Ao abordar o absurdo, a arte acaba por questionar o real. Por trás das máscaras monstruosas das criações de Nelson Rodrigues, havia personagens comuns, que andavam nas ruas sem o remorso das atrocidades ditas e feitas. A normalidade, então, é posta à prova para formatar novos discursos e novas ações. Em Histórias e segredos 2, livro de estreia de Léo Bomfim, os personagens parecem beber na fonte do jornalista e dramaturgo carioca, gerando tensões trágicas com um leve tempero de humor. Sou fã confesso de Nelson Rodrigues, da vida e da obra dele. Como escritor e dramaturgo, ele se tornou um grande gênio, diz Bomfim, certo de que as duas novelas de seu primeiro livro, cujo lançamento será feito amanhã, às 17h, no Sindicato dos Auditores Fiscais, no Bairro Manoel Honório, estão impregnadas da influência rodrigueana.
Em 1961, em entrevista ao Jornal da Tarde, Nelson disparou: É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez. Com esse espelho em mãos, Bomfim desenhou o protagonista Maurício, de Só os canalhas são realmente felizes, novela que abre a obra. Com um futuro promissor, o jovem é confrontado com a morte do pai e com a urgente necessidade de conservar a vida financeira da família. Da adolescência travessa à juventude pacata, Maurício se casa e gera sua própria prole. Conspirando a favor de um possível retorno à canalhice, uma das pessoas mais próximas ao rapaz incita-o ao limite de sua moral.
Na vida dessas pessoas comuns, em algumas vezes, ocorre uma quebra de paradigmas dos bons costumes. Gosto de escrever sobre as transgressões desses seres, comenta o autor. Em A mulher do dia, a dama da noite, segunda e última novela, uma camponesa, Helena, é instigada a subverter a própria honestidade quando se vê diante da cidade grande. Dessa forma, a literatura de Bomfim estreita-se ainda mais com a de seu ídolo ao deixar perguntas sem se preocupar com respostas: Até que ponto conseguimos nos manter na retidão? Qual o sabor dessa vida sem desvios? Quem é totalmente normal? O que é essa tal normalidade?
Após ter vivido longo tempo no subúrbio carioca, Léo Bomfim transferiu-se para Juiz de Fora, percebendo fortes ligações com seu lugar de origem. Considero muitas semelhanças entre a cidade e o movimento dos subúrbios do Rio, afirma. E, desse universo, o servidor público e professor de Direito – Sou um homem comum, um pai de família que trabalha de segunda a sexta – Hélio Ribeiro, descobriu no pseudônimo Léo Bomfim uma possibilidade de dar vazão às suas observações cotidianas. O Léo me ajuda a separar essa pessoa comum do cidadão escritor que trabalha com a arte. Tenho a sensação de que não escrevo sozinho, tenho uma companhia, uma terceira pessoa.
E essa terceira pessoa, que escreve e possui uma autocrítica, tem dicção fluente, entre o erudito e o coloquial, com forte apuro para os lances sensuais e sexuais da narrativa. As observações que faço são a matéria-prima para a escrita, mas o resultado final é mais amplo, engloba vivência, experiência de mundo, destaca o autor, que sabe muito bem que a vida como ela é possui frestas obscuras.
