseppe Capogrossi, Mario Padovan, Carla Accardi e Giorgio de Chirico.

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Murilo, crítico de arte

Murilo Mendes, por sua vez, inscreveu seu nome na fortuna crítica desses pintores e escultores ao publicar artigos sobre seus trabalhos. O conhecimento foi fortalecido por sua convivência com outros intelectuais influentes na produção artística da época, como Carlo Giulio Argan – colega do poeta na Universidade de Roma -, uma das principais referências da arte moderna.

O crítico de arte e professor da USP Lorenzo Mammì avalia os textos do escritor juiz-forano como exercícios de leituras das obras de arte em questão. "Ele contribui na finura de certas observações pontuais, que se mostraram reveladoras", comenta Mammì, ressaltando a qualidade de alguns ensaios do poeta, sobretudo em relação à pintura abstrata do Pós-Guerra. A ligação com esse tipo de arte substitui sua fase inicial, muito marcada pelo surrealismo e expressionismo, ambos presentes em seus poemas, como sugestões de imagens ou na forma direta de homenagens.

Complementando o circuito expositivo, a exibição do documentário "Murilo Mendes: poesia em pânico", de Alexandre Eulálio (finalizado em 1977, com imagens captadas em 1971), que retrata o poeta na Itália, entre uma entrevista gravada em sua casa e imagens do escritor e sua esposa, Maria da Saudade Cortesão, caminhando por Roma.

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Arte brasileira na Itália

A exposição no Mamm também traça um panorama da arte brasileira no mesmo período, a partir do olhar de Murilo Mendes. Em 1964, o autor recebeu do Ministério das Relações Exteriores a tarefa de selecionar os artistas brasileiros que participariam da 32ª Bienal de Veneza. Com esse recorte, a mostra dedica o espaço central da galeria a nomes como Tarsila do Amaral, Alfredo Volpi e Abraham Palatnik, que figuraram na lista de escolhidos do juiz-forano.

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Conforme o pró-reitor de Cultura da UFJF, Tarsila do Amaral (que participa da exposição no Mamm com dois desenhos) foi escolhida por representar a tendência vanguardista do Brasil no contexto mundial da época. Outros artistas se credenciaram ao posto por realizarem uma leitura da arte abstrata a partir do cinetismo (ilusão de movimento), a exemplo de Almir Mavignier e Palatnik. Já Volpi é considerado o grande mediador entre a tradição do modernismo e o chamado concretismo, iniciado na década de 1950. "A seleção se dá no sentido de encontrar uma linguagem que supere o dualismo entre o formalismo e o geometrizo", reforça Lorenzo Mammì.

 

Literatura do exílio

Professor de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Roma, Ettore Finazzi chegou a ter aulas com Murilo Mendes na instituição. Anos depois, a convivência tornou-se mais próxima, quando se tornou seu colega na universidade. "Minhas lembranças são muito saudosas. Eu me recordo de que Murilo Mendes era um homem muito formal, tanto no modo de se vestir, quanto na maneira de lidar com as pessoas, mesmo comigo, que tinha apenas 23 anos, na época", conta o pesquisador, que esteve presente no seminário "Ipotesi/Hipóteses – Murilo Mendes e a Itália", encerrado ontem no Mamm.

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Finazzi acredita que o período europeu de Murilo tenha sido marcado por uma extrema devoção do poeta a todas as manifestações artísticas. A relação com essas formas de cultura permitiu que o poeta desenvolvesse um círculo de convivência, que constituiu uma espécie de "nova pátria", um lugar em comum entre ele e pessoas de diferentes nacionalidades. "Murilo Mendes se enquadra em uma comunidade artística, em uma genealogia poética que parece o influenciar", esclarece. "A Itália se estabelece para o poeta como uma convivência com a tradição clássica. Ele não é passivo, assume essa herança, mas questiona", complementa.

O professor acrescenta, ainda, um aspecto curioso sobre a produção do juiz-forano em seus anos na Europa. Murilo Mendes não dominava completamente o italiano quando começou a dar aulas em Roma. O idioma foi sendo adquirido aos poucos, a ponto de o poeta sentir à vontade para escrever na língua. Desse manancial, pertencem livros como "Siciliana", de (1959). Apesar da escrita sem erros, Finazzi afirma que a maneira de compor está claramente ligada à estrutura do português, soando incomum à tradição italiana.

Durante o seminário foi exibido, pela primeira vez, o fragmento de um vídeo em que Murilo Mendes dá uma entrevista em sua casa em Roma. Segundo o pró-reitor de Cultura, José Alberto Pinho Neves, as imagens são, provavelmente, fragmento de um programa televisivo da RAI (emissora de TV da Itália). Falado em italiano – e ainda sem tradução – o vídeo traz opiniões de Murilo Mendes sobre cultura brasileira, em comentários sobre autores como João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. A produção em VHS, obtida pela professora Maria Betânia Amoroso, da Unicamp – uma das organizadoras do seminário – foi restaurada em São Paulo, por solicitação da pró-reitoria de Cultura da UFJF e transposta para DVD.

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POETA PEREGRINO NA ITÁLIA

De terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h. Até 8 de janeiro

Mamm

(Rua Benjamin Constant 790)

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