
Larissa pegando carona na Rota 40, na Patagônia Argentina
“Quero juntar dinheiro para viajar.” O pensamento, que muitas vezes começa como um plano para a maioria de nós, não raramente acaba como um empecilho para que conheçamos mais cantos do mundo quando não conseguimos cumpri-lo. Não para Larissa Gomes,de 27 anos, natural de Carangola, que percorreu oito países da América do Sul, passando por mais de cem cidades em um período de quase um ano e meio gastando cerca de R$ 15 por dia. Tantos quilômetros foram rodados à base de dedo estendido à beira da estrada, sem roteiro predefinido e sem economias para a viagem. “Depois que terminei a faculdade, não tinha intenção de trabalhar na área jurídica e tampouco sabia o que queria fazer da vida, decidi que viajar seria uma boa forma de pensar no que trabalhar ou mesmo descobrir uma nova paixão ou talento”, conta ela, que cursou direito na UFJF. “Odiei o curso, mas amo Juiz de Fora”, diz ela.
De fato, Larissa encontrou novas aptidões e paixões pelo caminho. “Descobri que amo viajar e escrever sobre isso. No Rosa dos Ventos, faço uma espécie de diário de viagem, com dicas, mas principalmente com meu cotidiano na estrada e impressões sobre minha própria vida”, diz ela sobre a página que mantém no Facebook e que sonha em transformar em livro algum dia. “Mas só depois de conhecer o mundo todo”, diz ela aos risos.
Antes de sair de casa, no dia 15 de março de 2014, Larissa precisou enfrentar a resistência a a hesitação da família e de amigos. “Foi tudo bem até eles se darem conta de que eu estava viajando de um modo pouco tradicional, pedindo carona na estrada, dormindo em estações de trem quando era necessário, trabalhando para me manter viajando e coisas assim. A partir daí, meu pai foi radicalmente contra a minha viagem, e meus amigos diziam que eu era doida – e ainda dizem. Minha mãe, mesmo tendo medos e preocupações, me apoiou bastante”, lembra ela, que voltou para Carangola no dia 1º de agosto de 2015, esticando a viagem, inicialmente prevista para durar quatro meses, em um ano. “Não foi muito planejada. Quando saí de casa, eu sabia algumas cidades que gostaria de conhecer e algumas experiências que gostaria de vivenciar, daí por diante foi o acaso, as coisas vão acontecendo no dia a dia, e, quando você se dá conta, está viajando pelo Peru com amigos argentinos que conheceu em um trabalho voluntário na Bolívia.”
‘O ser humano é essencialmente bom’
Para cruzar parte do Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru e Equador sem dinheiro, Larissa precisou ser determinada e se manter fiel ao objetivo de gastar pouco e viajar muito. “Viajar de carona, dormir em campings e casas de pessoas locais e cozinhar ao invés de comer fora eram hábitos essenciais para eu gastar pouco e poder seguir na estrada. Além disso, eu fazia algumas paradas mais longas em algumas cidades e trabalhava durante um tempo para juntar uma grana”, diz ela, que também chegou a dormir em postos de gasolina e estações e trabalhou como voluntária em hostels em troca de hospedagem.
Além disso, como o deslocamento precisava ser facilitado, excesso de bagagem não era uma opção. “Levava uma mochila pequena para documentos, dinheiro e lanchinho e uma mochila grande, de 80 litros. Como enfrentei climas muito diferentes, eu comprava um casaco quentinho e usava só ele o inverno todo e depois deixava umas coisas para trás, como luva, bota, meia… para não pesar muito.”
Para Larissa, toda a experiência foi transformadora em diversos sentidos, desde as amizades e momentos divididos em lugares novos a aprendizados que transformaram completamente sua postura diante da vida. “Minhas principais mudanças internas foram ter me tornado mais corajosa, mais humilde e mais livre. Pequenos confortos e até mesmo algumas futilidades não existem mais, adotei um estilo de vida simples e tranquilo. Além disso, me libertei, em grande medida, da pressão que a sociedade e até nós mesmos nos impomos: ser magra, mãe e bem-sucedida são coisas que não me preocupam mais”, pondera.
