Quem escuta Gnômade, de Erivelto Couto, sente o impulso de interromper a correria cotidiana, recostar-se confortavelmente e apreciar acordes que embalam um daqueles descansos do qual se sai renovado. Tento lançar um olhar crítico sobre o mundo moderno e a fluidez das relações, a ‘coisificação’ das pessoas, a ‘descartabilidade’ de tudo, e para isso recorro a um certo espiritualismo, que permeia todo o álbum.
Multirreferenciado, Erivelto cresceu na Zona Rural de Carandaí e começou seu flerte com a música em um radinho de pilhas, onde começou ouvindo música sertaneja, antes de conhecer ídolos internacionais como Bob Dylan, Neil Young e os Beatles. Quando vejo uma foto de Tonico e Tinoco tocando ou vejo uma de Dylan, não enxergo a menor diferença. São todos artistas fazendo suas revoluções por meio de música popular, com suas relações e contradições, conta ele, que aprendeu a tocar bombardino e ler partituras na Corporação Musical Santa Cecília, aos 13 anos. O violão veio mais tarde, com uns 17 anos, porque já escrevia letras e sempre dependia de alguém para musicar, aí resolvi fazer tudo sozinho.
Com dois livros publicados, Erivelto, apesar de assinar todas as melodias de seu disco, considera-se um escritor que compõe. Sou mais um contador de histórias do que um cantor. É claro que todo o conjunto da música é importante, mas tenho uma grande preocupação com a poesia da letra e a métrica.
Gravado e lançado de forma independente, o CD Gnômade, primeiro do artista, chama atenção pelo nome curioso, dado por um amigo de Erivelto em uma roda de violão. São sempre meus amigos que batizam meus trabalhos (risos).Toquei a música ‘Chover’, e ele adorou. Já tinha tomado umas e outras e disse que eu era um ‘Gnômade’, um encantador de mentes. Não sei bem o que ele quis dizer na hora, mas achei o nome bom. E ficou.
Para o músico, a vantagem do caminho independente é a liberdade criativa que ele possibilita. Você grava o que quer gravar, sem imposição de uma tendência de estilo por alguma gravadora. A dificuldade é a divulgação. As casas de show normalmente dão espaço às atrações que atendem à monocultura musical do momento, normalmente privilegiando covers. As leis de incentivo também não contemplam a distribuição, e alguns circuitos alternativos exploram o artista. Além disso, quem é independente tem menos infraestrutura, não podendo nem contar com banda fixa, por exemplo.
Segundo Erivelto, um dos traços mais distintivos do álbum é a produção de Rick Ferreira, guitarrista de ícones como Erasmo Carlos e Raul Seixas, por quem era chamado de fiel escudeiro. Sempre fui muito fã de Raul e dizia que se fosse gravar, ele teria que produzir. Assim foi. Ele entende o que eu quero fazer, nossas referências musicais são as mesmas. O resultado está nas guitarras e violões impecáveis do meu disco, e não só porque ele toca, mas porque convocou um time de peso, Pelés e Garrinchas da música, brinca Erivelto, citando o contrabaixista Johnny Barreto, da banda de Erasmo, Sergio Villarim, tecladista do ‘The voice Brasil’, e Márcio Gama, técnico de gravação de artistas do calibre de Ney Matogrosso e Zé Ramalho.
Rick também assinará a produção do segundo disco de Erivelto, que está no forno. Uma prévia pode ser conferida no canal oficial do artista no Youtube, com o clipe de Lucy , que também será lançada como single do trabalho.