O mais surpreendente para Larissa, ao cruzar fronteiras, foi ver que, mesmo em tempos de tanto ódio, preconceito e desrespeito, nunca faltaram pessoas para lhe estender a mão. “Foi a melhor surpresa: descobrir que existe muita gente boa nesse mundo, e quase todos estão dispostos a te ajudar. O grande aprendizado da minha viagem foi ter me dado conta de que o ser humano é essencialmente bom.”
Perrengues
Mesmo assim, houve trechos da viagem que foram desafiadores, como quando esteve perto de passar fome em solo argentino. “Quando cheguei, segui direto para Bariloche, porque estava com muito pouco dinheiro e tinha a intenção de trabalhar na temporada de inverno por lá. Nunca consegui um trabalho fixo, então foi o primeiro momento da minha vida em que eu não tinha dinheiro nem para comer e precisei me virar muito para ganhar algum dinheiro: fiz ímãs e chaveiros para vender em feiras de artesanato, dei aula de português, vendi comida de porta em porta… foi um momento financeiramente muito complicado e de muita insegurança também”, relembra ela, que também passou por momentos difíceis quando lesionou os meniscos do joelho esquerdo no sul do Chile. “Como lá não existe saúde pública, tive que cruzar a fronteira com a Argentina para ir ao hospital, onde descobri que muito provavelmente teria que fazer uma cirurgia. Me cuidei como pude, com repouso e bolsa de gelo e voltei a caminhar só depois de 20 dias, o que também foi um momento muito difícil da minha viagem, por medo de ter que parar por ali e voltar para casa sem conhecer muitos lugares que tinha em mente”.
Segundo Larissa, as dificuldades apenas reforçaram a necessidade de ter a mente aberta em relação a pessoas e experiências desconhecidas. “Hoje acho que não tenho medo de nada em relação a meu estilo de viagem, mas tenho medo da solidão, embora não tenha medo de estar ou mesmo viajar sozinha.”
‘Espero que encontrem o que estão buscando’
Das mais de cem cidades por que passou, uma deu a Larissa a sensação de estar em casa, apesar das saudades dos pais, da comida brasileira e de rodas de samba, “não existe nada igual”, diz ela. O canto que encantou Larissa foi Pucón, no Chile, onde trabalhou em uma agência de viagens por três meses. “Além de ser uma cidade pequena e acolhedora, com uma série de atividades ao ar livre, foi também onde fiz mais amigos. Além disso, foi lá que morei com Nath, uma das minhas grandes companheiras de viagem e, desde então, uma das minhas melhores amigas da vida.”
Foi com uma de suas companheiras de estrada que Larissa ouviu a frase mais marcante de sua viagem, quando caminhava em Castro, no Chile. “Uma senhora veio nos seguindo e conversando com a gente. ‘Espero que vocês encontrem o que buscam’. A frase nos marcou muito porque nenhuma das duas tinha a menor ideia do que estava buscando e nem se estava buscando algo mais profundo com aquela viagem, ou se era apenas conhecer pessoas bacanas e lugares lindos. Hoje, me dou conta de que fui viajar para mudar de estilo de vida e consegui”, reflete Larissa.
Mesmo tendo encontrado o que buscava (ainda que não soubesse, inicialmente), Larissa teve que enfrentar preconceito e críticas de muitas pessoas que não compreendem seu modo de viajar, que é, atualmente, seu estilo de vida. “O que não aceito são comentários do tipo, ‘quando você vai voltar a vida real?’, ‘quando vai parar de brincar de ser hippie’, ou algum comentário machista. Minha vida e a minha viagem são reais e eu levo tudo isso muito a sério: eu trabalho, saio para correr, cozinho, lavo roupa… a diferença é que faço isso em vários lugares diferentes em um curto prazo de tempo.” O próximo destino onde pretende fazer essas coisas? Provavelmente a Oceania, mas, como é de costume, “nada certo”. A previsão de partida é em novembro, e Larissa tem, sim, o desejo de trocar o nomadismo por algum lugar do mundo, que espera conhecer ao máximo. “Só não sei onde, nem quando.”

